Apostas com informações privilegiadas geram lucros de US$ 143 mi em plataformas

Apostas I 08.06.26

Por: Magno José

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Mercados de previsão viram febre digital e colocam sistema de pagamentos à prova
Levantamento do Financial Times analisou apostas consideradas “ousadas” sobre ação militar. O estudo classificou como ousadas as apostas acima de US$ 25 mil ou com chances abaixo de 35%. Essas apostas apresentam 52% de acerto. O percentual de acerto para apostas em geral é de 14%

Apostadores com acesso a informações confidenciais lucraram milhões de dólares em plataformas de mercados preditivos nos Estados Unidos. As operações envolveram eventos geopolíticos e militares. Um soldado das forças especiais americanas investiu US$ 33 mil em contratos sobre a captura de Nicolás Maduro e lucrou US$ 436 mil. A operação ocorreu dias antes da prisão do ditador venezuelano.

Um trader identificado pelo pseudônimo Magamyman aplicou mais de US$ 553 mil em apostas sobre a morte de Ali Khamenei. As apostas foram realizadas horas antes dos ataques que mataram o líder supremo iraniano em 28 de fevereiro, conforme informações do artigo de Felipe Buchbinder, doutor em Administração e professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV, veiculado pelo VALOR.

O soldado que apostou na captura de Maduro participava do planejamento da operação secreta.

Pesquisadores da Universidade de Columbia e da Universidade de Haifa estimam que apostadores com informações privilegiadas obtiveram US$ 143 milhões em lucros na plataforma Polymarket. Os eventos incluíram desde o noivado de Taylor Swift até o Prêmio Nobel da Paz.

Apostas “ousadas” apresentam taxa de acerto elevada

Levantamento do Financial Times analisou apostas consideradas “ousadas” sobre ação militar. O estudo classificou como ousadas as apostas acima de US$ 25 mil ou com chances abaixo de 35%. Essas apostas apresentam 52% de acerto. O percentual de acerto para apostas em geral é de 14%.

A concentração de lucros é extrema. Estudo do Wall Street Journal revelou que 67% do lucro obtido no Polymarket são apropriados por apenas 0,1% das contas. Mais de 70% das contas perdem dinheiro na plataforma.

Apostadores profissionais e empresas com acesso a grandes quantidades de dados dominam o mercado. Esses participantes utilizam modelos de Big Data e inteligência artificial para captar informações privilegiadas. O apostador comum arca com os custos do sistema. Os lucros se concentram entre participantes com maior capacidade de análise de dados.

Mudanças regulatórias abriram espaço para investidores institucionais

A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) passou por transformações profundas desde 2024. O conselho de cinco membros bipartidários foi substituído por um único membro. A agência exonerou boa parte de seus fiscais. A classificação do setor foi alterada de jogos de azar para mercados de derivativos.

A CFTC argumenta que mercados de previsão diferem das bets. Nas bets, o apostador joga contra a casa. A casa determina o preço e o prêmio. Nos mercados preditivos, a empresa funciona como uma bolsa de valores. As partes compram e vendem contratos de receber determinado valor caso um evento ocorra. A empresa cobra taxas pela intermediação.

A reclassificação gera implicações práticas. Estados não podem proibir ou regular o mercado. A CFTC tem processado Estados que tentaram proibir mercados de previsão em seus territórios. A agência alega que compete apenas à União regular sobre o tema. A tributação se limita a ganho de capital. Prejuízos eventuais podem ser usados para compensar ganhos de capital em outros ativos.

Instituições que não podem fazer jogos de azar mas podem investir em derivativos passam a poder participar desse mercado. A International Exchange, proprietária da bolsa de valores de Nova York, investiu US$ 2 bilhões na Polymarket. O Goldman Sachs passou a apresentar probabilidades inferidas a partir das apostas ao lado de indicadores macroeconômicos tradicionais.

Wall Street legitima mercados de apostas como fontes de informação

As movimentações servem para legitimar os mercados de apostas como fontes de informação. O argumento se baseia na sabedoria das massas. Goldman Sachs, Deutsche Bank e Federal Reserve fizeram relatos similares em casos de indicadores macroeconômicos.

Estudos demonstram o poder preditivo desses mercados. Pesquisa analisou 964 pesquisas eleitorais americanas realizadas entre 1988 e 2004. As apostas no Iowa Electronic Markets superaram previsões de especialistas 74% das vezes. As eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024 e o Oscar 2026 ilustram o poder preditivo desses mercados frente a acontecimentos em tempo real.

Riscos à segurança nacional

Felipe Buchbinder afirma que o uso de informações sigilosas para lucro individual é moralmente errado e geopoliticamente preocupante.

Apostas de valores elevados ou realizadas com frequência revelam segredos que governos se esforçam para proteger. O senador americano Richard Blumenthal acusou os mercados de previsão de terem se tornado um fórum lícito para venda de informações privilegiadas de segurança nacional.

Regulação no Brasil

A legislação brasileira concorda com o argumento da CFTC sobre a diferença entre mercados de previsão e bets. A Resolução nº 5.298, de 24 de abril de 2026, do Conselho Monetário Nacional (CMN) proíbe mercados de predição sobre eventos políticos, eleitorais e outros no Brasil. A resolução não proíbe as bets. As bets são reguladas pela lei 14.790/23. A norma deixa a porta aberta para mercados de previsões sobre indicadores macroeconômicos.

 

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