Da economia à geopolítica, novo mercado de apostas on-line nasce recheado de polêmicas

Plataformas americanas de apostas preditivas movimentaram US$ 40 bilhões em 2025. As empresas Kalshi e Polymarket lideram o setor, que permite apostas sobre eventos políticos, econômicos e geopolíticos. O governo federal brasileiro proibiu essas operações na segunda-feira (4/5) até que haja legislação específica regulamentando a atividade.
A proibição coloca o Brasil no grupo de mais de cinquenta países que vetam esse tipo de operação, conforme informações apuradas por VEJA. A medida permanecerá em vigor enquanto não houver marco legal específico. A situação é semelhante à das bets esportivas, atualmente alvo de projeto da gestão Lula para banimento.
Funcionamento do mercado preditivo
As plataformas registram em média 600 mil usuários mensais. Os participantes apostam em respostas “sim” ou “não” para questões variadas. O sistema funciona de forma semelhante ao mercado de ações. O valor máximo de cada aposta é US$ 1 e oscila conforme a dinâmica de compra e venda.
As plataformas atuam como intermediárias. Os participantes apostam entre si. Quem perde paga diretamente ao vencedor. Esse modelo difere das bets tradicionais, onde os sites definem probabilidades e prêmios, bancando os vencedores com recursos próprios.
As apostas abrangem questões como “a China vai invadir Taiwan?” e “a existência dos aliens será mesmo confirmada?”. O rol inclui desde resultados de eleições presidenciais até a duração de reuniões na Casa Branca. Consta até um suposto retorno de Jesus Cristo até 31 de dezembro deste ano às 23h59. Caso não se confirme, os apostadores perdem o investimento.
Crescimento do setor
As casas de apostas online deste tipo surgiram nos anos 2000. O fenômeno ganhou proporções maiores com o surgimento das gigantes Kalshi e Polymarket. A Suprema Corte dos Estados Unidos liberou as apostas esportivas em 2018. Após essa decisão, o leque de assuntos se diversificou.
As eleições presidenciais americanas de 2024 representaram um divisor de águas. O contexto de polarização e incertezas impulsionou o volume de lances em 400%. Nas últimas semanas, a guerra no Irã provocou um boom nas plataformas. Usuários apostam sobre o local do próximo ataque e a extensão da trégua.
O mercado preditivo era vetado nos Estados Unidos até julho passado. A atividade foi oficializada na gestão Donald Trump. O setor projeta alcançar US$ 1 trilhão em cinco anos.
Participação brasileira
A cofundadora da Kalshi é a brasileira Luana Lopes Lara. Até a proibição, brasileiros participavam do mercado por meio de contas no exterior. Usuários conseguem furar o bloqueio alterando a VPN, conexão criptografada que oculta a localização de internautas.
O estudante Carlos Arthur Lopes, 26 anos, utiliza as plataformas regularmente. “Jogando, fico antenado com os eventos mundiais”, diz. Ele também encontra questões nacionais nas plataformas. Uma das apostas nacionais foi sobre Ana Paula Renault vencer o BBB26. Levou a melhor quem confiou na vitória dela.
Uma fatia dos participantes se vê mais imersa na atualidade por causa das apostas.
Controvérsias e investigações
O mercado enfrenta controvérsias relacionadas ao possível uso de informações privilegiadas obtidas junto a círculos de poder. O risco de uso de dados obtidos junto às rodas do poder permanece como uma das principais questões que envolvem o mercado preditivo.
O FBI iniciou investigação sobre a líder Polymarket. A investigação foi arquivada quando a atividade foi oficializada na gestão Donald Trump. A decisão de oficializar o mercado exasperou uma banda da oposição. Representantes enviaram carta ao órgão regulador com a seguinte ênfase: “Esse setor virou um Velho Oeste”.
Alternativas no mercado brasileiro
Em março, a Kalshi anunciou consórcio com a XP. A plataforma da XP começou a oferecer aos clientes palpites sobre indicadores econômicos como via de investimento. A bolsa de valores de São Paulo também passou a oferecer apostas voltadas para temas financeiros. Os usuários podem apostar sobre o valor que o dólar atingirá em determinada data. As operações estão limitadas por ora a investidores profissionais.
Desde as civilizações antigas, as pessoas cultivavam o hábito de apostar. Os egípcios arriscavam bens e mercadorias no senet, jogo de tabuleiro que simbolizava a travessia da alma rumo ao além. Os romanos tentavam a sorte em lutas de gladiadores e corridas de bigas. O moderno mercado de apostas tomou envergadura com a seara dos palpites esportivos e dos tigrinhos das bets. O mercado entrou em mais uma fase com variação nos temas.


