Copa do Mundo testou a infraestrutura das apostas no Brasil — e a Oddsgate compartilha o aprendizado

Apostas I 07.07.26

Por: Magno José

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Em entrevista exclusiva, o CEO Tiago Almeida fala sobre picos de tráfego, Pix, tributação e a expansão da empresa para mercados africanos como Moçambique e Angola

A Copa do Mundo de 2026 testou como nunca a infraestrutura das casas de apostas no Brasil, expondo gargalos de tráfego, verificação de usuários e processamento de pagamentos em tempo real. Nesta entrevista exclusiva, Tiago Almeida, CEO e cofundador da Oddsgate, analisa os principais desafios enfrentados pelo setor durante o torneio — do fim do prazo de certificação técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF à concorrência acirrada com o mercado ilegal, que ainda responde por quase metade do volume de apostas no país.

Almeida também comenta o impacto da elevada carga tributária sobre a rentabilidade dos operadores, o papel central do Pix na experiência do jogador, as estratégias de jogo responsável adotadas durante o evento e os aprendizados que a Oddsgate já está incorporando ao roadmap para o restante da temporada esportiva de 2026. Por fim, o executivo detalha os planos de expansão da empresa para mercados africanos emergentes, como Moçambique e Angola, traçando paralelos com a trajetória regulatória do Brasil nos últimos anos.


Confira a entrevista exclusiva: Tiago Almeida, CEO e cofundador da Oddsgate


A Copa do Mundo de 2026 gerou picos de volume de apostas sem precedentes no Brasil. Do ponto de vista de infraestrutura de plataforma, o que esse tipo de evento expõe sobre a robustez técnica de um operador — e quais gargalos vocês observaram na prática?

Falamos essencialmente sobre momentos de pico de tráfego e de demanda transacional. No Brasil, observamos uma anatomia muito específica: jogos simultâneos, apostas ao vivo concentradas em janelas de segundos (gol, pênalti, VAR) e um comportamento de depósito que acompanha o relógio do jogo, sendo que as pausas para hidratação e o intervalo são também eventos transacionais em si. Para dar uma ordem de grandeza do que o mercado enfrentou, nas 24 horas anteriores ao início do torneio, os fornecedores de verificação processaram mais de 304 mil novos usuários e cerca de 1,2 milhão de autenticações biométricas. Operadores com tecnologia própria e sem escala de rede podem não estar dimensionados ou não receber insight suficiente para acomodar esta dinâmica.

O prazo de transição com requisitos técnicos reduzidos de certificação de software terminou em 30 de junho. Operadores que não se anteciparam a essa mudança enfrentam que tipo de risco operacional agora, e como a Oddsgate ajudou parceiros a se prepararem para essa virada?

O risco é concreto e tem precedente, porque, como vimos, a SPA já demonstrou que suspende. Em abril de 2025, a Portaria SPA/MF nº 787 suspendeu as autorizações de empresas por falta de apresentação das certificações exigidas. Quem chegou a 30 de junho sem a certificação completa, conforme os requisitos integrais, está exposto a exigências, suspensão e, no limite, cassação — e isso num regime sancionatório em que as multas por descumprimento vão de 0,1% a 20% do GGR, podendo chegar a R$ 2 bilhões, além do bloqueio de domínio e de pagamentos. Há ainda um risco menos mencionado, que é a própria capacidade de entrega dos laboratórios. Todos os que deixaram para o fim competiram pelas mesmas janelas de teste das mesmas entidades certificadoras reconhecidas, em plena Copa.

Estudos apontam que entre 41% e 51% do volume de apostas no Brasil ainda passa por sites ilegais, e esse número tende a subir em eventos como a Copa. O que, na experiência operacional da Oddsgate, faz a diferença para reter o jogador no ambiente regulado nesses momentos de pico?

