Operação Azzardo: fintech A55 e credenciamentos estaduais no centro da investigação

Apostas I 06.11.26

Por: Magno José

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Operação Azzardo: fintech A55 e credenciamentos estaduais no centro da investigação
Sociedade de crédito direto da Faria Lima teria recebido Pix de apostadores em mais de 100 contas e movimentado cerca de R$ 1 bilhão; três empresas credenciadas pelas loterias da Paraíba e do Rio seguem sem nome revelado

A fintech paulista A55 Sociedade de Crédito Direto é o principal alvo financeiro identificado até agora na Operação Azzardo, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) na quinta-feira (5). Segundo a investigação, o dinheiro enviado por apostadores a sites sem outorga federal caía em mais de 100 contas abertas na instituição, que, com empresas do mesmo grupo, movimentou cerca de R$ 1 bilhão.

A rede investigada usava dezenas de empresas de fachada no DF e movimentou mais de R$ 730 milhões. Um dos pontos mais sensíveis do caso, porém, continua envolto em silêncio: a PCDF não revelou os nomes das três empresas que obtiveram credenciamentos nas loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro e que estão no centro da apuração.

A fintech no centro do fluxo

A A55 tem sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima e é autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto (SCD). De acordo com a PCDF, ela era destinatária de diversas cobranças Pix geradas pelos sites investigados. Parte dos valores seguia depois para empresas investigadas e para plataformas sem autorização federal, inclusive com conversão em criptoativos.

“Esta instituição financeira, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes são alvos das medidas de busca e bloqueio cumpridas na operação de hoje”, informou a PCDF. O bloqueio atinge apenas os recursos próprios da sociedade e preserva as contas de clientes que não são investigados.

A instituição já estava no radar do regulador. Em 30 de julho de 2026, o Banco Central havia divulgado a intenção de cancelar sua autorização de funcionamento. Em março, a Pagsmile chegou a anunciar a compra de 49% da A55, mas o negócio foi encerrado quando a RB Holding concluiu a aquisição da fintech. Em nota, a Pagsmile afirmou não ter participação societária nem vínculo operacional com a A55.

Segundo a Revista Fórum, a A55 foi a fintech que alertou o Coaf sobre movimentações do advogado Willer Tomaz, caso acompanhado pelo BNLData. Procurada pela imprensa, a A55 não havia se manifestado até a última atualização deste texto.

Credenciamentos estaduais como verniz

A investigação atinge três empresas que obtiveram autorizações das loterias da Paraíba e do Rio de Janeiro. A PCDF descreveu o papel de cada uma, mas não divulgou os nomes:

⇒ a primeira é administrada pelo mesmo grupo que controla uma das principais concentradoras de recursos do esquema. Teve trocas frequentes de sócios e procuradores e mantinha a maior parte das contas em instituições não credenciadas pela loteria estadual. Quatro dessas contas foram abertas antes mesmo de a empresa obter a autorização;

⇒ a segunda é um consórcio autorizado apenas 15 dias depois de constituído. Entre suas integrantes estavam empresas apontadas como destinatárias de dinheiro de vítimas de estelionato e que transacionavam com as empresas de fachada de Sobradinho e Ceilândia;

⇒ a terceira aparece nos relatórios financeiros como concentradora final dos valores recolhidos pelas contas de Pix.

Segundo a PCDF, os credenciamentos estaduais não substituíam a outorga federal exigida para apostas de quota fixa, e nenhum dos sites investigados constava das permissões concedidas. As autorizações deixaram de produzir efeitos após o prazo de transição da Medida Provisória nº 1.394/2026.

O prazo de apenas 15 dias entre a constituição do consórcio e sua autorização é o dado que mais exige explicação das loterias estaduais envolvidas. Cabe à Lotep e à Loterj esclarecer quais empresas credenciadas são alvo da operação e quais critérios foram usados na análise dos pedidos.

A operação em números

A investigação começou há cinco meses, a partir de comunicações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), antes mesmo da proibição das bets. Os sites, todos sem outorga federal, eram divulgados em redes sociais e apareciam em buscas do Google. Os pagamentos via Pix caíam em empresas sem relação declarada com apostas, como uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô em Sobradinho.

Item

Dado

Policiais mobilizados cerca de 200, de seis unidades da Federação
Mandados de busca e apreensão 50 (24 no DF)
Estados além do DF SP, GO, PR, CE e RN
Bloqueio autorizado até R$ 3,483 bilhões
Alvos do bloqueio 64 pessoas físicas e 120 jurídicas
CNPJs e registros suspensos 100 empresas e empresários individuais
Sigilos afastados 82 pessoas físicas e 83 jurídicas
Proibição de novas contas 90 dias
Criptoativos bloqueados R$ 280 mil
Prisões nenhuma nesta fase

As empresas de fachada foram abertas entre fevereiro e julho de 2026, com capitais sociais idênticos e endereços em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Em um único lote de Ceilândia, dez delas informavam o mesmo telefone. Pessoas em situação de vulnerabilidade recebiam R$ 200 para ceder seus dados.

Os investigados podem responder por exploração de loteria não autorizada, estelionato mediante fraude eletrônica, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os próximos passos são identificar os verdadeiros donos das empresas e rastrear o destino final do dinheiro.

O caso mostra que o mercado ilegal já operava em larga escala antes da MP 1.394 e que foi a estrutura de fiscalização criada pela regulação, por meio da SPA, que permitiu identificá-lo. O jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível.

 

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