Bets sobrevivem a três Copas: o que mudou de 2018 para 2026?

O ano era 2018, e o Brasil caía nas quartas de final diante da Bélgica; era no tempo em que o então presidente Michel Temer promulgou, sem que quase ninguém percebesse, a Lei 13.756, a qual autorizou as apostas esportivas de quota fixa no país, abrindo caminho para uma das maiores transformações no comportamento financeiro e cultural dos brasileiros na última década. O mercado já existia, offline e sem fiscalização, de maneira que o consumidor não tinha a menor perspectiva de proteção governamental e a banca tinha apenas uma obrigação subjetiva e personalíssima do que é jogo responsável.
Ainda que frágil, iniciou-se, assim, uma nova era para a sociedade, e, também — não poderia ser diferente — para o futebol, modalidade esportiva que foi adotada pelo Brasil no início do século passado. “A regulamentação, especialmente após 2023 com a Lei 14.790, foi um avanço real. Mas regulamentar não protege ninguém enquanto metade do mercado opera na ilegalidade e 78% dos apostadores não sabem distinguir o legal do ilegal em seu mínimo, que é apostar somente em casas que terminam no domínio .BET.BR“, afirma Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC),
Depois de quase um lustro, na Copa do Qatar, a Seleção Brasileira voltaria a ser eliminada nas quartas de final, desta vez, pela Croácia. Entretanto, nas plataformas de apostas, aquela edição do campeonato tornou-se campeã de audiência, superando finais de Libertadores e Champions League. O mercado faturou, na ocasião, algo em torno de R$9,8 bilhões. No mundo, US$35 bilhões; o valor representa 65% a mais do que o Mundial disputado na Rússia, quatro anos antes. O dinheiro se multiplicou, resultando em quantidades inéditas até aquele momento. A movimentação em apostas esportivas no Brasil aumentou mais de 1.300%.
Em 2026, o Brasil compete em uma Copa que representa, sob dois ângulos, ineditismo. Enfrenta, dentro das quatro linhas, o desafio de encerrar um jejum de 24 anos sem título — a estreia foi um empate com Marrocos por 1 a 1, seguida de recuperação com vitória sobre o Haiti por 3 a 0, na Filadélfia — e, fora de campo, é a primeira vez que o país chega a um Mundial com um mercado de apostas oficialmente regulamentado, com 85 licenças concedidas pelo Ministério da Fazenda e 187 sites autorizados a operar.
Os números já impressionam antes mesmo da fase final do torneio. Levantamento da Creditas, em parceria com a Opinion Box, indica que 56% dos brasileiros pretendem apostar durante a Copa de 2026, projetando-a como a edição com maior volume de apostas da história no país. Estimativas da consultoria H2 Gambling Capital apontam que os brasileiros poderão depositar entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões em plataformas durante o torneio. O mercado global pode movimentar até US$ 60 bilhões — mais de 50% acima do registrado em 2022.
Isolados, esses números poderiam ser lidos como expansão natural de um setor em consolidação. O problema está no perfil de quem aposta. Entre os brasileiros que pretendem fazer apostas durante a Copa, 79% já estão endividados, contra 48% entre os que não pretendem apostar. São pessoas que chegam ao jogo em situação de fragilidade financeira prévia, o que altera radicalmente a dinâmica psicológica da aposta. Levantamento do Procon-SP publicado em fevereiro de 2026 indica que 52,4% dos apostadores já comprometeram boa parte da renda, utilizando dinheiro aplicado ou empréstimos para jogar. Estudo recente aponta que 268 mil famílias enfrentaram inadimplência severa associada ao uso de bets para complementar a renda.
“O jogo compulsivo, no entanto, não se instala de forma abrupta. O processo é gradual e frequentemente invisível ao próprio apostador que confunde as pressões do cotidiano com a esperança de alavancagem”, comenta Cristiano. Para 54% dos entrevistados pela Creditas, diversão e lazer são as principais motivações para apostar durante a Copa — não a perspectiva de lucro. Os mercados preferidos reforçam o caráter lúdico inicial: resultado das partidas (51%), número de gols (26%) e campeão do torneio (18%). “O problema emerge quando esse entretenimento encontra vulnerabilidade financeira e a aposta deixa de ser lazer para se tornar estratégia de sobrevivência”, complementa o psicólogo.
Cronologia:
⇒ 2018: Lei 13.756 sancionada por Michel Temer, autorizando apostas esportivas de quota fixa no Brasil;
⇒ 2022: Copa do Qatar foi o maior evento de apostas do Brasil naquele ano, superando finais de Libertadores e Champions League;
⇒ 2022: mercado brasileiro de apostas fechou o ano em R$ 9,8 bilhões;
⇒ 2022: crescimento de 65% no volume global de apostas em relação à Copa da Rússia de 2018 (Barclays);
⇒ 2022: Copa do Qatar gerou US$ 35 bilhões (R$ 186 bilhões) em apostas esportivas no mundo;
⇒ 2026: primeira Copa do Mundo com mercado de apostas oficialmente regulamentado no Brasil;
⇒ 2026: projeção de R$ 20 a R$ 25 bilhões em apostas apenas pelos brasileiros durante o torneio (H2 Gambling Capital); e
⇒ 2026: 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas regulamentadas em 2025 — base de apostadores que chega ao Mundial aquecida.
A Universidade Federal de São Paulo identificou que 4,4% dos apostadores brasileiros apresentam quadro classificado como jogo problemático, percentual mais que o dobro da média mundial, estimada em aproximadamente 2%. São cerca de 1,1 milhão de pessoas, considerando a base de 25 milhões de CPFs que registraram apostas ao longo de 2025. Os sinais institucionais confirmam a escala do problema: o número de atendimentos por ludopatia no SUS saltou de 65, em 2019, para 1.292 em 2024, e o INSS concedeu 276 benefícios por ludopatia entre junho de 2023 e abril de 2025 — quando a média anual anterior não passava de 11 casos.
Nesse cenário, a distinção entre o mercado regulado e o ilegal torna-se central. As plataformas autorizadas são obrigadas a oferecer mecanismos de jogo responsável, limites de depósito, alertas de risco e autoexclusão. Em apenas 40 dias de funcionamento, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do governo federal recebeu mais de 217 mil pedidos de autobloqueio — sendo o motivo mais frequente, em 37% dos casos, “perda de controle sobre o jogo – saúde mental”. O mercado ilegal opera em lógica inversa: sem qualquer obrigação de transparência ou controle, tende a ser mais permissivo com apostadores em situação de endividamento, oferecendo crédito informal e dificultando o reconhecimento dos sinais de dependência. Segundo levantamento da consultoria LCA, esse mercado clandestino já responde por entre 41% e 51% do total do setor — e 78% dos apostadores têm dificuldade em identificar se a plataforma que utilizam é ou não legalizada.
“O jogo não deve — nunca, jamais — nem comprometer, nem servir de renda ao usuário. Se isso ocorrer, o caso precisa de atenção imediata. Jogar ou apostar em si não é o problema. É uma forma legítima de entretenimento e expectativa de alguma sorte. O quadro complica quando o apostador passa a enxergar a aposta não como lazer, mas como saída, como uma forma de liquidar dívidas ou complementar renda”, finaliza Costa.
