Enxugando gelo: governo derruba sites, mas o mercado ilegal se multiplica e já clona as marcas das bets que saíram do ar

Vinte dias depois da MP 1.394/2026, o governo se apoia num número para mostrar eficiência: quantos sites mandou derrubar. Logo na primeira semana, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, informou que mais de 10 mil sites ilegais haviam sido encaminhados à Anatel para derrubada. O próprio monitoramento oficial, porém, mostra o outro lado da conta. Entre 22 e 28 de setembro, foram confirmados 6.401 novos sites ilegais e identificados 811 links para essas plataformas nos canais monitorados.
O problema não nasceu com a MP. Só entre 1º de janeiro e 22 de setembro de 2026, a SPA encaminhou 57.691 endereços à Anatel. Antes mesmo da medida, a agência já havia derrubado 78 mil sites ilegais a pedido do governo. Depois dela, a velocidade aumentou dos dois lados. A plataforma Bet Legal identificou 415 novos sites não autorizados nas 48 horas seguintes à publicação da MP. E, até 29 de setembro, dos 5.209 domínios cujo bloqueio o governo pediu, a Anatel havia determinado o bloqueio de 2.387, menos da metade.
Clones das marcas legais
O fenômeno mais grave começou quando as operadoras autorizadas saíram do ar, em 6 de outubro. Uma das empresas atingidas encontrou páginas clandestinas usando sua própria identidade visual: ao menos 11 endereços ilegais exibiam a marca ou se apresentavam de forma parecida. Segundo a empresa, derrubar esses endereços virou uma corrida sem fim, porque novos aparecem minutos depois. O apostador que procura a casa onde jogava por anos encontra, no lugar dela, um site falso sem garantia de pagamento, sem autoexclusão e sem a quem reclamar.
A divulgação também mudou de mãos. As plataformas ilegais se promovem com influenciadores de perfis verificados pela Meta e mantêm aplicativos nas lojas oficiais da Apple e do Google. Ou seja: a publicidade que a MP proibiu às empresas autorizadas continua circulando, agora em favor de quem nunca pagou outorga nem imposto.
O tamanho do vácuo
O mercado clandestino já era grande antes da proibição. Pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pelo IBJR, estimou que as operações irregulares concentravam de 38% a 44% das apostas online no primeiro semestre. Outro estudo encomendado pela entidade, da LCA Consultores, calculou que o mercado ilegal pode movimentar entre R$ 26 bilhões e R$ 30 bilhões em 2026. Ambos os estudos foram contratados pelo setor, e a projeção é anterior à saída das empresas autorizadas. Com 40 milhões de apostadores ativos e 85 empresas autorizadas fora do jogo, o espaço a ocupar ficou muito maior.
Também ficou maior a conta para o Estado. Segundo o setor, o mercado regulamentado contribuiu com quase R$ 10 bilhões em tributos, recursos que as plataformas clandestinas não recolhem.
A cobrança
A Polícia Federal acaba de ganhar, pela Portaria MJSP nº 1.325/2026, uma divisão dedicada à repressão das apostas ilegais. É a hora de o governo responder com números o que até agora respondeu com volume de pedidos: quantos sites permanecem fora do ar, quantas contas foram bloqueadas, quantos operadores foram identificados e quanto dinheiro foi recuperado. Derrubar endereços que renascem em minutos é enxugar gelo. A regulação, que identificava quem operava, recolhia impostos e protegia o apostador, era a ferramenta que funcionava. E foi justamente ela que a MP desligou.


