FactCheck BNLData: pesquisa sobre bets muda de 89% para 61% e mostra que 75% apostavam fora do mercado regulado

Apostas I 06.11.26

Por: Magno José

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Estudo da Talk Inc repercutido pelo Estadão mistura casas autorizadas e clandestinas, usa painel online sem margem de erro e junta “poupar” e “comprar comida” no mesmo indicador

O Estadão publicou nesta quarta-feira (4/11) que seis em cada dez apostadores (61%) deixaram de poupar, pagar contas ou comprar comida por causa das apostas no último ano. O dado é da pesquisa “Os Muitos Lados das Bets”, da Talk Inc, apresentado pela sócia Carla Mayumi em entrevista à Rádio Eldorado. Segundo a reportagem, 31% dos entrevistados têm dívida ligada ao jogo e 43% estariam em alto risco pelos padrões internacionais.

A notícia chega em momento sensível. A Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as bets desde 25 de setembro, está sob questionamento no Supremo Tribunal Federal. Na véspera, o ministro Luiz Fux ouviu governo, entidades e setor em audiência pública sobre o tema.

Veredito do BNLData: Selo Narrativa. O estudo não sustenta a leitura que dele se faz. O número principal mudou 28 pontos percentuais em três semanas sem qualquer explicação pública. A própria pesquisa mostra que só um em cada quatro entrevistados apostava exclusivamente em casas autorizadas. E a amostra, recrutada em painel online, não permite generalizar os resultados para os apostadores brasileiros.

De 89% para 61%: o número que mudou sem explicação

O estudo não é novo. Em 14 de outubro, o Meio & Mensagem divulgou a mesma pesquisa, realizada pela Talk Inc em parceria com a Brazil Panels. Naquela versão, 89% dos apostadores afirmavam ter deixado de poupar, pagar contas ou comprar comida por causa das apostas no último ano. O portal Anti/Hype repercutiu o dado no mesmo dia, com o título “Bets fizeram 89% dos apostadores deixar de poupar, pagar conta ou comprar comida”.

Três semanas depois, a mesma pergunta, da mesma pesquisa, apresentada pela mesma pesquisadora, aparece com 61%. A diferença é de 28 pontos percentuais. Nem a reportagem do Estadão nem a entrevista à Rádio Eldorado mencionam a versão anterior ou explicam a mudança.

Há também uma divergência na amostra. Em outubro, a pesquisa teria ouvido 330 familiares de apostadores. Agora, são 339 pessoas próximas.

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Dado Outubro (Meio & Mensagem) Novembro (Estadão)
Deixaram de poupar, pagar contas ou comprar comida 89% 61%
Familiares/próximos ouvidos 330 339
Apostadores ouvidos 1.800 1.800
Alto risco (PGSI) 43% 43%

Um dos dois números está errado. Se o correto é 61%, a Talk Inc deixou circular por três semanas um dado inflado em quase 30 pontos, que foi reproduzido por outros veículos. Se o correto é 89%, o número de agora é que precisa de explicação. Em qualquer hipótese, um estudo cujo principal resultado oscila dessa forma não pode servir de base para política pública.

Três em cada quatro apostavam fora do mercado regulado

O dado mais relevante da pesquisa não está na manchete. Segundo a própria Talk Inc, apenas 25% dos entrevistados disseram apostar exclusivamente em bets legalizadas. Metade (51%) troca de casa quando acredita que outra paga mais, e 42% escolhem onde jogar a partir de grupos de WhatsApp ou Telegram.

Em outras palavras, 75% dos apostadores ouvidos frequentavam, ao menos em parte, plataformas sem autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF). A pesquisa não separa os danos por tipo de plataforma. Logo, não é possível atribuir ao mercado regulado as contas atrasadas, as dívidas ou os casos de alto risco que ela registra.

