Apostas online ameaçam futuro das lotéricas tradicionais, diz empresário

Ricardo Amado Costa, proprietário da Lotérica Campo Grande, compartilha sua experiência de quatro décadas no setor de apostas. Em entrevista ao podcast Virada de Chave do Campo Grande News nesta segunda-feira (14), o empresário de 62 anos discutiu as transformações do mercado e a crescente concorrência das plataformas digitais.
O empresário administra um dos estabelecimentos mais tradicionais da capital sul-mato-grossense, onde acompanha de perto as mudanças tecnológicas que impactam o setor lotérico. “Estamos vivendo um momento de transição muito grande no mercado de apostas”, observa Ricardo, que testemunhou diversas transformações ao longo de sua carreira.
Entre sonhos e probabilidades
Quando questionado sobre as chances reais de ganhar na Mega Sena, Ricardo é direto: “Dá. Mas sem sorte, é quase impossível. A probabilidade é de uma em 51 milhões.”
O sistema de loterias da Caixa distribui apenas 30% do valor arrecadado em prêmios, enquanto o restante é direcionado para a manutenção do sistema e para destinações sociais, conforme explica o empresário.
“Lidar com sonhos é uma responsabilidade enorme. As pessoas chegam acreditando que ali pode estar a solução da vida delas”, afirma Ricardo, que iniciou sua trajetória no setor em 1984, aos 21 anos, quando trocou a estabilidade do emprego bancário pelo empreendedorismo.
Com o apoio de sua mãe, ele optou por investir em uma casa lotérica em vez de um açougue, decisão que marcou o início de sua carreira como empresário do setor. “Foi uma decisão arriscada na época, mas que se mostrou acertada com o passar dos anos”, relembra o empresário.
A concorrência das apostas digitais
O mercado de loterias enfrentou diversas transformações ao longo das décadas. Desde o Plano Collor até a inclusão de serviços bancários nas lotéricas, da popularização do Pix ao surgimento das plataformas de apostas online, o setor tem se reinventado constantemente.
As plataformas virtuais de apostas, conhecidas como “tigrinhos” e “aviõezinhos”, representam hoje um desafio significativo para estabelecimentos físicos como o de Ricardo. “O mercado mudou completamente. Hoje, com um celular na mão, qualquer pessoa pode apostar a qualquer momento, em qualquer lugar”, explica o empresário.
Como presidente da Federação Brasileira das Empresas Lotéricas (Febralot), ele tem acesso a informações preocupantes sobre o mercado. As apostas online movimentam aproximadamente R$ 30 bilhões mensais, superando a arrecadação anual das loterias da Caixa em 2023.
“Ou nos tornamos canais de comercialização desses novos jogos, ou vamos desaparecer”, alerta o empresário, que também demonstra preocupação com a ludopatia e defende uma regulamentação mais rigorosa para o setor. “É preciso ter regras claras para proteger tanto o apostador quanto os negócios tradicionais”, defende.
Em sua lotérica, Ricardo observa comportamentos peculiares dos apostadores, como o cliente que sempre faz quatro jogos idênticos, um para cada filho, evitando possíveis conflitos em caso de vitória, ou os bolões corporativos motivados pelo receio de ficar de fora.
A venda de bilhetes premiados da Lotofácil em seu estabelecimento impactou positivamente os negócios. “As pessoas acham que se já saiu uma vez, pode sair de novo. E voltam”, comenta.
Relacionamento como diferencial competitivo
As casas lotéricas funcionam como pontos de encontro comunitário, indo além do serviço de apostas. “Tem cliente que vem só conversar. Fala da novela, do time. Criamos vínculos reais”, explica Ricardo.
Um mesmo cliente pode retornar até 12 vezes por mês à mesma lotérica, seja para pagar contas, fazer apostas ou simplesmente manter o hábito. Esta conexão com a comunidade tem sido fundamental para a sobrevivência do negócio em tempos de digitalização.
A trajetória profissional de Ricardo inclui momentos de reinvenção. Ele chegou a vender sua lotérica para abrir uma agência de viagens, mas acabou retornando ao setor. “Descobri que todo negócio tem sua dificuldade. E vi que a lotérica ainda era meu lugar”, conta o empresário.
Atualmente, ele administra duas casas lotéricas com 20 funcionários e aposta em produtos diferenciados e atendimento personalizado para se manter competitivo, atraindo inclusive clientes de outros estados. “O que nos salva é o relacionamento”, afirma.
No entanto, Ricardo enfrenta limitações impostas pela legislação, que proíbe atividades complementares no espaço, como a venda de café ou impressão de segunda via de contas. “A estrutura está envelhecida. Precisamos de mudanças para sobreviver”, avalia sobre as restrições legais que impedem a diversificação das atividades.
Com o avanço de tecnologias como o Pix e outras formas de pagamento digital, as casas lotéricas precisam se adaptar constantemente para permanecerem relevantes no mercado. “A tecnologia trouxe facilidades, mas também novos desafios para nosso setor”, reconhece Ricardo, que busca constantemente formas de modernizar seu negócio sem perder a essência do atendimento pessoal.
Quando questionado sobre conselhos para quem deseja tentar a sorte nas loterias, Ricardo tem uma filosofia clara: “Aposte com esperança, ganhe com alegria e gaste com responsabilidade. O dinheiro não aguenta desaforo.”
Em um cenário onde as apostas online crescem exponencialmente, o empresário oferece uma reflexão sobre os riscos e limites do jogo. “Tem gente que ganha e perde tudo. Trabalhar, continuar vivendo com os pés no chão, isso sim é sorte”, finaliza Ricardo. Para ele, o maior desafio atual é encontrar o equilíbrio entre a tradição das lotéricas físicas e a inevitável evolução digital do mercado de apostas.