O que faz diferença, na nossa experiência, são três coisas. Primeiro, a velocidade de aprovação do saque: o Pix a cair em segundos é o argumento de retenção mais forte que o mercado regulado tem, porque é algo que o site ilegal frequentemente não honra. Com o tempo, o jogador vai sentir essa diferença e confiar apenas nos operadores de apostas que dispõem de respaldo regulatório e institucional. Segundo, é o uptime no momento do jogo: o apostador perdoa quase tudo menos a plataforma cair. Terceiro, um onboarding em que a verificação facial obrigatória leva segundos, não minutos. A regulação, bem operada, vira produto. Proteção de dados, garantia de prêmio e o domínio .bet.br são ativos de confiança, mas só convertem se a experiência for pelo menos tão boa quanto, ou, se possível, até melhor do que a do ilegal. O foco da regulação deve estar em quem oferece a operação ilegal, não em quem a utiliza. Medidas como o bloqueio de pagamentos e de domínios são fundamentais para reduzir esse mercado. O Decreto nº 13.033/2026, que autoriza o bloqueio imediato das contas de operadores irregulares, é um passo importante nessa direção.

Com um peso tributário estimado entre 35% e 42% do GGR, muitos operadores licenciados entram no segundo semestre com margem mais apertada. Que ajustes de produto ou de operação a Oddsgate tem recomendado aos parceiros para proteger rentabilidade nesse cenário?

Com a atual carga tributária, qualquer oferta mal calibrada significa destruição direta de margem e um possível resultado operacional negativo. No mix de produtos, frequentemente, isto significa direcionar a atenção do usuário para verticais e mercados de margem estruturalmente melhores, com trading mais automatizado e menor exposição a mercados de baixa margem, usados apenas como armadilhas que deixam os operadores desprotegidos. Na operação de automação, cada processo manual de risco, de pagamentos ou de suporte que se automatiza devolve pontos de margem sem tocar no jogador. E, na proteção de receita, o combate sério à fraude de bônus e ao abuso promocional, a nossa experiência nos diz, é uma sangria silenciosa que, em muitos operadores, vale mais do que qualquer otimização de marketing. O operador que sobrevive a uma carga tributária de 40% ou mais é o que conhece a sua unit economics ao cêntimo. A plataforma tem de dar essa visibilidade; é isso que construímos desde 2022.

O Pix já é o padrão dominante de depósito e saque no Brasil. Durante os jogos de maior audiência, quais desafios de liquidez ou velocidade de processamento a Oddsgate identificou, e o que isso ensinou sobre dimensionamento de infraestrutura para grandes eventos futuros?

O Pix resolveu o problema de método de pagamento, que observávamos desde a época do boleto bancário, mas criou um problema de produto e também de engenharia financeira. Durante os jogos de maior audiência, o padrão é bastante exigente: depósitos concentrados no pré-jogo e no intervalo, saques concentrados quase no segundo após o apito final. Os desafios que identificámos foram menos de aprovação de transações e mais de tudo o que está à volta, como os callbacks de confirmação que exigem filas bem desenhadas, reconciliação em tempo real para não travar o crédito na conta do jogador e liquidez de saques do lado do operador, num cenário em que um favorito como o Brasil ganhe e milhares de saques batam ao mesmo tempo.

A lição para grandes eventos futuros: redundância de PSP com failover automático (nenhum processador pode ser ponto único de falha num jogo do Brasil), dimensionamento de liquidez feito com o trading (o passivo de saque é previsível se se olhar para a exposição do sportsbook) e monitorização da cadeia completa, do clique ao crédito, porque o usuário não vai distinguir se foi “a processadora que demorou” ou “a plataforma que falhou”.

Copa do Mundo testou a infraestrutura das apostas no Brasil — e a Oddsgate compartilha o aprendizado
Tiago Almeida detalha os bastidores técnicos e regulatórios da Copa do Mundo 2026 e os planos da empresa para o Brasileirão e eSports

Períodos como a Copa do Mundo aumentam a exposição de novos apostadores, muitos deles pela primeira vez. Como a Oddsgate equilibra ferramentas de jogo responsável com a pressão comercial natural de um evento desse porte?

Não vejo isto como um equilíbrio entre opostos, vejo como gestão de risco. O jogador que perde o controlo durante a Copa é um grande passivo: regulatório, reputacional e humano. O quadro brasileiro já é dos mais duros do mundo, temos proibição de cartão de crédito, controlo etário e mecanismos auditados de autoexclusão, além das vedações recentes a beneficiários de programas sociais introduzidas em maio de 2026. A nossa função como parceiro tecnológico é tornar o cumprimento disso o caminho de menor esforço para o operador, e não um obstáculo. Na prática: limites de depósito e de tempo configuráveis pelo jogador, com fricção mínima; detecção comportamental de padrões de risco, com intervenção automática; e regras de CRM que excluem perfis sinalizados de qualquer comunicação promocional.

