Bets duplicam faturamento no país e já recolhem impostos igual a tabaco e agricultura

Apostas I 07.06.26

Por: Magno José

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Bets duplicam faturamento no país e já recolhem impostos igual a tabaco e agricultura
Reportagem de capa da Folha de S.Paulo deste domingo revela que o setor cresceu 105% de janeiro a abril de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, com arrecadação tributária de R$ 4,5 bilhões no quadrimestre, segundo Receita Federal

O setor de apostas online e cassinos digitais autorizados no Brasil faturou R$ 12,2 bilhões de janeiro a abril de 2026. Os dados da Receita Federal mostram crescimento de 105% em relação aos primeiros quatro meses de 2025. O recolhimento de impostos das empresas de apostas alcançou R$ 4,5 bilhões no período, patamar próximo à contribuição mensal das indústrias de tabaco e agricultura ao fisco.

A arrecadação tributária do setor saltou de R$ 2,2 bilhões no primeiro quadrimestre de 2025 para R$ 4,5 bilhões em igual intervalo de 2026, segundo informações da Folha de S.Paulo. O mercado regulamentado iniciou operações em janeiro de 2025.

A contribuição fiscal das casas de apostas representa 37% de sua receita. As indústrias do tabaco e da agricultura contribuem com cerca de R$ 1 bilhão cada ao fisco mensalmente.

O faturamento total do setor alcançou R$ 36,9 bilhões em 2025. A expansão ocorreu mesmo com restrições governamentais e judiciais impostas a apostas feitas por beneficiários de programas sociais e pessoas endividadas.

Penetração no mercado e expectativas

O aumento da receita está relacionado à maior penetração das casas de apostas na sociedade brasileira por meio de publicidade. A avaliação é de Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas.

O desempenho das empresas de apostas está sujeito a variáveis sazonais, como finais de campeonato de futebol. A expectativa é de forte expansão em 2026 devido a esses fatores.

A consultoria H2 Gambling Capital projeta aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões nos valores depositados para apostas esportivas durante a Copa do Mundo. Ed Birkin, presidente da H2, afirma que o ganho extra exato gerado pelo evento ainda é incerto porque dependerá diretamente dos resultados das partidas em campo, já que o faturamento do setor é calculado pelo saldo que sobra após o pagamento dos prêmios aos vencedores.

Empresas e jogadores

O Ministério da Fazenda emitiu 85 licenças para empresas de apostas desde o início do mercado regulamentado. Cada autorização libera a operação de três sites. Atualmente, 187 plataformas estão autorizadas a funcionar no país.

Dados do Ministério da Fazenda mostram que 25 milhões de CPFs realizaram apostas em 2025. Ao final do primeiro semestre daquele ano, o número era de 17 milhões de CPFs.

Informações do governo indicam que cada jogador gastou em média R$ 123 por mês em apostas online durante 2025. O cálculo desconta as premiações recebidas de volta do total depositado. O Ministério da Fazenda informou que cada jogador possui conta em quatro bets, em média.

Dez marcas concentravam 68,8% do mercado no fim de 2025. A estimativa é da H2 Gambling Capital. A grega Betano lidera com 23% da receita gerada com apostas no Brasil em 2025. As inglesas Bet365 e SportingBet, a pernambucana Esportes da Sorte e a romena Superbet disputam o topo do ranking.

Os maiores patrocínios do futebol nacional vêm do setor de apostas. A Betano estabeleceu um acordo com o Flamengo no valor de R$ 268,5 milhões para três anos. A Esportes da Sorte firmou parceria com o Corinthians por R$ 150 milhões, também para três temporadas.

Consolidação e projeções

“É um setor que está se consolidando”, afirma Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, uma das associações de companhias de aposta.

Marco Túlio Oliveira, CEO da Ana Gaming, que controla duas marcas entre as dez maiores bets (Bet7K e CassinoPix), prevê desaceleração no ritmo de crescimento dos sites de apostas. “Era um mercado que não existia e agora as empresas já se instalaram”, afirmou o executivo.

