Enquanto brasileiros dizem se endividar com bets, americanos deixam de poupar US$ 1 para cada dólar em apostas

O National Bureau of Economic Research (NBER), o Federal Reserve de Nova York e o Australian Gambling Research Centre realizaram estudos sobre os impactos financeiros das apostas eletrônicas. As análises utilizaram rastreamento de transações bancárias e relatórios de crédito. Os resultados indicam comprometimento da estabilidade econômica das famílias.
Pesquisadores do NBER rastrearam transações financeiras nos Estados Unidos utilizando os Merchant Category Codes (MCC). Cada operação eletrônica no país recebe um código de quatro dígitos identificando o tipo de estabelecimento comercial. Segundo informações da Folha de S.Paulo, os estudos internacionais se destacam pelo rigor metodológico e pela exposição detalhada de dados, características que contrastam com parte da produção acadêmica nacional sobre o tema.
Os códigos 7801 (Internet Gambling) e 7995 (Apostas e Loterias) permitiram identificar o capital destinado a 11 grandes plataformas. FanDuel e DraftKings estão entre as empresas que controlam 70% do mercado.
A pesquisa estabelece uma relação matemática direta: cada dólar aplicado em apostas resulta em redução exata de um dólar na poupança e investimentos em outros ativos financeiros. Os recursos não provêm de renda adicional. O comprometimento ocorre diretamente sobre as economias familiares.
A Suprema Corte dos Estados Unidos garantiu aos estados o direito de regular o tema em 2018. A decisão levou à legalização em 38 das 50 unidades federativas.
Os gastos em jogos online e casas de apostas aumentaram aproximadamente dez vezes após a medida judicial. Cerca de 30% dos adultos americanos participam de apostas online. O percentual sobe a 60% considerando loterias, cassinos e bingos físicos.
O Federal Reserve de Nova York utilizou o Painel de Crédito ao Consumidor (CCP). A análise examinou uma amostra representativa de 5% de relatórios de crédito anônimos da Equifax. A Equifax é uma das três maiores agências de crédito dos Estados Unidos.
A taxa de inadimplência média aumenta dez pontos percentuais quando as pessoas começam a apostar online. O aumento representa quase o dobro da taxa base.
Pessoas com menos de 40 anos registraram aumentos mais elevados na inadimplência de cartões de crédito e em financiamentos de veículos. O impacto é desproporcionalmente maior nesse grupo.
O Fed identificou o “efeito de transbordamento”: moradores de estados onde a prática em ambientes online e físicos é ilegal se deslocam para estados vizinhos para apostar. Esses deslocamentos geram gastos que equivalem a 15% do volume total dessas áreas.
Os apostadores “exportam” inadimplência para seus estados de origem. O fenômeno amplia geograficamente os danos financeiros provocados pelo mercado de jogos.
Foram realizados mais de US$ 500 bilhões em apostas nos Estados Unidos desde 2018. Os estados arrecadaram quase US$ 3 bilhões em impostos em 2024.
A Austrália detém as maiores perdas per capita do mundo com apostas. O total alcança 32 bilhões de dólares australianos (US$ 20,8 bilhões) anuais. O National Gambling Prevalence Study 2024 foi realizado com 3.881 adultos.
O levantamento revelou que 65,9% dos jogadores de alto risco enfrentam dificuldades financeiras extremas. Essas pessoas chegam a pular refeições ou deixar de pagar contas essenciais.
Pesquisa do Australian Gambling Research Centre vincula o vício a danos sociais profundos. A prevalência de violência doméstica é quase três vezes maior em lares com apostadores frequentes: 18,9% contra 6,8% onde não há o hábito. Os dados demonstram que os impactos transcendem a esfera financeira.
Narrativas falsas
No Brasil, levantamentos sobre o tema se baseiam mais em pesquisas de opinião, diferentemente dos estudos internacionais que apresentam maior rigor metodológico e exposição explícita de dados sólidos. O Instituto Locomotiva identificou que 25 milhões de pessoas passaram a fazer apostas eletrônicas entre janeiro e julho de 2024. Em cinco anos, 52 milhões jogaram.
Das pessoas que apostam, 86% afirmaram ter dívidas. O percentual de 64% estaria negativado na Serasa. Entre todos os endividados e inadimplentes no país, a pesquisa constatou que 31% jogam nas bets.
O Instituto DataSenado aponta que 42% dos brasileiros que dizem ter gasto alguma quantia em bets ao longo de um mês estavam endividados. O percentual engloba apostadores com contas atrasadas há mais de 90 dias.
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda informou que as empresas de apostas esportivas e jogos online faturaram R$ 17,4 bilhões de janeiro a junho do ano passado.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sustenta que o setor enfrentou perda de R$ 103 bilhões do faturamento anual potencial de 2024. O redirecionamento dos recursos das famílias para os jogos provocou a redução.
A CNC afirma que 1,8 milhão de brasileiros entraram em situação de inadimplência por comprometer a renda com as bets.
A precariedade de alguns estudos produzidos no Brasil contrasta com a solidez das pesquisas internacionais. Faltam maior rigor e exposição explícita de dados nas análises nacionais brasileiras na comparação com estudos internacionais. Em outubro de 2024, o próprio Banco Central afirmou que não havia garantias de que estudo seu indicando que beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para empresas de apostas esportivas online não estava sujeito a falhas.
Trabalho do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School afirma que as bets estão assumindo protagonismo no avanço do endividamento das famílias. O estudo indica que já superam os efeitos tradicionais associados aos juros e à expansão do crédito.
A análise, de 2011 a 2025, combina dados oficiais como endividamento, renda e massa salarial com indicadores de interesse por apostas captados em redes sociais. Na prática, analisa conversas sobre bets na internet, produzindo narrativas a partir de análises de discussões online, mas não apresenta dados sólidos e exclusivos de volumes apostados, o que limita a robustez das conclusões apresentadas.

