Como brasileira dona da Kalshi transformou fofocas sobre Kylie Jenner em bilhões

A empresária Luana Lopes Lara cofundou a Kalshi Inc. em 2018 ao lado de Tarek Mansour. A plataforma permite que usuários apostem em diversos tipos de eventos por meio de mercados de previsão. Lopes Lara ocupa o cargo de diretora de operações da companhia, que recebeu avaliação de US$ 22 bilhões na rodada de financiamento mais recente.
A ideia do negócio surgiu quando a empresária trabalhava como estagiária em uma corretora de Nova York. Ela observou que milhões de pessoas formavam opiniões sobre eventos incertos sem ter onde apoiar suas convicções. Lopes Lara figura entre as bilionárias mais jovens do mundo que construíram fortuna própria, segundo informações da Folha de S.Paulo com Bloomberg. Seu patrimônio líquido alcançou US$ 2,6 bilhões.
Origem da empresa
No início de 2018, Lopes Lara trabalhava como estagiária na Five Rings, uma corretora de Nova York, onde aprendia a operar no mercado financeiro. Naquele período, a internet especulava intensamente sobre uma possível gravidez de Kylie Jenner, estrela de reality show e fundadora de uma marca de cosméticos.
Ao questionar seus colegas estagiários sobre o assunto, Lopes Lara descobriu que nenhum deles havia ouvido falar de Jenner. “Eu era a única pessoa que dizia: ‘Meu Deus, acho que ela está grávida. Olha só essas coisas no Instagram'”, relatou a empresária em entrevista no escritório da Kalshi em Manhattan. “Eu disse: ‘Quero fazer uma aposta com você sobre isso’.”
Jenner estava de fato grávida, informação mantida em segredo até após o nascimento de sua filha. O episódio marcou Lopes Lara não pela fofoca em si, mas pela percepção de que milhões de pessoas poderiam estar formando opiniões fortes sobre resultados incertos sem ter onde apostar nessas convicções.
Lopes Lara e Mansour se conheceram enquanto cursavam engenharia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde se tornaram inseparáveis, segundo um de seus professores. Lopes Lara cresceu no Brasil e treinou como bailarina antes de migrar para o mundo dos negócios.
Lopes Lara lançou a Kalshi juntamente com Mansour, o diretor executivo da empresa, como parte de uma maratona de programação no Vale do Silício. Peter Kempthorne, professor que dava aulas de estatística para Lopes Lara e Mansour no MIT, disse que Lopes Lara concentrou-se em como poderia aplicar novas tecnologias, como aprendizado de máquina, a ideias estatísticas clássicas. Mais tarde, ela e Mansour estreitaram laços em estágios conjuntos, inclusive na Five Rings e depois na Citadel, onde o fundo de hedge ofereceu um treinamento de duas horas sobre mercados de previsão.
Lopes Lara explicou a origem da empresa: “Vimos todos os aspectos e lados dos mercados de previsão que nos agradaram. Essa foi apenas uma das razões pelas quais decidimos dizer: ‘vamos largar nossos empregos extremamente bem remunerados e tentar fazer isso’.”
Expansão da companhia
A Kalshi opera nos Estados Unidos, com sede em um escritório amplo com paredes brancas localizado no Meatpacking District, em Manhattan, Nova York. A companhia foi avaliada em US$ 22 bilhões em sua última rodada de financiamento, o dobro do valor estimado pelos investidores em dezembro.
O quadro de funcionários expandiu de 35 pessoas há um ano para 150 atualmente. Como diretora de operações da Kalshi, Lopes Lara supervisiona engenharia, listagens em mercados e parceiros de liquidez, além de conduzir a maioria das entrevistas de novos funcionários.
A Kalshi movimentou um volume nominal de US$ 17,9 bilhões no mês passado, estabelecendo um recorde, segundo dados compilados por usuários da Dune Analytics. As apostas esportivas representaram aproximadamente 80% do volume de negociação de contratos de eventos da plataforma nos últimos dias, conforme informações de um porta-voz da empresa.
A empresa possui mais de 500 modelos de apostas já testados e aprovados por sua equipe. A base de clientes no varejo alcança cerca de 2 milhões de pessoas.
A Kalshi planeja contratar mais 50 pessoas até o final de 2026. A empresa busca expandir para o segmento institucional e para o exterior. A negociação com margem, que a Kalshi espera apresentar ainda em 2026, combinada com o novo esforço em negociação em bloco, visa diretamente os grandes investidores que trabalham em fundos de hedge, empresas ou outras entidades profissionais.