Oliveira projeta crescimento entre 10% e 15% para 2026. “Depois, o mercado legal vai crescer como cresce a economia”, declarou.

As empresas devem disputar apostadores e iniciar consolidação para melhorar resultados. A avaliação é do CEO da Ana Gaming.

Birkin, da H2 Gambling Capital, avalia que o mercado de apostas online está saturado de empresas de porte pequeno. Essas companhias devem falir ou ser adquiridas por bets maiores. “Não é algo popular de se dizer, mas o fato é que existem operadores legalizados que simplesmente têm desempenho abaixo do esperado e não possuem uma estrutura boa o suficiente”, afirmou.

No longo prazo, o modelo desse mercado é sustentado por cálculos estatísticos que definem o valor dos prêmios. O sistema é desenhado para garantir que, na média de milhares de palpites, o montante arrecadado com as apostas perdedoras supere o total pago aos palpites vencedores.

Dependência e endividamento

O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), divulgado em 2025 com base em questionários aplicados em 2023, apontou que 4,4% dos apostadores vivem uma situação de “jogo problemático”. Esses jogadores enfrentam dependência e prejuízos significativos.

A taxa brasileira supera a média mundial. A proporção global de jogadores problemáticos está em 2%. O levantamento da Unifesp considerou todas as formas de jogo, incluindo a Mega-Sena.

O crescimento do setor ocorre em meio a debates sobre endividamento da população, dependência de jogos e operação de casas de apostas ilegais.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) relaciona as dívidas das famílias a apostas. “Avaliamos que a atividade causa prejuízos a empresas e consumidores, especialmente os mais vulneráveis”, declarou a entidade em nota.

André Guelfi, presidente do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) e executivo da multinacional Betsson, contestou as críticas. Ele classificou as declarações como “inveja”. “O varejo está com dificuldades porque o cobertor está curto para a família brasileira”, disse Guelfi. “Eles veem as bets fazendo publicidade e acham que estamos ganhando dinheiro, o dinheiro que eles perderam”, afirmou.

Guelfi argumentou que o endividamento também afeta as bets ao reduzir o poder de jogo dos apostadores. “O cobertor curto do varejo também é curto para a gente”, declarou.

Concorrência ilegal

A concorrência de bets clandestinas e mercados de previsão é o principal tema de discussões do setor com o governo. As empresas legalizadas afirmam que sites ilegais oferecem apostas sem pagar a licença de R$ 30 milhões e impostos. Esses operadores também não respeitam as normas de publicidade.

A dispensa dos custos operacionais permite que operadores ilícitos ofereçam prêmios mais atrativos. O jogo ilegal não possui mecanismo de autoexclusão, sistema do Ministério da Fazenda que permite ao jogador impedir a aceitação de cadastros em bets.

Empresas de apostas esportivas licenciadas afirmam que operadores clandestinos controlam entre 41% e 51% do mercado total de bets no país. Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo IBJR, estima que as bets clandestinas representaram algo em torno de 41% a 51% do mercado total. Nesse cenário, o naco da operação ilícita estaria entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.

Os cálculos da H2 Gambling Capital, com base em informações do Banco Central sobre remessas no exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego nos sites ilícitos, indicam que o mercado clandestino movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025. Birkin reconhece que não há número oficial para o tema.

No cenário encontrado pela consultoria, a receita das empresas com apostas, somando atividades lícitas e ilícitas, saltou de R$ 41 bilhões para R$ 51 bilhões entre 2024 e 2025, quando começou o mercado regular.

As bets pressionaram o governo a incluir os mercados de previsão como Kalshi e Polymarket no rol das empresas ilegais. A Fazenda determinou a derrubada desses sites no fim de abril.

O Ministério da Fazenda determinou o bloqueio de plataformas de previsão como Kalshi e Polymarket no fim de abril. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) entregou notificação ao governo sobre a continuidade das atividades desses sites no dia 29 de maio.

A atividade desses sites no Brasil continua apesar das restrições. A informação é do IBJR.

 


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