Copa do Mundo expõe ofensiva contra bets com mix de fiscalização e eleitoralismo

Apostas I 13.07.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Copa do Mundo expõe ofensiva contra bets com mix de fiscalização e eleitoralismo
Reportagem da VEJA revela que Lula e Haddad criticam setor que ajudaram a regulamentar e que quatro em cada dez brasileiros apostaram no torneio. Governo federal deflagra operação contra lavagem de dinheiro em plataformas ilegais

A Copa do Mundo impulsionou uma ofensiva das autoridades brasileiras contra as plataformas de apostas digitais, expondo tanto ações legítimas de fiscalização quanto discursos eleitoreiros de políticos de todos os espectros. Quatro em cada dez brasileiros apostaram durante o torneio, segundo levantamento da fintech Klavi com dados das 187 bets legalizadas no país.

A reportagem ‘Autoridades apertam cerco às bets enquanto políticos apostam na demagogia eleitoral‘ publicada pela VEJA desta semana mostra que o cerco às bets mistura iniciativas efetivas a movimentos demagógicos, com potencial de gerar barulho eleitoral sem efeitos práticos relevantes. Nas primeiras três rodadas do campeonato, R$ 780 milhões foram depositados em apostas sobre resultado de partidas, placar e número de cartões amarelos. No jogo entre Brasil e Marrocos, o gasto médio por apostador chegou a R$ 524, conforme os dados da Klavi.

Operação federal e fragilidade da fiscalização

Na segunda-feira (6/7), a Polícia Federal deflagrou operação contra 87 empresas utilizadas por sites clandestinos para lavagem de dinheiro e remessa de recursos ao exterior. A ação foi viabilizada após a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, rastrear mais de uma dezena de plataformas sem autorização. Um mapeamento governamental identificou 300 operadores e cerca de 40 instituições com possíveis vínculos a organizações criminosas.

A fragilidade estrutural da fiscalização havia sido apontada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A Corte constatou que, em meados de 2025, apenas três servidores da SPA eram responsáveis por monitorar todas as transações das bets, identificar operações suspeitas e catalogar irregularidades. Em resposta, o Ministério da Fazenda desenvolveu um sistema de cruzamento de dados que permitiu ao Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) emitir mais de 20 mil alertas em dois meses sobre bets ilegais. Simultaneamente, a Receita Federal pediu bloqueio de contas bancárias suspeitas e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) retirou do ar páginas ligadas à jogatina clandestina.

Entre 2024 e meados de 2025, a SPA abriu 455 processos contra plataformas ilegais. O próprio TCU, porém, classificou o esforço como insuficiente. Uma auditoria acessada pela VEJA concluiu que entre 41% e 51% do mercado permanece nas mãos de operadores não autorizados, que movimentam entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões por ano. O documento aponta que os 21.842 bloqueios de domínios e os 483 encerramentos de contas bancárias realizados até então “evidenciam inefetividade que reduz a percepção de risco por parte dos criminosos”; recomendou ao governo federal ampliar o orçamento dos órgãos de fiscalização e endurecer as punições.

Hipocrisia eleitoral no centro do debate

O cenário eleitoral converteu as bets em palanque para discursos de todos os lados. Uma pesquisa da AtlasIntel registrou que 86% da população brasileira acredita que as apostas digitais causam prejuízos sociais, dado que estimulou políticos a tomar posição pública contra o setor.

O presidente Lula declarou ser favorável a acabar com as bets que não prestam “nenhum serviço de utilidade” ao país, acrescentando que “o cassino está dentro da sua casa”. As apostas foram legalizadas por Michel Temer, expandiram sua atuação no governo Jair Bolsonaro e tiveram o funcionamento regulamentado por Lula em 2023. Só em impostos, o setor gerou R$ 33 bilhões para o governo em 2025, conforme dados do texto-fonte.

O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo pelo PT, seguiu a mesma linha. Na quarta-feira (8/7), Haddad publicou em sua rede social que “as bets são um escândalo no Brasil” e afirmou que o negócio “cresceu livremente e criou um problema que hoje afeta milhões de famílias brasileiras”. A VEJA destaca que foi o próprio Haddad quem coordenou o processo de regulamentação das bets sob o aval de Lula; “essa é uma crise que o governo Lula herdou e enfrentou”, completou o petista.

A oposição também adotou o tema como munição. O senador Flávio Bolsonaro associou diretamente Lula ao problema; “Ele regulamentou os sites de aposta. O resultado está aí. Um monte de gente se iludindo, achando que vai ganhar dinheiro apostando, gastando até o que não tem, e, no final, perde tudo”, declarou. O deputado Aécio Neves (PSDB-MG) apresentou projeto de lei para proibir propaganda de apostas em todo o país. A Secretaria Nacional do Consumidor abriu investigação contra a CazéTV por suposta publicidade abusiva de bets durante as transmissões da Copa. A empresa, detentora dos direitos de transmissão do torneio, negou ter veiculado publicidade enganosa ou que sugerisse apostas como forma de investimento.

Desafios além das fronteiras

O problema não é exclusivo do Brasil. O Reino Unido anunciou que apostadores que aplicarem mais de 1.000 libras (cerca de R$ 7.000) em menos de 24 horas passarão a receber alertas imediatos de risco. Na Austrália, estudo do governo apontou que a população perde quase R$ 90 bilhões por ano em apostas digitais, o maior índice per capita do mundo, segundo o levantamento.

 

Zeroumbet – 728 x 90Zeroumbet – 1280 x 97

Compartilhe: