Tipsters divulgam bets e ensinam a driblar veto de Lula, e clientes reclamam de golpes

Apostas I 08.11.26

Por: Magno José

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Reportagem da Folha de S.Paulo revela que influenciadores ensinam como contornar a proibição do governo e clientes denunciam não pagamento de prêmios

Coaches especializados em sugestões de apostas esportivas, conhecidos nas redes sociais como tipsters, passaram a oferecer orientações para contornar o veto do governo às bets a partir de 25 de setembro. O Ministério da Justiça identificou mais de 4.000 perfis divulgando jogos ilegais e comunicou as plataformas digitais sobre as irregularidades.

A Folha de S.Paulo monitorou dez grupos no Telegram e no Discord ao longo da semana, parte deles facilmente localizáveis por buscas no Instagram e no X pelo termo “tipster”. Os grupos podem reunir centenas de milhares de pessoas; o maior deles contava com 26.589 membros e está vinculado a perfis com mais de 100 mil seguidores.

Bolão eleitoral e acusações de calote

Entre as práticas identificadas, tipsters passaram a organizar rodadas de prognósticos em eventos esportivos e até nas eleições presidenciais brasileiras. O influenciador Diogo Pólvora, conhecido pelo apelido MD Tips, montou um bolão sobre o resultado do segundo turno da disputa pelo Palácio do Planalto. Em 15 publicações no X, participantes acumularam mais de mil curtidas em queixas de que não receberam as premiações, registradas até 31 de outubro.

Pólvora ofereceu bonificação de seis vezes o valor apostado em caso de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), montante que seria depositado na Polymarket, plataforma de mercados preditivos proibida no Brasil desde abril. A oferta superava os cálculos da própria Polymarket, que estimou a chance de vitória de Lula sempre acima de 12%, percentual de referência para uma bonificação nessa proporção.

Procurado por email, telefone e mensagens no X, o influenciador não respondeu à reportagem. Em nota divulgada nesta terça-feira (1/11) nas redes sociais, Pólvora afirmou ter usado recursos próprios para devolver “todos os valores originalmente depositados pelos participantes”. O comunicado atribuiu o atraso nos repasses a uma quebra de contrato com um fornecedor não identificado. Após o episódio, ele alterou o apelido nas redes para MD Sem Tips. Só no X, o perfil acumula 165 mil seguidores.

Sites ilegais e criptomoedas

Nos grupos monitorados, administradores indicam sites de apostas que seguem acessíveis no Brasil. O portal americano 1win.com, por exemplo, aceita pagamentos com USDT, criptomoeda ancorada no dólar e integrada ao Pix por instituições de pagamento. Para conferir credibilidade ao site, o administrador do grupo ESoccer Global, no Telegram, cita o patrocínio do lutador Jon Jones, ex-campeão dos pesos-pesados do UFC (Ultimate Fighting Championship), ao portal.

“Decidi montar uma lista com as casas atuais, reforçando que atualmente essas casas não são regulamentadas, não é propaganda e não me responsabilizo”, afirmou o administrador do canal.

Canais como Layback e Sharktool, no Discord, e Arkeiros Trading, no Telegram, oferecem softwares para apostar na plataforma britânica Betfair, do mesmo grupo da brasileira BetNacional, atualmente sob restrição, e nas plataformas Kalshi e Polymarket. Usuários relataram perdas ao tentar fazer depósitos na Polymarket, cujos pagamentos exigem criptomoedas.

A multinacional Flutter, listada na Bolsa de Nova York e controladora da Betfair, confirmou em nota manter parceria com o SharkTool, software voltado ao trading esportivo, modalidade de apostas proibida no Brasil em que os prêmios são definidos pelos prognósticos dos concorrentes.

Fiscalização e remoções

A Sedigi (Secretaria de Direitos Digitais), vinculada ao Ministério da Justiça, vasculha redes sociais para identificar bets ilegais. O Laboratório de Operações Cibernéticas da secretaria localizou 2.898 sites, cerca de 700 perfis no TikTok e no Instagram, 1.295 grupos no Telegram e um servidor no Discord que promoviam jogos clandestinos.

A Meta, dona do Instagram, afirmou trabalhar para cumprir as determinações do governo. Segundo relatório da Sedigi obtido via Lei de Acesso à Informação, a empresa restringiu pelo menos 840 URLs a pedido das autoridades desde a publicação da medida provisória que vetou as apostas online e removeu outras 590 páginas por iniciativa própria. Discord e X não apresentaram dados consolidados sobre as medidas tomadas contra perfis que divulgam bets ilegais.

O TikTok informou ao governo a remoção de 27.882 anúncios entre 25 de setembro e 3 de outubro, dos quais 450 foram retirados a pedido das autoridades. A plataforma afirma ter sempre proibido a propaganda de jogos de azar.

A oferta de prognósticos esportivos é vedada por medida provisória assinada por Lula e enquadrada como crime contra o consumidor, com pena de até um ano de reclusão. O governo tenta aprovar um projeto de lei para criminalizar a atividade com pena de até seis anos para intermediadores de apostas. A Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada à Fazenda, bloqueou mais de 126 mil sites ilegais desde o início da fiscalização em 2024 e também determina o bloqueio das contas financeiras usadas nessas operações.

 

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