A própria Carla Mayumi reconheceu ao Meio & Mensagem que esses comportamentos já existiam antes da MP. Segundo ela, as chamadas “casas chinesas” aparecem nas entrevistas como a alternativa que paga mais, não recolhe imposto e escapa da autoexclusão do Gov.br.

É o mesmo erro que o BNLData já apontou na pesquisa sobre apostas de menores repercutida pelo Estadão: tratar como um só universo o mercado autorizado e o clandestino. Com uma diferença. Aqui, o estudo fornece a prova contra a tese que pretende sustentar. Se três em cada quatro apostadores já circulavam por sites ilegais quando havia alternativa regulada, a proibição não os protege. Apenas elimina a única opção com controle de idade, limites, autoexclusão e fiscalização.

Poupar e comprar comida no mesmo indicador

A manchete do Estadão fala em deixar de “comprar comida”. Mas o número divulgado reúne três situações numa só resposta: deixar de poupar, deixar de pagar contas e deixar de comprar comida. Quem deixou de guardar R$ 50 no mês e quem cortou alimentos da mesa entram na mesma estatística.

O Anti/Hype já havia alertado, em outubro, que a forma de apresentar o dado impede saber quantos entrevistados chegaram de fato a cortar comida. Três semanas depois, a Talk Inc ainda não divulgou os percentuais de cada item.

O resultado é um indicador que serve à manchete, mas não à análise. A situação mais grave, a falta de comida, empresta sua força a um número que pode ser composto, na maior parte, pela mais branda, deixar de poupar.

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Painel online, sem margem de erro, e os 43% de alto risco

Segundo o Estadão, o levantamento foi feito em julho de 2026, por painel online, com 1.800 pessoas que apostam ou apostaram no último ano. Painéis desse tipo reúnem voluntários cadastrados que respondem em troca de recompensas. Não se trata de amostra probabilística, e por isso não há margem de erro. Os resultados descrevem quem respondeu, não o conjunto dos apostadores brasileiros.

Isso ajuda a entender os 43% classificados como de alto risco pelo PGSI (Problem Gambling Severity Index). O índice é reconhecido internacionalmente, mas o resultado depende de quem responde. Painéis online tendem a concentrar apostadores mais frequentes e engajados, o que eleva a proporção de casos graves.

Para comparação, a Organização Mundial da Saúde estima em 1,2% a prevalência de jogo problemático na população adulta. Mesmo considerando que a pesquisa ouviu apenas apostadores, e não toda a população, 43% de alto risco é um número que exige cautela, e não manchete.

A própria pesquisa registra que quase metade dos classificados como de alto risco descreve a própria situação como controlada e equilibrada. A Talk Inc apresenta isso como descompasso de percepção. Pode ser. Mas também pode indicar que o recorte usado para definir o alto risco é mais amplo do que o rótulo sugere.

O que o estudo realmente mostra

Lida com atenção, a pesquisa da Talk Inc diz algo diferente do que a manchete sugere. Ela mostra que, antes da MP, a maior parte dos apostadores ouvidos já circulava por plataformas clandestinas, atraída por pagamentos maiores, ausência de imposto e fuga da autoexclusão. Mostra também que a dívida de quem apostou não desaparece com a proibição.

Nenhum desses achados sustenta a proibição. Ao contrário: indicam que o caminho era fortalecer a fiscalização do mercado ilegal e os mecanismos de proteção do mercado regulado, financiados pela própria atividade por meio dos beneficiários legais da Lei 14.790/2023.

Conclusão

Um estudo cujo principal número muda 28 pontos em três semanas, sem nota de correção, que mistura mercado autorizado e clandestino e que não tem representatividade estatística não pode ser apresentado como retrato dos apostadores brasileiros. Muito menos às vésperas de uma decisão do STF sobre a MP 1.394. Por isso, recebe o Selo Narrativa do BNLData.


Quando os números servem ao discurso, e não aos fatos — Alegações sem base metodológica e estudos sem comprovação usados contra o setor de apostas recebem o Selo Narrativa do BNLData.

 

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