Bets sob ameaça: o que uma MP pode custar ao futebol brasileiro — e à sua hegemonia continental

O avanço de uma possível Medida Provisória do Governo Federal proibindo cassinos online reacendeu o debate sobre a dependência do futebol brasileiro em relação às casas de apostas — justamente no momento em que o país consolida um domínio histórico na Libertadores, parte dele sustentado pelo aporte financeiro dessas empresas.
Quinze dos 20 clubes da Série A assinaram um manifesto contra a proposta, argumentando que a proibição representaria o “fim do futebol brasileiro”. O texto foi divulgado dias depois de o Palácio do Planalto começar a analisar uma versão da MP que, ao menos nas discussões atuais, excluiria as apostas esportivas do veto, mirando especificamente os cassinos online.
Quem depende mais das bets
Apenas quatro clubes da Série A tiveram as bets como fonte de mais de 10% da receita em 2025: Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%). Isso não impediu que o setor se tornasse um dos pilares do patrocínio máster no futebol nacional — hoje são 13 equipes com uma casa de apostas estampada no peito, cinco a menos que em 2025, quando 19 dos 20 clubes tinham algum tipo de acordo com bets.
Quanto cada clube tem em jogo
Segundo levantamento da Placar, os valores anuais de patrocínio máster somam mais R$ 1 bilhão:

Nem todos os números batem entre as fontes: o Estadão aponta que o contrato do São Paulo com a Superbet rendeu R$ 80 milhões em 2025 (7,48% de uma receita total de R$ 1,07 bilhão), subindo para R$ 95 milhões só em 2026 — o que sugere que os valores da tabela acima já refletem o novo patamar. Já o Santos trocou a 7k (R$ 51 milhões em 2025) pela Novibet, com contrato de R$ 35 milhões fechado para 2026.
“Impacto negativo, mas não ruptura”, diz mercado
A avaliação predominante entre economistas e advogados ouvidos por Placar e Estadão é que uma proibição abrupta, sem período de transição, teria efeito imediato sobre a liquidez dos clubes. Michel Fauze Mattar, da EY, pondera que muitos clubes incorporaram essa receita à folha salarial e a contratações, de modo que uma redução abrupta pode pressionar a liquidez e a sustentabilidade de quem se tornou mais dependente desses recursos, embora ele não preveja uma ruptura no mercado, e sim uma acomodação natural.
Para Marco Tulio Oliveira, CEO da Ana Gaming Brasil, que controla a marca 7k Bet, patrocinadora do Vitória, as medidas discutidas pelo governo “não são o caminho mais eficiente” para sanar os problemas das bets: “Além de reduzir a capacidade de monitoramento do poder público, essas medidas, se adotadas, estimulariam a migração dos consumidores para plataformas não autorizadas, que operam fora das regras brasileiras e sem os mecanismos de proteção exigidos pela regulamentação.”
“As preocupações relacionadas ao jogo problemático e ao endividamento da população devem ser tratadas com seriedade. No entanto, o caminho mais eficiente passa pelo fortalecimento da regulamentação, pela fiscalização rigorosa das empresas autorizadas, pelo combate ao mercado ilegal e pela ampliação das iniciativas de Jogo Responsável e educação dos apostadores. Vejo que o caminho não é proibir uma atividade já regulamentada, mas garantir que ela opere de forma segura, responsável e alinhada aos interesses da sociedade e do governo”, completa o CEO.
O alerta sobre indenizações
Já Moises Assayag, da Channel Associados, ouvido pela Placar, é mais direto sobre o risco: sem um período de transição adequado para encontrar novos patrocinadores em condições equivalentes, a lei teria impacto negativo amplo nas contas dos clubes, dado o grau de envolvimento atual das bets no futebol nacional.
