FactCheck BNLData: Assaí chama de “volume” uma alta que é quase só inflação

Pela terceira vez em menos de um mês, o presidente do Assaí, Belmiro de Figueiredo Gomes, atribui ao fim das bets uma melhora nas vendas da rede. Desta vez, a tese ganhou um número. Em entrevistas ao Valor nesta quinta e sexta-feira (5 e 6), ao comentar o balanço do terceiro trimestre, o executivo disse que as vendas nas mesmas lojas cresceram 3,9% em outubro e que a mudança começou “praticamente quase ato contínuo” à proibição. Segundo ele, o movimento é de maior volume de compra de alimentos pelas famílias de baixa renda e pelas mercearias de bairro, e a projeção é de um ganho de 4% a 5% na base total de vendas de alimentos, com a perspectiva de um Natal mais farto.
O BNLData cruzou as declarações com os dados do próprio Assaí, do IBGE, do governo federal e do principal concorrente da rede. O resultado: o número existe, mas não demonstra o que o executivo afirma.
⇒ Venda nominal não é volume
Os 3,9% medem faturamento em reais, não quantidade de produtos. O Assaí não divulgou dado de volume, de itens vendidos nem de número de tickets em outubro. Os preços dos alimentos voltaram a subir justamente agora. No IPCA-15 de outubro, a alimentação no domicílio subiu 1,01%, depois de 0,38% no mês anterior. Em 12 meses até setembro, o subgrupo já acumulava alta de 4,21%. Ou seja, um crescimento nominal de 3,9% fica no mesmo nível ou abaixo da inflação dos alimentos. Em termos reais, isso pode significar estabilidade ou até queda de volume por loja.
O raciocínio inverso vale para o terceiro trimestre, que a rede apresenta como prova do estrago das bets. As vendas mesmas lojas cresceram só 0,1% num período em que a alimentação no domicílio caiu 1,14% em julho e 0,61% em agosto. Com preço em queda, a venda nominal encolhe. Com preço em alta, ela “melhora”.
Na segunda entrevista, o próprio Belmiro confirma a leitura. A meta que ele apresenta é que as vendas mesmas lojas voltem a acompanhar a inflação, o que diluiria despesas. Crescer no ritmo dos preços é recuperar o nominal, não vender mais comida.
⇒ Outubro teve outros estímulos ao mesmo tempo
A alta atribuída às bets aconteceu num mês com pelo menos três outros fatores, todos voltados ao mesmo público que o Assaí diz ter voltado às lojas.
O primeiro é o Bolsa Família. A parcela de outubro foi a primeira com o reajuste de 15,04, que elevou o piso de R$ 600 para R$ 691 por família. O pagamento foi antecipado e concentrado entre 19 e 21 de outubro, para um programa que atende cerca de 54 milhões de pessoas. O governo informou que a mesma antecipação vale para as folhas de novembro e dezembro. Esse é o dinheiro que pode, de fato, engordar o Natal das famílias de baixa renda.
O segundo é a campanha de aniversário de 52 anos da rede, que vai de 1º a 31 de outubro. Ela distribuiu mais de R$ 15 milhões em prêmios, 50% a mais que os R$ 10 milhões de 2025, com compras grátis sorteadas no caixa e condições especiais negociadas com a indústria para baixar preços.
O terceiro é o dinheiro que voltou dos apostadores. O prazo para sacar os saldos das plataformas terminou às 23h59 de 5 de outubro, e uma parte desse valor pontual voltou para o bolso dos apostadores no início do mês medido. Some-se o calendário eleitoral do segundo turno.
Na entrevista de quinta-feira, nenhum desses fatores aparece. Na de sexta, a própria reportagem registra que o ritmo de outubro foi apoiado também pela campanha de aniversário.
⇒ Com as bets funcionando, outubro de 2025 cresceu mais
Em outubro do ano passado, com o mercado de apostas em plena operação, as vendas mesmas lojas do Assaí subiram 5,2%. À época, o Itaú BBA avaliou que o resultado não era sustentável, por ter sido impulsionado pela campanha promocional e pelo aniversário, ambos no mesmo mês, com margem menor e gasto maior com marketing.
Há uma ressalva necessária. Em 2024 a campanha aconteceu em agosto e setembro, então a base de outubro de 2024 não tinha promoção, o que inflou os 5,2% de 2025. Ainda assim, o ponto central se mantém: outubro é o mês forte do Assaí, e há um ano o mercado leu a mesma alta como efeito da promoção, não como mudança de comportamento do consumidor.
⇒ Uma explicação diferente a cada trimestre
No primeiro trimestre de 2026, quando as vendas mesmas lojas recuaram 0,9%, o Assaí culpou a deflação de alimentos e a perda de poder de compra da baixa renda. No segundo, disse que os jogos da Copa tiraram cerca de 1 ponto percentual das vendas. Agora, com o número no azul, o mérito vai para a proibição das bets.
A comparação com o concorrente também pesa. No mesmo terceiro trimestre, ainda com as bets operando, o Atacadão, do Carrefour, cresceu 2% em mesmas lojas e melhorou o desempenho pelo terceiro trimestre seguido. O Assaí ficou em 0,1%. O problema parece ser da empresa, não do setor.
⇒ Uma projeção maior que todo o mercado de apostas
A estimativa de ganho de 4% a 5% para as vendas de alimentos não veio acompanhada de metodologia. A conta de ordem de grandeza não fecha. O GGR oficial das bets em 2025, ou seja, o que os apostadores efetivamente perderam, foi de R$ 36,9 bilhões, segundo a SPA/MF. Os supermercados faturaram R$ 1,067 trilhão em 2024, segundo a ABRAS. Mesmo que cada real perdido nas apostas fosse inteiro para o carrinho de compras, o efeito ficaria perto de 3,5%. Para chegar a 4% ou 5%, seria preciso mais de 100% do GGR, sem sobrar nada para dívidas, serviços, lazer ou o mercado ilegal, que segue ativo.
⇒ O próprio executivo recua
Na quinta-feira, o efeito era imediato. Na sexta, Belmiro disse que é preciso esperar para ver como isso vai se comportar em novembro e dezembro antes de cravar o fenômeno. Ele também lembrou que o endividamento das famílias e os juros continuam pressionando o consumo.
Não é a primeira vez. Em outubro, o BNLData mostrou que o relatório do BTG Pactual citado como prova da melhora não trazia nenhum número que a comprovasse, e que Belmiro associa as bets ao desempenho da rede desde 2023. Se a tese estiver certa, o caminho para prová-la é simples: divulgar o volume vendido, o número de tickets e quanto dos 3,9% a empresa atribui à campanha de aniversário e ao Bolsa Família.
Selo Narrativa BNLData
Quando os números servem ao discurso, e não aos fatos
Alegações sem base metodológica e estudos sem comprovação usados contra o setor de apostas recebem o Selo Narrativa do BNLData