Sobre a pressão comercial, quando o trabalho pré-copa é bem organizado, um evento como a Copa traz volume suficiente para não ser preciso empurrar ninguém. A tentação de monetizar agressivamente o apostador de primeira viagem é o erro mais caro que um operador pode cometer neste mercado, e a Nota Técnica da SPA sobre publicidade durante a Copa deixou claro que o regulador está atento exatamente a isso.

Passada a Copa do Mundo, que aprendizados operacionais e de produto a Oddsgate está levando para o restante do calendário esportivo de 2026 — Brasileirão, temporada de eSports — e como isso influencia o roadmap da plataforma?

Diria que para os nossos operadores, o maior aprendizado da Copa não é técnico, será até econômico: o custo de aquisição escalou para níveis que não fecham conta fora de um megaevento.

Durante o torneio, todo o mercado disputou o mesmo apostador nos mesmos canais, ao mesmo tempo, sendo mídia, influência e conversão, e ainda por cima contra o mercado ilegal, que não paga qualquer imposto nem cumpre qualquer regra de publicidade. A pesquisa da Creditas com a Opinion Box indicou que 56% dos brasileiros consideravam apostar durante o torneio, chegando a 70% entre os jovens de 18 a 24 anos, ou seja, entrou no funil uma geração inteira de apostadores novos, comprados a CPA de Copa. O operador que tratou essa base como receita de evento e a deixou esfriar transformou o torneio em um prejuízo de marketing. O que decide o segundo semestre é usar a nossa tecnologia e ferramentas associadas para converter esse CAC inflacionado em LTV, e LTV constrói-se no Brasileirão, na Libertadores e no cross sell do casino e não apenas no próximo grande evento esportivo.

Mercados africanos como Nigéria, Quênia e África do Sul vêm ganhando atenção da indústria global de iGaming, impulsionados por população jovem, alta penetração mobile e ambientes regulatórios em desenvolvimento. A Oddsgate já avalia presença no continente africano? Na sua visão, quais semelhanças e diferenças existem entre a forma como o Brasil e a América Latina absorveram tecnologia e regulamentação nos últimos anos e o que se observa hoje nesses mercados africanos — e como isso pode moldar uma futura estratégia de entrada da empresa na região?

A Oddsgate está presente em Moçambique, um mercado que confirma tudo o que aprendemos sobre a tese mobile-first: segundo o Banco de Moçambique e entidades do setor, existem cerca de 23 milhões de subscritores de moeda eletrônica entre M-Pesa, e-Mola e mKesh, o que significa que milhões de pessoas depositam, apostam e levantam diretamente pelo telefone. É o mesmo fenômeno que o Pix produziu no Brasil, com uma diferença: em Moçambique o mobile money chegou antes da bancarização, não depois. O mercado é jovem e está em plena estruturação — o regulador (a Inspecção Geral de Jogos) identifica 34 operadores licenciados, dos quais cerca de 20 ativos, e o regime fiscal foi atualizado em junho de 2025 — e é exatamente nesse tipo de fase que um fornecedor B2B com experiência em mercados regulados nascentes acrescenta mais valor.

O próximo passo é Angola, e há uma razão de timing: a nova Lei da Actividade de Jogos, a Lei n.º 17/24, modernizou o quadro sob supervisão do ISJ, ampliando o licenciamento para incluir jogos online e apostas em canais múltiplos, com requisitos de capital mínimo e de prevenção de branqueamento de capitais alinhados com padrões internacionais. É um mercado que está a fazer em 2024–2026 o percurso que o Brasil fez em 2023–2025: sair de um quadro fragmentado para um regime que reconhece formalmente o digital e o multicanal. Nós conhecemos esse filme — participámos dele no Brasil desde as consultas públicas — e sabemos que quem entra na fase de estruturação, regulado desde o primeiro dia, constrói uma posição que quem chega depois não recupera.

 


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