CNC atribui ao fim das bets uma queda da inadimplência que seus próprios dados não sustentam

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou nesta quinta-feira (5) a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de outubro. A parcela de famílias com contas em atraso caiu de 29,6% para 29,3%. O economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, aproveitou o resultado para sugerir que o banimento das bets “naturalmente” deixou mais dinheiro no bolso das famílias e ajudou a quitar parcelas atrasadas. A frase virou linha fina no Valor Econômico.
O BNLData analisou o relatório técnico da Peic, o release e a série histórica divulgada pela CNC. Nenhum deles sustenta a tese.

Os técnicos da CNC não citam as bets
O relatório técnico da Peic de outubro não menciona as apostas uma única vez. Os pesquisadores atribuem a melhora ao menor comprometimento da renda e ao menor tempo de atraso, sob o título “Famílias conseguem maior controle sob endividamento e inadimplência”. A tese das bets aparece apenas no release e na fala do economista-chefe.
O próprio release reconhece que ainda não é possível quantificar plenamente o efeito do fim das bets na economia, e que os dados de consumo de outubro do IBGE só serão divulgados em dezembro. A entidade atribui à proibição um resultado que confessa não conseguir medir.
A queda começou antes da proibição
Em agosto, a inadimplência estava em 29,9%. Em setembro, caiu para 29,6%. Em outubro, para 29,3%. As duas quedas têm exatamente o mesmo tamanho: 0,3 ponto percentual.
Em setembro, as bets funcionavam normalmente. A MP 1.394 foi publicada em 25 de setembro, e as plataformas só saíram do ar depois de 5 de outubro, fim do prazo para os apostadores sacarem seus saldos. A própria CNC havia reconhecido, no mês passado, que a Peic de setembro ainda não refletia o efeito da MP. Se a tendência de queda já existia com as bets em plena operação, e o ritmo não mudou depois do banimento, não há nos dados nenhum sinal de efeito da proibição.
Com as bets no ar, a queda foi maior
A série histórica divulgada pela CNC mostra que, entre outubro e dezembro de 2025, com as plataformas em plena operação, a inadimplência caiu de 30,5% para 29,4%: 1,1 ponto em dois meses. Para o mesmo período de 2026, já sem as bets, a projeção da própria CNC é de recuo de apenas 0,1 ponto, para 29,2%.
E os 29,3% de outubro, apresentados como o menor nível do ano, são exatamente o patamar de janeiro de 2026, quando as bets funcionavam normalmente. O percentual de famílias que dizem não ter condições de pagar as dívidas atrasadas, 12,2%, é o mesmo de junho.

Oscilação dentro da margem estatística
A Peic ouve cerca de 18 mil consumidores nas capitais e no Distrito Federal. Com uma amostra desse tamanho, a comparação entre dois meses tem margem estatística de aproximadamente 1 ponto percentual, segundo cálculo do BNLData, já que o relatório da CNC não informa a margem de erro oficial. Uma variação de 0,3 ponto fica dentro desse limite.
A própria CNC classificou o recuo do endividamento como “estabilidade estatística”. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, advertiu que a acomodação dos índices não autoriza “conclusões prematuras”. Na prática, o presidente da entidade desautorizou a leitura do próprio economista-chefe.
O dinheiro não sobrou
Se uma fonte de gastos tivesse sumido, o comprometimento da renda com dívidas deveria cair. Não caiu: a parcela média da renda comprometida ficou parada em 29,6%, igual a setembro. No mesmo levantamento, a parcela de endividados com dívida no cartão de crédito subiu para 85,5%, o maior percentual dos últimos 13 meses. Os financiamentos de carro e de casa também cresceram.
Os mais pobres pioraram
Na faixa de até três salários mínimos, a inadimplência subiu de 38,5% para 38,6%. Foi o único avanço entre todas as faixas de renda. Em abril, a CNC apresentou estudo afirmando que as bets afetavam sobretudo as famílias de menor renda. Se a proibição tivesse liberado dinheiro para pagar dívidas, a melhora deveria aparecer primeiro e com mais força nesse grupo. Aconteceu o contrário.
E não foram só eles. Na faixa de cinco a dez salários mínimos, o endividamento saltou de 77,9% para 79,3%, alta de 1,4 ponto, quase cinco vezes maior que a queda da inadimplência celebrada pela CNC.
A prova do Google
Para sustentar a tese, Bentes recorre a buscas no Google entre 6 e 24 de outubro: itens essenciais de farmácia e supermercado teriam subido 2,4%, Magalu 7,7%, Mercado Livre 1,5% e iFood 0,6%. Busca na internet não é compra, e muito menos quitação de dívida. Não há comparação com o mesmo período de anos anteriores, e a janela inclui o Dia das Crianças, com feriado prolongado, e o aquecimento para a Black Friday.
A medição começa em 6 de outubro, um dia após o fim do prazo para os apostadores sacarem seus saldos. Milhões de apostadores retiraram das plataformas recursos que já eram deles. Se houve algum efeito, é mais provável que venha desse dinheiro devolvido, de forma pontual, do que do fim das apostas. Além disso, relatórios de monitoramento enviados ao BNLData mostram o crescimento dos sites ilegais após a MP. Parte do gasto não desapareceu, apenas migrou para plataformas sem controle de idade, de crédito ou de jogo responsável.
A conta não fecha
Em abril, a CNC afirmou que os brasileiros gastavam R$ 30 bilhões por mês com bets. O GGR oficial do mercado regulado em 2025, informado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF), foi de R$ 36,9 bilhões no ano inteiro, cerca de R$ 3 bilhões por mês. A CNC confunde o volume apostado, que em grande parte volta aos apostadores como prêmio, com o gasto efetivo das famílias.
Quem é a CNC neste debate
A CNC não é observadora neutra. Em janeiro de 2025, divulgou o estudo “O Panorama das Bets”, que atribuía às apostas perdas de R$ 103 bilhões ao varejo, com base em cerca de R$ 240 bilhões destinados às bets em 2024. É um valor de fluxos financeiros, não de gasto líquido. Em abril de 2026, veio o estudo dos R$ 143 bilhões retirados do comércio, equivalentes ao faturamento de dois Natais. O número foi repetido depois pela Secom na campanha contra o setor. Após a MP, a entidade foi ao STF em defesa da proibição.
Há uma contradição nisso. Na apresentação do estudo de abril, Bentes disse que não adianta proibir a atividade, e que o importante é regulamentar publicidade e acesso. E completou: “Não somos contra apostas online”. Seis meses depois, o mesmo economista celebra o banimento.
Veredito
A afirmação de que o fim das bets contribuiu para a queda da inadimplência em outubro não tem comprovação nos dados da própria CNC. A queda começou antes da proibição e manteve o mesmo ritmo depois dela. Foi menor que a registrada no fim de 2025, com as bets no ar, e devolveu o índice ao nível de janeiro. Está dentro da margem estatística da pesquisa e não ocorreu entre as famílias de baixa renda. O relatório técnico da Peic não menciona as apostas, e o release admite que o efeito não pode ser medido.
É a mesma tese que ABRAS e Assaí tentaram emplacar no varejo: uma coincidência de calendário apresentada como causa. Recebe o Selo Narrativa do BNLData.
O apostador que a CNC imagina ter quitado suas dívidas pode estar, neste momento, num site ilegal.


