Se as bets “roubavam”, o governo ficava com a maior parte: planilha de CEO mostra que o Estado leva 2,6 vezes o lucro do setor

No carrossel que publicou no Instagram para justificar a proibição das bets, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) afirmou que “as bets sempre ganhavam” e falou no “dinheiro que as bets roubavam de você”. O BNLData já mostrou, na reportagem Selo Narrativa, que o governo arrecadou R$ 9,95 bilhões do mercado regulado em 2025, o equivalente a 27% do GGR.
Depois da publicação, o CEO de uma plataforma de apostas autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF) procurou a redação. Ele pediu para não ser identificado e enviou a demonstração de resultado (DRE) estimada do mercado brasileiro em 2025, construída a partir da realidade da própria operação.
Os números contam uma história diferente da que o governo apresenta. Quem mais ganhou com as bets regulares não foram as empresas. Foi o próprio Estado.
Para onde vão R$ 100 de GGR
De cada R$ 100 que sobram para as operadoras depois do pagamento de prêmios, R$ 27,40 vão para o poder público. É o maior destino do dinheiro, à frente do marketing (R$ 25) e das recompensas devolvidas aos apostadores (R$ 20). O lucro líquido fica em R$ 10,60.

O sócio que mais leva
Pela planilha, o poder público ficou com R$ 10,1 bilhões em 2025. O lucro líquido de todo o mercado regulado foi de R$ 3,9 bilhões. Para cada R$ 1 que as empresas lucraram, o Estado recebeu R$ 2,58.
A maior parcela são as destinações legais, de 12% do GGR, que somam R$ 4,44 bilhões e vão para esporte, turismo, segurança pública, educação, saúde e seguridade. Depois vêm PIS/Cofins (R$ 3,01 bilhões), IRPJ e CSLL (R$ 2,03 bilhões) e ISS (R$ 0,65 bilhão).
A conta, linha a linha
O ponto de partida é o GGR oficial de 2025, de R$ 37 bilhões: tudo o que foi apostado menos os prêmios pagos. Os percentuais de custo são as premissas do executivo. Os tributos foram calculados sobre a base legal.

PIS/Cofins (9,25%) e ISS (2%) incidem sobre os 88% do GGR que sobram depois das destinações legais. Daí os percentuais de 8,14% e 1,76%. Nas despesas operacionais entram aluguel, folha e encargos, CRM, sistemas diversos e jurídico.
O que ainda fica fora da conta
A fatia do Estado na planilha é conservadora. Pelo menos dois pagamentos ao governo não entraram no cálculo.
⇒ Outorga. Cada empresa pagou R$ 30 milhões pela autorização de cinco anos. O executivo não descontou a amortização desse valor.
⇒ Taxa de fiscalização. É cobrada mensalmente pela SPA-MF, por faixa de faturamento, e também ficou de fora.
Com esses dois itens, a participação do poder público seria maior, e o lucro, menor.
O bônus também merece explicação. Desde 2025, a Lei 14.790 proíbe o bônus de boas-vindas e qualquer vantagem antes da aposta. O que o executivo chama de bônus e cashback são recompensas concedidas depois da aposta, como devolução de parte das perdas e free bets de programas de fidelidade. A SPA-MF admite esse tipo de recompensa. Na prática, é dinheiro que volta ao apostador.
A planilha retrata uma média do mercado. O resultado real varia de uma operadora para outra, conforme o porte e a estratégia de cada uma. O próprio executivo diz que sua empresa gasta mais de 25% com marketing.
O que o discurso do governo não mostra
A conta do executivo bate com a do próprio governo. A planilha chega a R$ 10,1 bilhões para o poder público. O dado oficial levantado pelo BNLData aponta R$ 9,95 bilhões. A diferença é de 1,8%.
Os dados da Fazenda ajudam a dimensionar o “roubo”. Em 2025, os apostadores depositaram R$ 220,6 bilhões e receberam de volta R$ 183,7 bilhões em prêmios e bônus sacáveis. Sobre esse total depositado, o lucro das empresas foi de 1,8 centavo por real. O governo ficou com 4,6 centavos.
Se as bets “roubavam” o apostador, como diz a Secom, o governo era o sócio que mais levava. A cada R$ 1 de lucro das empresas, R$ 2,58 iam para União, municípios e as áreas beneficiadas pela lei: esporte, turismo, segurança pública, educação, saúde e seguridade social.
Com a MP que proíbe as bets, essa receita deixa de existir. O apostador não desaparece. Ele migra para sites ilegais, que não pagam imposto, não repassam nada ao esporte e não protegem ninguém.


