Apostas online movimentam US$ 1 bi com operações militares e mortes de líderes

Plataformas de apostas online movimentaram mais de US$ 1 bilhão em previsões sobre operações militares e mortes de lideranças políticas. O advogado Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, publicou artigo na Folha de S.Paulo no domingo (29) detalhando o crescimento desse mercado.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, apenas as apostas relacionadas à saída de Ali Khamenei do poder no Irã alcançaram US$ 194 milhões, evidenciando a dimensão que esse tipo de mercado preditivo alcançou nos últimos meses.
As plataformas Polymarket e Kalshi expandiram seus mercados para incluir eventos geopolíticos e conflitos armados. A expansão ocorreu após a escalada de operações militares que resultaram na guerra do Irã.
Apostadores individuais faturaram mais de US$ 500 mil no Polymarket com previsões sobre a morte do líder iraniano. Um apostador específico acumulou mais de US$ 1 milhão com taxa de acerto próxima a 100% em dezenas de operações militares. O padrão identificado mostra apostas realizadas poucas horas antes das operações acontecerem.
A Kalshi cancelou todas as apostas relacionadas à morte de Khamenei. A empresa devolveu o dinheiro aos apostadores. A decisão gerou indignação porque a plataforma havia promovido intensamente esses mercados em redes sociais nos dias anteriores.
Um episódio em 7 de janeiro deste ano evidenciou o potencial de manipulação desses mercados. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, encerrou uma conferência com jornalistas exatamente aos 64 minutos e 40 segundos. Havia apostas de que a conferência duraria menos de 65 minutos. A probabilidade de ultrapassar os 65 minutos era de 98% no momento da interrupção. Quem apostou pelo “não” ganhou 50 vezes o valor apostado. O episódio viralizou com acusações de que a secretária agiu intencionalmente.
Um militar israelense foi indiciado por apostar em operações secretas. A extensão do envolvimento de agentes públicos em esquemas de enriquecimento por meio dos mercados de apostas permanece sob investigação.
Cuba tornou-se o novo foco dos mercados de apostas. Mais de US$ 934 milhões já foram apostados sobre o país. A probabilidade de ataque dos EUA a Cuba está em 35% até dezembro de 2026. A chance do presidente Miguel Diaz-Canel “deixar” o poder até dezembro é de 64%.
A Polymarket decidiu revogar e arquivar totalmente os mercados relacionados a ataques e detonações nucleares criados no início de março. Em fevereiro de 2026, houve apostas no ataque conjunto dos EUA e Israel ao Irã.
Senadores nos EUA começaram a debater o tema após o episódio com a secretária de imprensa da Casa Branca. Há diversos projetos de lei nos EUA para regular ou proibir mercados preditivos. Nenhum parece avançar.
Ronaldo Lemos afirma no artigo que há um “flagrante problema moral de se apostar em morte e em conflitos geopolíticos”. O autor destaca o “problema dos incentivos econômicos para a realização de operações militares”. Segundo Lemos, “tudo isso mostra o avanço da ‘betificação’ do mundo. As bets não são só uma atividade econômica. São uma condição existencial, que vai colonizando várias dimensões da vida humana”.
Não está claro se há vazamento sistemático de segredos institucionais e militares para apostadores. Os interesses no enriquecimento com apostas já estão entrincheirados.


