Editorial: Até a Folha confirma: Lula abandona a bandeira da proibição das bets no 2º turno

A bandeira que deveria garantir a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no 1º turno virou assunto evitado na reta final da campanha. Levantamento da Folha de S.Paulo, publicado na noite desta segunda-feira (19), analisou as transcrições de 46 vídeos do canal de Lula no YouTube divulgados até 15 de outubro. A média de menções a “bets” por vídeo caiu de 11, no 1º turno, para quatro, na disputa do 2º turno contra Flávio Bolsonaro (PL), que terminou a primeira etapa com cerca de 2 milhões de votos de vantagem.
Em setembro, mês em que o governo anunciou e editou a MP 1.394/2026, “bets” foi a oitava palavra mais dita pelo presidente, à frente de educação. O tema esteve presente em todos os vídeos do canal entre 1º de setembro e 4 de outubro. Depois do 1º turno, a campanha tirou as apostas das inserções de rádio e deixou o assunto de fora do debate da Band, no domingo (18). O BNLData já havia registrado o mesmo silêncio na sabatina da TV Globo, em 15 de outubro.
O recuo é ainda mais evidente em relação ao futebol. Segundo a Folha, Lula deixou de tratar dos clubes depois da reação de dirigentes e torcedores, que culminou no protesto de Flamengo e Fluminense no Fla-Flu de 11 de outubro. No lugar das bets, a campanha passou a apostar no fim da escala 6×1, no perdão de dívidas de microempreendedores e no ataque direto ao adversário.
O jornal também cita reportagem do SBT News segundo a qual a primeira-dama Janja da Silva lamentou, aos prantos, que o fim das bets não tenha produzido a vitória esperada no 1º turno.
Boulos admite o estrago
O mesmo dia da publicação da Folha trouxe a confirmação mais direta de que a MP virou problema para a campanha. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, se reuniu nesta segunda-feira (19/10) com representantes de 35 torcidas organizadas de diferentes clubes do país, no escritório da Presidência em São Paulo. Segundo o aviso de pauta do governo, estava em discussão o cenário do futebol após a proibição das bets.
Boulos reconheceu que a proibição afetou o financiamento dos clubes e disse que o governo discute alternativas, mas ainda não definiu medidas específicas. A solução apresentada foi a de sempre: o ministro prometeu criar um grupo de trabalho permanente para discutir as demandas das torcidas e os impactos da perda dos patrocínios.
Na reunião, os participantes manifestaram apoio à reeleição de Lula, o que expõe a natureza do encontro. A menos de duas semanas do 2º turno, a campanha precisou correr atrás de um público que ela mesma afastou com a MP. A disputa é aberta: a campanha de Flávio Bolsonaro já declarou apostar na insatisfação das torcidas com o fim das bets para tirar votos de Lula.

Aprovar não é votar, e os descontentes pesam
A Folha registra pesquisa Quaest em que 64% dos entrevistados sabiam da proibição e apenas 8% desse grupo desaprovavam a medida. O próprio jornal reconhece que não está claro quanto dessa aprovação se converteu em votos.
O dado que a campanha ignora é o outro lado da conta. Os 8% de descontentes entre os que conhecem a medida equivalem a cerca de 5% de todos os entrevistados. Numa projeção simples sobre um eleitorado de mais de 150 milhões de pessoas, isso representa mais de 7 milhões de eleitores, mais que o triplo da diferença que separou Flávio de Lula no 1º turno. Em setembro, pesquisa Atlas/Bloomberg já apontava 17% de brasileiros contrários à proibição.
Não é um eleitorado difuso. São apostadores recreativos, torcedores, trabalhadores do setor e suas famílias, diretamente atingidos pela medida e com motivo concreto para votar contra quem a editou. Quem aprova a proibição dificilmente decide o voto por causa dela. Quem perdeu o patrocínio do clube, o emprego ou a forma de lazer, sim.
É exatamente o ponto que o BNLData apontou antes da edição da MP. O governo se guiou por pesquisas de rejeição às apostas e ignorou quem seria atingido diretamente. O resultado do 1º turno mostrou o tamanho desse erro de cálculo.
O discurso que sobrou
As bets ainda aparecem nos atos de rua. Em Natal, Lula disse a apoiadores que a passeata era daqueles que “não querem mais bet roubando o povo pobre desse país”.
A frase inverte a realidade. Lula condena as plataformas reguladas, que pagavam impostos, identificavam o apostador, bloqueavam menores e financiavam saúde, esporte e segurança pública. Ao fazer isso, abre o mercado brasileiro às plataformas ilegais, que já detinham mais de 40% das apostas mesmo após 22 meses de regulação. Essas sim tiram dinheiro do brasileiro sem nenhuma das proteções do Estado.
Como repete o editor do BNLData: “o jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível”.
Campanha de Lula recua em ataques a bets após erro estratégico em discurso


