Cooperativa Creditag tem liquidação decretada pelo BC após investigação apontar processamento de apostas ilegais

BNL I 17.04.26

Por: Magno José

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Cooperativa Creditag tem liquidação decretada pelo BC após investigação apontar processamento de apostas ilegais
Instituição financeira de pequeno porte em Goiás é alvo de inquérito policial do DEIC-SP que apura uso de empresas interpostas para viabilizar transações de sites de apostas irregulares (Foto: Creditag/Facebook/Reprodução)

O Banco Central decretou nesta quinta-feira (16) a liquidação extrajudicial da Cooperativa de Crédito, Poupança e Serviços Financeiros – Creditag. A medida foi tomada devido à deterioração da situação econômico-financeira da instituição. A cooperativa representa risco anormal aos seus credores quirografários — aqueles que não possuem garantias específicas para receber valores devidos.

A Creditag é classificada como cooperativa de crédito independente de pequeno porte. A instituição está enquadrada no segmento S5 da regulação prudencial, que abrange instituições de menor complexidade dentro do sistema financeiro. Ao final de dezembro de 2025, a cooperativa detinha aproximadamente 0,0000226% do ativo total do Sistema Financeiro Nacional, indicando impacto limitado sobre o conjunto do sistema.

Em seu site institucional, a cooperativa afirma que “a CREDITAG é uma cooperativa de crédito, estabelecida desde 2003 na cidade de Mineiros, em Goiás, que atende o público em geral oferecendo diversos produtos e serviços equivalentes a outras instituições financeiras”. A instituição também destaca que presta “serviços financeiros, cuidando pelo equilíbrio econômico de nossos cooperados, tanto na aplicação de recursos em seus projetos como também na captação de investimentos dos mesmos”.

A instituição já havia enfrentado problemas anteriormente. Em julho de 2025, foi suspensa do Pix junto com outras seis instituições. A suspensão ocorreu após um ataque hacker contra a empresa C&M Software.

Na ocasião, o BC adotou medidas cautelares contra as instituições que seriam destino dos recursos do ataque. O regulador apontou falhas nos mecanismos de identificação de movimentações atípicas dessas entidades. A medida preventiva já indicava fragilidades nos controles internos da cooperativa.

O Banco Central informou que continuará adotando todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades dentro de suas competências legais, conforme suas competências. O resultado das investigações poderá resultar na aplicação de sanções administrativas e no encaminhamento de informações a outros órgãos competentes. As autoridades competentes serão comunicadas conforme as disposições legais aplicáveis. Os bens dos ex-administradores da cooperativa ficam indisponíveis por determinação legal, medida que visa resguardar recursos para eventual ressarcimento de prejuízos a credores.

A Creditag não possui controlador ou acionistas. Por se tratar de uma cooperativa de crédito, a propriedade é compartilhada entre os próprios cooperados. Os cooperados também são clientes da instituição. A gestão ficava sob responsabilidade de administradores que agora são alvo das apurações conduzidas pelo regulador.

BC sinaliza endurecimento contra cooperativas que desviam de propósito

O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou nesta quinta-feira que o regulador é parceiro do cooperativismo. O diretor declarou que também adotará “medidas necessárias” para retirar entidades do sistema que não estão “cumprindo seu propósito”. A declaração foi feita durante seminário realizado pela Organização das Cooperativas Brasileiras em parceria com o BC. O evento ocorreu no edifício-sede da autoridade monetária em Brasília.

Aquino comentou que foi questionado se o BC liquidaria uma cooperativa no dia do seminário. O diretor respondeu que seria “emblemático”. A coincidência entre o evento sobre cooperativismo e a liquidação da Creditag não passou despercebida. O diretor utilizou o momento para reforçar a postura do regulador em relação a instituições que se desviam de seus objetivos.

“O relacional que nós temos com as cooperativas, com a OCB, também passa por um processo de educação, tirar aquelas instituições que não estão atendendo ao propósito. É inadmissível instituições, cooperativistas de dono, e cooperativas que sejam instrumentos de bets ilegais. Não posso pensar que a OCB ou quem quer que seja compactue com entidades do segmento dessa forma”, disse o diretor.

A menção a cooperativas que servem como instrumentos de bets ilegais indica uma preocupação do BC com o uso indevido dessas instituições. O diretor deixou claro que o regulador não tolerará entidades que se afastem do propósito cooperativista. A postura sinaliza um endurecimento na supervisão do segmento.

Aquino destacou que existe um “modelo vitorioso” de supervisão auxiliar e autorregulação no cooperativismo. O diretor afirmou que esse modelo deveria ser aplicado em outros segmentos. A declaração sugere que o BC pretende usar a experiência com cooperativas como referência para outras áreas do sistema financeiro.

“Vamos buscar mudar a legislação dado o exemplo do sistema cooperativista. Tenho certeza que a gente vai conseguir avançar nas mudanças normativas em relação a outros segmentos porque nós conseguimos o sucesso com o sistema cooperativista”, afirmou.

A fala indica que o BC pretende propor alterações legislativas baseadas no modelo de supervisão desenvolvido para as cooperativas de crédito. A liquidação da Creditag ocorre em um momento em que o Banco Central intensifica a fiscalização sobre instituições financeiras de menor porte. O caso reforça a disposição do regulador em adotar medidas quando identifica comprometimento da situação econômico-financeira ou desvio de propósito.

Investigação policial apura processamento de pagamentos para sites de apostas ilegais

O Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo abriu inquérito policial para apurar a atuação de instituições financeiras e de pagamento. A investigação é conduzida pela 2ª Delegacia de Investigações Sobre Estelionato e Crimes Contra a Fé Pública. O inquérito policial tem o número 2067361-93.2025.140523 – IP 30/2025. A apuração investiga instituições que processam transações para sites de apostas ilegais. A Cooperativa de Crédito Poupança e Serviços Financeiros – Creditag está entre as entidades investigadas.

A Associação Nacional de Prêmios e Apostas Responsáveis apresentou ofício à delegada do DEIC, Lilian Bosniac Lamanna. A denúncia aponta que a Creditag é utilizada como instituição financeira de apoio a sites de apostas ilegais. O documento cita especificamente o caso do site XWIN.com. O site manteve contas bancárias para pagamento e recebimento de apostas por meio da DF Participações Ltda junto à Creditag.

A denúncia da ANPAR afirma que a Creditag integra um pequeno grupo de instituições financeiras que dão suporte a inúmeros sites de apostas ilegais. Essas instituições utilizam empresas interpostas para viabilizar as transações. As empresas incluem DF Participações Ltda, Double Bet Ltda, Nexus Gaming Entreterimento Ltda, IA Tecnologia e Intermediações Ltda e Golden Pig Tecnologia Ltda.

A delegada do DEIC encaminhou ofícios ao Banco Central solicitando a tomada de medidas cabíveis contra a Creditag. Os ofícios também solicitam medidas contra as demais instituições citadas no inquérito. A investigação apura se as instituições financeiras e de pagamento estão processando transações para sites de apostas em desacordo com a legislação vigente. A Creditag é apontada como uma das instituições que estaria atuando como suporte bancário para empresas interpostas que facilitam as transações desses sites.

 


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