Campanha de artistas contra as bets usa dados falsos se comparados com os oficiais do governo

Paula Lavigne contatou artistas do audiovisual e da música para participar de campanha contra empresas de apostas online. A empresária e produtora cultural ligou pessoalmente para os profissionais, segundo entrevista publicada no jornal O Globo. O grupo 342 Artes, coordenado por Lavigne, divulgou o vídeo com o slogan “Dê block no tigrinho”.
A iniciativa reuniu nomes de diferentes gerações da cultura brasileira. O objetivo é ampliar a conscientização sobre prejuízos relacionados às apostas online, especialmente entre jovens, famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade. O vídeo apresenta dados sobre o impacto das apostas na sociedade brasileira. No entanto, a campanha “Block no Tigrinho” de conscientização e mobilização para alertar a sociedade sobre os impactos financeiros e psicológicos provocados pelas plataformas de apostas online utiliza dados falsos, segundo contestação do setor regulado de apostas.
As 84 empresas que operam 193 marcas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF compartilham preocupações com os problemas sociais mencionados. O setor regulado, no entanto, contesta os números apresentados pelos artistas.
O Ministério da Fazenda divulgou que o mercado de casas de apostas no Brasil registrou receita bruta de R$ 36.959.783.379,70 em 2025. Dados oficiais indicam que 25.245.319 brasileiros realizaram apostas naquele ano. O ticket médio mensal foi de R$ 122,00. Esse montante representa 12,96% da população brasileira. O setor compara o valor ao custo de ingressos para shows ou peças teatrais dos artistas participantes do vídeo.
Contestação sobre valores movimentados
O vídeo afirma que “Desde 2023 que R$ 143 bilhões saíram do mercado e foram parar nas apostas online“. O setor regulado questiona esse cálculo. Os apostadores teriam que perder aproximadamente R$ 48 bilhões anualmente para que o valor fosse correto.
A única informação oficial disponível indica que o GGR (receita bruta de jogos) em 2025 foi de R$ 36,9 bilhões. A diferença entre os números apresentados no vídeo e os dados oficiais é significativa.
Outra afirmação do vídeo diz que “57% dos hoje endividados começaram com as Bets“. O Serasa registra 83,3 milhões de negativados no Brasil. Aplicando o percentual mencionado pelos artistas, 47,4 milhões de brasileiros endividados teriam iniciado suas dívidas com apostas.
Os dados do Ministério da Fazenda mostram que 25,2 milhões de CPFs realizaram apostas em 2025. O número é inferior ao de endividados atribuídos às bets pela campanha.

Números sobre vício em jogos
A campanha afirma que “11 milhões de brasileiros apresentaram sinais de vício em jogos de azar”. Esse número representaria quase metade dos 25,2 milhões de apostadores registrados em 2025. O setor questiona como essa proporção seria possível com apostas médias de R$ 122,00 mensais.
O vídeo também declara que “66,8%dos apostadores apresentam uso problemático das bets“. Aplicando esse percentual aos 25,2 milhões de apostadores, haveria 16.833.600 brasileiros com problemas relacionados a apostas.
A Organização Mundial da Saúde, segundo a CID-11: 6C50, estima que o transtorno afete cerca de 1% a 3% da população geral globalmente. A diferença entre o percentual apresentado na campanha e as estimativas internacionais é substancial.

Posicionamento do setor regulado
O setor de apostas legalizadas argumenta que as empresas autorizadas geram empregos, recolhem tributos e movimentam a economia. As operações ocorrem sob fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O segmento defende que atacar indiscriminadamente todo um setor legalizado não resolve os problemas sociais mencionados na campanha. A regulação estabelecida pelo governo federal estabelece parâmetros para o funcionamento das plataformas.
As empresas reguladas sustentam que campanhas baseadas em dados contestados podem favorecer a ilegalidade. O argumento é que apostas realizadas fora do sistema regulado não geram tributos nem seguem normas de proteção ao consumidor.
O setor enfatiza a diferença entre operações legalizadas e plataformas que atuam sem autorização governamental. A fiscalização do Ministério da Fazenda abrange apenas as 193 marcas autorizadas operadas pelas 84 empresas licenciadas.
Mostra-se perigoso o lobby de artistas e cantores para colocar as apostas online na ilegalidade. A indústria da proibição é muito lucrativa e quem é contra as bets legais é a favor do crime organizado.