Estrutura operacional
A operação da Kalshi funciona como uma fábrica de apostas. Os modelos de previsão da empresa refletem as estimativas da própria bolsa para eventos que possam acontecer no mundo. Essas previsões geram contratos regulamentados para corresponder a resultados específicos.
A plataforma revisa constantemente solicitações de usuários e monitora plataformas de mídia social em busca de novos tópicos. A empresa utiliza um modelo de inteligência artificial desenvolvido internamente para agregar as principais notícias do dia, analisar concorrentes e fazer outras recomendações.
“Pensamos nos mercados quase como uma fábrica”, disse Lopes Lara. Sobre a expansão da equipe, ela observou que “hoje em dia, com IA, cada engenheiro é como cinco”.
Lopes Lara e Mansour apresentam perfis diferentes na gestão da empresa. Mansour geralmente é a figura pública da Kalshi, reunindo-se com investidores, aparecendo na TV ou confraternizando com formuladores de políticas. Lopes Lara administra a empresa nos bastidores.
As tarefas diárias de Lopes Lara variam bastante, embora ela passe muito tempo com a equipe de mercado analisando as apostas que a Kalshi escolhe listar e como tornar a operação mais eficiente.
“Meu papel na empresa é nos incentivar a buscar objetivos, a agir com rapidez, a aproveitar as oportunidades e a crescer o máximo possível”, disse Lopes Lara.
Controvérsias e desafios regulatórios
Conforme a Kalshi cresceu rapidamente, suas controvérsias também se acumularam. Uma parcela significativa de legisladores, clientes e observadores percebe que a Kalshi e sua principal concorrente, a Polymarket, enfrentam questionamentos sobre suas práticas.
Críticos argumentam que permitir apostas em determinados eventos —como acordos comerciais internacionais, candidatos a cargos políticos ou presença de público no Super Bowl— abre oportunidades para que pessoas com informações privilegiadas se beneficiem. Outros apontam questões éticas relacionadas a negociações sobre temas como guerra ou morte, nenhum dos quais é explicitamente permitido na Kalshi.
Em fevereiro, com o início da guerra no Irã, um mercado da Kalshi monitorava as probabilidades de Ali Khamenei ser deposto como Líder Supremo do país. O mercado começou a disparar após Khamenei ter sido morto em um atentado, mas a Kalshi o congelou. A morte dele tecnicamente invalidou o contrato. Simultaneamente, a Polymarket enfrentava acusações de facilitar o uso de informações privilegiadas.
A plataforma reembolsou US$ 2,2 milhões em taxas e prejuízos líquidos após congelar o mercado que monitorava as probabilidades de Ali Khamenei ser deposto como Líder Supremo do Irã. A empresa prometeu melhorar a comunicação de suas regras em casos de falecimento.
“É sempre muito estressante ler essas coisas”, disse Lopes Lara ao ser questionada sobre a reação negativa dos clientes. “Foi aí que realmente falhamos. Não falhamos no design do mercado, não falhamos nas regras. Falhamos em deixar tudo muito claro para as pessoas.”
Batalhas judiciais
A Kalshi enfrentou conflitos com a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) durante o governo Biden. A CFTC questionou a empresa sobre a oferta de contratos vinculados a eleições para o Congresso, o que resultou em um processo judicial movido pela Kalshi contra o órgão regulador em 2023. A empresa venceu a disputa judicial a tempo das eleições de 2024.
A administração Trump tem adotado uma postura mais favorável à empresa. Apesar disso, a Kalshi continua enfrentando batalhas judiciais em pelo menos 19 estados que contestam seu direito de oferecer apostas esportivas e outros serviços aos eleitores locais. No Arizona, a situação resultou em acusações criminais contra a empresa.
“Se for preciso levar o caso à Suprema Corte, que leve”, disse Lopes Lara em um evento da empresa em março. “Estamos muito, muito confiantes de que estamos certos e não há problema algum nisso. E também não somos estranhos a processos judiciais.”
Em audiência no Senado realizada em 20 de maio sobre o setor da Kalshi, a senadora republicana Marsha Blackburn, do Tennessee, manifestou inquietações sobre a fiscalização dessas plataformas. “O que antes se limitava a alguns poucos lugares agora está disponível em quase todos os cantos do país —muitas vezes diretamente no celular”, disse a senadora. “Embora os mercados de previsão representem uma inovação financeira em diversos setores, há preocupações reais de que eles funcionem de maneira muito semelhante às apostas esportivas tradicionais, sem a fiscalização de órgãos reguladores estaduais e procuradores-gerais.”
