
O Brasil discute seus problemas em ondas e, quando o assunto é bets, isso ganha proporções histriônicas. É o caso da legítima campanha de artistas que vão de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Anitta.
É compreensível que parlamentares e personalidades públicas explorem o tema, afinal é um setor em franca expansão, com evidentes desafios e alvo fácil de ataques, seja nas eleições, seja em hashtags.
Mas pensemos: e se acabarem as bets?
As apostas online entraram na vida brasileira com uma velocidade que Estado e consumidores não conseguiram acompanhar. O que, para alguns, começou como uma prática ocasional acabou virando risco de endividamento e de impactos emocionais. Isso precisa, sim, ser enfrentado —mas não deve ser generalizado.
Esse é o ponto incômodo do debate, que exige racionalidade. O Brasil já conviveu durante anos com apostas funcionando numa zona cinzenta. Empresas em paraísos fiscais anunciavam para brasileiros, patrocinavam clubes brasileiros e movimentavam dinheiro de brasileiros, e o dinheiro ficava lá fora.
Faz menos de dois anos que há ordem no mercado, com o Estado presente. Desde janeiro de 2025, só empresas autorizadas pelo governo podem operar nacionalmente, sujeitas a controles efetivos.
Então, quando alguém diz “precisamos acabar com as bets”, é preciso perguntar: acabar com quais? Com as empresas monitoradas, tributadas e obrigadas a cumprir regras?
Acabar com as bets legais é jogar fora os instrumentos que o próprio Estado começou a construir para controlar esse mercado: reconhecimento facial, veto a menores de idade, proibição do cartão de crédito, mecanismos de autoexclusão, regras de prevenção à ludopatia, veto a usuários do Bolsa Família e do Desenrola, fiscalização e punição a quem descumpre a lei.
São mecanismos que podem ser aperfeiçoados. Mas eles estão aí. Sem eles, o que sobra não é um país sem apostas, mas de apostas sem controle.
Um exemplo claro de que o caminho é a regulação rigorosa está no mercado de bebidas alcoólicas — também propagandeado e até celebrado por artistas diversos. É um fenômeno social amplamente aceito, mas com efeitos perniciosos às famílias. Mas ninguém defende a proibição do álcool. Defendem regras para evitar abusos.
Mesmo com o mercado regulado, o governo registrou mais de 25 mil (!) endereços ilegais bloqueados em 2025. Ou seja: o mercado ilegal é enorme e tenta sobreviver mesmo quando há alternativa legal. O fim das bets legais não será o “block”, mas a consagração do “tigrinho” chinês, sem auditoria, fiscalização e responsabilização.
Há ainda o fator da Lei de Responsabilidade Fiscal. Em 2025, a União arrecadou cerca de R$ 16 bilhões. Abrir mão dessa cifra exigiria compensação: aumentar outros impostos ou cortar despesas na mesma proporção. Faz sentido?
No fim, acabar com as bets pode, sim, produzir uma série de vitórias. Os parlamentares ganharão alguns votos, os artistas ganharão likes —e o operador ilegal ganhará um mercado inteiro para explorar. Sem controle nenhum.
(*) Ana Hoefel Pamplona, Ana Bárbara Teixeira, Bárbara Teles, Natália Nogues e Teresa Caeiro são Fundadoras da AMIG (Associação de Mulheres da Indústria do Gaming). O artigo foi veiculado pela Folha de S.Paulo.


