Bets, crise reputacional e o desafio de reconstruir a legitimidade do setor

O mercado regulado de apostas no Brasil atravessa um dos momentos mais sensíveis desde o início da regulamentação federal. Em meio ao crescimento das críticas públicas, do avanço de discursos políticos mais restritivos e da associação cada vez mais frequente das bets a temas como endividamento, vício e vulnerabilidade social, aumenta também a discussão sobre a capacidade da própria indústria de explicar seu papel perante a sociedade.
O BNLData conversou com Joberto Porto, Chief Legal Officer da CDA Gaming, e Waldir Marques, Diretor de Relacionamentos da Todos Querem Jogar (TQJ) sobre a crise reputacional enfrentada pelo setor, os desafios de comunicação institucional, o papel das lideranças empresariais no debate público e a necessidade de amadurecimento do mercado regulado brasileiro.
Sem negar as externalidades negativas que envolvem o tema, ambos defendem que a ausência de presença pública qualificada e da falta de divulgação dos dados oficiais permitiu que a indústria passasse a ocupar, muitas vezes, apenas a posição de acusada no debate nacional. Também destacam a importância de ampliar o diálogo com a sociedade, diferenciar o mercado regulado da clandestinidade e fortalecer a legitimidade institucional do segmento.
O setor de apostas vive seu momento mais delicado desde a regulamentação?
Joberto Porto – Sim! E não por falta de normas, tecnologia, controles ou capacidade econômica. O problema central é que a indústria de apostas online demorou a ocupar o debate público de forma qualificada. Enquanto o setor se preparava para operar, cumprir exigências, obter autorizações, certificar sistemas e estruturar compliance, as narrativas contra as bets, muitas delas alicerçadas em dados exagerados e incompatíveis com a realidade, foram sendo construídas sem contraponto proporcional.
A indústria foi prudente ou omissa?
Waldir Marques – Acredito que houve, sim, uma postura de prudência por parte relevante da indústria, especialmente porque estamos falando de um mercado recém-regulado, altamente sensível e sujeito a intenso escrutínio político e social. Muitas empresas priorizaram corretamente a adequação regulatória, compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e jogo responsável.
Por outro lado, em determinados momentos, essa prudência acabou sendo interpretada como ausência no debate público. Enquanto o setor estava concentrado em estruturar operações dentro das novas exigências regulatórias, outros grupos atingidos pela nova atividade econômica passaram a ocupar esse espaço narrativo perante a sociedade, o Congresso e a imprensa.
O desafio agora é encontrar um equilíbrio: manter o compromisso regulatório e a responsabilidade institucional, mas também participar de forma mais ativa da construção do debate público, apresentando dados, diferenciação entre mercado regulado e ilegal, medidas de proteção ao consumidor e os impactos econômicos positivos do setor. Em mercados regulados, comunicação institucional também é parte da responsabilidade do ecossistema.
Qual é o principal risco da falta de debate institucional com a sociedade neste início de operação?
Joberto Porto – O risco é permitir que a sociedade passe a enxergar as bets não como uma atividade econômica regulada, séria, geradora de empregos e renda, mas como uma explicação simples para problemas sociais muito mais amplos, como endividamento, vício, desorganização familiar e vulnerabilidade social. Quando isso acontece, a técnica deixa de chegar primeiro. Antes dela, chega à condenação pública.
O setor falhou na comunicação?
Joberto Porto – Houve uma falha de governança e posicionamento. Mercados regulados não se sustentam apenas com licenças, auditorias, relatórios, certificações e pareceres. Eles também precisam de lideranças capazes de explicar seu papel, enfrentar distorções, assumir responsabilidades e dialogar com a sociedade antes que a crise se transforme em sentença pública.
Quem deveria assumir essa defesa pública?
Waldir Marques – Essa responsabilidade precisa ser compartilhada por todo o ecossistema regulado. Não é um papel exclusivo das associações setoriais ou dos operadores. Um mercado regulado se fortalece quando todos os seus participantes compreendem que reputação institucional também é uma responsabilidade coletiva.
Estamos falando de operadores, fornecedores de tecnologia, meios de pagamento, plataformas, laboratórios de certificação, consultorias, investidores, executivos do setor e órgão regulador. Cada elo da cadeia possui legitimidade e capacidade de contribuir para um debate público mais técnico e equilibrado.
Vejo como positiva, por exemplo, a recente entrevista concedida por Guilherme Figueiredo da Betano à Veja, porque iniciativas assim ajudam a ampliar o debate para além dos ambientes especializados do setor. O mercado regulado precisa dialogar mais com a imprensa formadora de opinião, com a sociedade e com o próprio poder público.
Existe hoje uma assimetria de informação muito grande. Muitas vezes o debate mistura mercado regulado e operação ilegal como se fossem a mesma coisa. O desafio do setor é justamente explicar essa diferença, demonstrar os mecanismos de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, jogo responsável, rastreabilidade financeira e controle regulatório existentes no ambiente autorizado.
Se o setor não ocupar esse espaço institucional e de comunicação, outras narrativas ocuparão.
Compliance, jogo responsável e arrecadação não seriam suficientes para defender a legitimidade do setor?
Joberto Porto – Não! Compliance é indispensável, mas não comunica sozinho. Certificação é essencial, mas não forma opinião pública. Arrecadação é relevante, mas não neutraliza narrativas emocionais ou percepções públicas distorcidas sobre as bets e o mercado regulado. Controles são necessários, mas não explicam, por si mesmos, porque a regulação é melhor do que a clandestinidade. O setor errou ao imaginar que esses elementos falariam por si, mas não falaram.