“Essa perda será especialmente maior se nao for previsto na lei um período de transição, ou ele for muito curto para encontrar outro patrocinador e com o mesmo nível de valores negociados pelos patrocínios. A lei terá um impacto negativo nas contas dos clubes de forma bem ampla, considerando o nível de envolvimento das bets com o patrocínio do futebol no Brasil, neste momento”, afirma Moises Assayag é Sócio Diretor da Channel Associados e especialista em finanças no esporte, especialmente nas áreas de reestruturação financeira e operacional.
Bernardo Cavalcanti Freire, da ANJL, argumenta que qualquer restrição relevante deveria vir acompanhada de estudo de impacto econômico que dimensione eventuais indenizações a quem já investiu e pagou outorgas para operar no país.
“Qualquer medida que imponha restrições substanciais ao mercado regulado deveria ser precedida de estudo de impacto econômico e jurídico que dimensione, de forma transparente, as indenizações e os ressarcimentos eventualmente devidos aos agentes que já realizaram investimentos e pagaram milhões de reais em outorgas para operar regularmente no país”, afirma Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado no setor de jogos.
Lula rebate o manifesto
Do lado político, o presidente Lula rebateu o manifesto dos clubes em comício, lembrando que São Paulo, Santos, Grêmio, Flamengo, Internacional e Corinthians conquistaram mundiais sem patrocínio de bets — chamando de “balela” a ideia de que o fim das apostas acabaria com o futebol.
Uma hegemonia também financiada pelas bets
O momento é sensível porque o dinheiro das bets ajudou a azeitar justamente o ciclo de dominância que o Brasil vive na Libertadores. Das 28 vagas de semifinal disputadas entre 2019 e 2025, 17 foram ocupadas por clubes brasileiros — mais que o dobro do período 2012-2018, quando o país só havia emplacado oito. Na atual edição, com Flamengo já classificado e Palmeiras ou Fluminense na disputa pela outra vaga contra o River Plate ou o próprio Estudiantes, a tendência deve se manter.
Segundo o Globo, esse fortalecimento financeiro veio por dois caminhos: a reestruturação de receitas de clubes como Flamengo e Palmeiras, e a entrada de capital via lei das SAFs. Mas o crescimento dos patrocínios de bets — junto com a explosão dos direitos de TV após a lei do mandante e a chegada dos streamings — também entra na conta apontada por especialistas como fator do descolamento financeiro do futebol brasileiro em relação ao resto do continente. Para efeito de comparação, os direitos de TV do Brasileirão renderam R$ 2,7 bilhões aos clubes no ano passado, contra R$ 618,8 milhões do Campeonato Argentino.
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo, uma medida como essa tem impacto direto no planejamento comercial de todos os envolvidos. “Estamos falando de clubes, federações, confederações, estádios e demais espaços ligados ao futebol, que já trabalham com contratos de patrocínio de médio e longo prazo. O mercado de apostas se tornou uma fonte relevante de receita para o futebol, então qualquer restrição à exposição dessas marcas precisa ser analisada também sob a ótica da sustentabilidade financeira de todos os envolvidos, do cumprimento dos contratos já firmados e, consequentemente, da segurança jurídica.”
O outro lado do balanço: a dívida
Esse crescimento, porém, tem um contraponto: o endividamento agregado dos 20 clubes da Série A subiu 46% entre 2021 e 2025, chegando a R$ 14,3 bilhões, alimentado sobretudo por gastos com elenco que a receita não conseguiu acompanhar no mesmo ritmo.
O que está em jogo
A soma dos três cenários — dependência financeira de parte relevante da Série A em relação às bets, endividamento crescente e um ciclo de hegemonia continental parcialmente sustentado por esse mesmo dinheiro — é o que torna a eventual MP um ponto de inflexão a ser observado de perto. Não se trata, segundo os especialistas consultados, do “fim do futebol brasileiro” anunciado no manifesto dos clubes, mas sim de um teste de resiliência financeira num momento em que o país nunca esteve tão distante do resto da América do Sul dentro de campo — e talvez nunca tenha estado tão exposto financeiramente fora dele.