Estratégia de expansão e parcerias
A Kalshi fechou recentemente um contrato de vários anos com o Madison Square Garden, assumindo o controle do saguão do sexto andar da arena. Além disso, firmou um acordo publicitário com o ator Timothée Chalamet, namorado de Kylie Jenner e torcedor fanático do time de basquete New York Knicks. Um vídeo gravado do lado de fora do Madison Square Garden viralizou recentemente durante as finais da NBA, com um torcedor dizendo: “Meu prefeito é muçulmano. Meus bagels são judeus. Meu Christian Dior. Knicks em quatro jogos!” O vídeo foi gravado em um microfone da Kalshi.
A empresa conta com consultores influentes. Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, atua como consultor da empresa de mercados de previsão. Lopes Lara esclareceu que Donald Trump Jr. não participa de discussões regulatórias da companhia. Jay-Z, músico e empresário, também é consultor e investidor por meio da MarcyPen, empresa de capital de risco que cofundou. A relação de Jay-Z com a Kalshi não havia sido divulgada anteriormente.
Jay-Z visitou os escritórios da Kalshi no início de 2026. Durante a visita, os funcionários solicitaram ao músico e empresário conselhos sobre os mercados da Kalshi relacionados com a música, segundo informou Lopes Lara.
Desafios internacionais
O esforço para crescer no exterior enfrenta complicações. A primeira iniciativa internacional da Kalshi concentrou-se no Brasil, por meio de uma parceria com a corretora local XP Inc., anunciada em março de 2026. No mês seguinte, o governo brasileiro proibiu o acesso a sites de mercados de previsão devido a preocupações com jogos de azar ilegais.
A reação foi semelhante em muitos outros países, onde os governos determinaram que os mercados de previsão não são uma inovação na negociação de derivativos financeiros, mas sim jogos de azar.
Lopes Lara se reúne semanalmente com a equipe jurídica de Kalshi para analisar estratégias e possíveis resultados. Ela afirmou que Kalshi jamais solicitará uma licença para operar jogos de azar, mesmo que isso permitisse o acesso a mercados importantes onde a atividade é atualmente restrita, como o Reino Unido e partes da Europa.
“Queremos ter uma bolsa central e uma câmara de compensação que concentre toda a liquidez”, disse ela. Mercados fragmentados, onde os negociadores só podem ser comparados com outros da mesma região, estão fora de questão.
Perfil da fundadora
Lopes Lara segue uma rotina diária que começa às 5h45, com uma hora na academia, seguida de trabalho no escritório até as 22h ou 23h. Durante sua carreira no balé, ela controlava rigorosamente sua alimentação, medindo a ingestão de alimentos até o nível de um quarto de morango, conforme relatou à Bloomberg Radio. Atualmente, ela mantém boa forma física, mas adota uma dieta menos restritiva. Um prato de bife do Chipotle figura entre suas comidas favoritas, preparado com arroz, queijo, sem feijão e batatas fritas trituradas por cima.
Lopes Lara tem uma golden retriever chamada Lola. Colegas descrevem seu uniforme no escritório como casual, geralmente com roupas da marca Kalshi, às vezes uma camiseta de um site chamado Echos of Antiquity, e tênis. Ela raramente usa maquiagem e disse que não possui uma bolsa de grife.
Lopes Lara não pode negociar na Kalshi por conta própria devido às regras da empresa.
Kempthorne descreveu a cofundadora da Kalshi: “Ela sentava na primeira fila de todas as aulas. Muitos alunos do MIT podem não se envolver nas aulas, mas ela estava totalmente empenhada em aprender o máximo possível.”
A festa de casamento de Lopes Lara está planejada para acontecer na Islândia no ano que vem. Ao planejar um casamento ao ar livre, uma das primeiras ideias de Lopes Lara foi criar um mercado para apostar se choveria naquele dia. “Podemos planejar tudo isso ao ar livre, mas se começar a chover, você tem que mudar tudo para dentro e já terá gasto todo o dinheiro que tinha investido no planejamento externo”, disse ela.
A fundadora da Kalshi prevê ampliação das aplicações dos mercados de previsão. “À medida que os mercados de previsão se tornarem mais comuns e as pessoas os aceitarem e compreenderem, veremos muito mais casos de uso como esses”, afirmou Lopes Lara.
Cultura da empresa
O escritório da empresa no Meatpacking District está repleto de piadas internas e referências à crescente presença de Kalshi na sociedade e entre celebridades. Há uma foto emoldurada dos atores Eddie Murphy e Dan Aykroyd do filme “Um Príncipe em Nova York” (1983), fazendo alusão a uma regra mais recente que proíbe o uso de informações privilegiadas. Em outro lugar, há uma imagem de um episódio de “South Park” que retrata os mercados de previsão como corruptos, mas também reflete uma espécie de espírito da época em torno do setor na cultura popular.
O nome Kalshi significa “tudo” em árabe.