Existe uma fragmentação do setor?
Waldir Marques – Em certa medida, sim. O mercado reúne operadores, fornecedores, associações, prestadores de tecnologia, meios de pagamento e diversos outros agentes, mas nem sempre atua com a coordenação necessária em temas institucionais. Isso é compreensível em uma indústria ainda recente sob o ponto de vista regulatório, mas precisa evoluir. Uma cadeia econômica robusta não pode responder de forma dispersa quando enfrenta uma crise reputacional de alcance nacional.
Por que a narrativa contra as bets ganhou tanta força?
Joberto Porto – Porque ela encontrou uma premissa simples, emocional e politicamente eficiente: transformar as bets em um símbolo da desorganização financeira e familiar brasileira, aproveitando-se do déficit de imagem dos jogos devido ao longo período de proibição. A formulação é dura, mas revela o grau de deterioração do debate público. No debate público, nem sempre vence quem tem a explicação mais completa. Muitas vezes vence quem oferece a explicação mais simples, repetida com mais força e ocupando os espaços certos.
O avanço da regulamentação não representa também um amadurecimento institucional do setor?
Waldir Marques – Sem dúvida. Apesar das críticas e das tensões naturais de um mercado em consolidação, o Brasil avançou muito em pouco tempo. Hoje existe um ambiente regulado, com exigências técnicas, certificações, monitoramento, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, políticas de jogo responsável e regras mais claras para atuação. Isso traz segurança jurídica, previsibilidade e diferenciação em relação ao mercado ilegal.
Qual é o principal risco de enfraquecimento do mercado regulado?
Joberto Porto – O maior risco é permitir que o ambiente regulado seja tratado da mesma forma que a clandestinidade. Quando a narrativa pública ignora a diferença entre operador autorizado e operação ilegal, cria-se um desequilíbrio perigoso. O operador regulado investe pesado em compliance, tecnologia, controle, arrecadação e rastreabilidade. O ilegal não. Se ambos forem percebidos socialmente como equivalentes, o incentivo à conformidade diminui.
O setor ainda é sustentável no Brasil?
Waldir Marques – Sim, mas sustentabilidade não depende apenas de demanda econômica. Depende também de estabilidade regulatória, segurança jurídica e legitimidade institucional. Mercados maduros precisam de equilíbrio entre fiscalização, proteção ao consumidor e viabilidade operacional. O desafio do Brasil é consolidar esse equilíbrio sem transformar o ambiente regulado em um cenário de instabilidade permanente.
O que o setor precisa fazer imediatamente?
Joberto Porto – O setor precisa parar de atuar apenas de forma reativa. Precisa construir presença institucional contínua, produzir conteúdo qualificado, ocupar espaços públicos e formar lideranças capazes de dialogar fora da própria indústria. Narrativas não ficam vazias por muito tempo. Quando um setor não explica a si mesmo, alguém explicará por ele.
O que precisa mudar para reverter a imagem das bets neste momento de crise reputacional?
Waldir Marques – O setor precisa ampliar sua capacidade de diálogo público. Isso passa por uma comunicação mais clara, presença institucional mais constante e disposição para reconhecer preocupações legítimas da sociedade. A indústria não pode falar apenas sobre arrecadação, tecnologia ou crescimento econômico; precisa falar também sobre proteção ao consumidor, jogo responsável, prevenção ao mercado ilegal e mecanismos de controle.
Além disso, é fundamental romper a atual assimetria de informação entre os diferentes stakeholders. Afinal, estamos tratando de um serviço público regulado e, para que ele cumpra adequadamente sua finalidade social, é importante que reguladores, operadores, imprensa, Poder Público e sociedade estejam, na medida do possível, ‘na mesma página’. O tom do debate precisa ser firme, técnico e equilibrado
Ainda há tempo para reverter esse cenário?
Joberto Porto – A crise já chegou, amadureceu e está produzindo efeitos severos. A questão agora é saber se a indústria continuará administrando, em silêncio, a narrativa construída por terceiros ou se terá maturidade para reconstruir legitimidade em bases mais sólidas. Nenhuma indústria sobrevive por muito tempo quando aceita ser definida apenas por quem deseja reduzi-la, puni-la ou extingui-la. Eu sempre digo que quem controla a narrativa controla a premissa. Quem controla a premissa quase sempre controla a solução. O nosso setor não perdeu apenas no mérito regulatório; perdeu antes, no campo simbólico. E, nesse campo, ser reativo custa bastante caro. No caso das bets, esse preço já não é uma ameaça futura. É uma fatura aberta, vencida e sendo cobrada todos os dias no debate público.
Waldir Marques atua no relacionamento institucional e estratégico do setor de apostas e iGaming. Atualmente é Diretor de Relacionamentos da Todos Querem Jogar, com participação em iniciativas voltadas ao desenvolvimento institucional, diálogo setorial e fortalecimento do mercado regulado no Brasil.
Joberto Porto é advogado e executivo jurídico com atuação nos segmentos de apostas, loterias, iGaming, compliance regulatório e governança institucional. Atualmente é Chief Legal Officer (CLO) da CDA Gaming, grupo responsável pelas operações das marcas Betsul e Casa de Apostas no mercado regulado brasileiro.


