Eu sou bom de ‘bet’?

Já não é novidade para ninguém que as bets esportivas e os jogos de apostas online no Brasil movimentam cifras bilionárias e se tornaram um fenômeno de massa que preocupa especialistas, educadores e famílias em todo o País. Se fosse amplamente compreendido que essas apostas constituem apenas uma forma de entretenimento pago – similar a ir ao cinema ou a um parque de diversões –, o problema seria consideravelmente menor. Contudo, o que se observa é a disseminação perigosa da falsa crença de que é possível obter lucros consistentes e significativos por meio dessas plataformas. Um indicativo dessa mentalidade equivocada é a proliferação desenfreada de cursos na internet que prometem ensinar “métodos infalíveis” para apostar, vendendo a ilusão de que existe uma fórmula mágica para transformar apostas em uma fonte confiável de renda.
E há uma bela armadilha pelo caminho… Um comportamento bastante comum pode criar a ilusão de que as pessoas são, de fato, “boas de bet”. Imagine que uma pessoa faz uma primeira aposta ao começar o dia e, caso obtenha lucro, decide não apostar mais naquele dia. Porém, se registra prejuízo, continua apostando na tentativa de reverter as perdas. Essa dinâmica produz consequências enganosas: quem age assim tende a obter ganhos em mais da metade dos dias em que aposta, criando uma falsa sensação de habilidade. Entretanto, nos dias de derrota, as perdas costumam ser muito maiores do que os ganhos obtidos nos dias vitoriosos. O resultado disso é o acúmulo de prejuízo financeiro ao longo do tempo, mesmo com uma maioria de dias “de vitória”. Um porcentual de vitórias acima de 50% pode alimentar um autoengano profundo, levando o apostador a acreditar que possui habilidade especial, quando, na realidade, está sendo vítima de um mecanismo psicológico que distorce sua percepção de competência.
Numa pesquisa acadêmica recente, meus coautores e eu mostramos empiricamente num ambiente similar que esse fenômeno de fato existe. Nossa investigação analisou a atividade de 39.744 day traders na bolsa de valores brasileira entre 2012 e 2018. Simplificando a mecânica do day trading: as pessoas precisam essencialmente prever se ativos como o dólar ou o Ibovespa irão valorizar ou desvalorizar dentro do dia. Quando apostam na alta, compram primeiro para vender posteriormente; quando apostam na queda, vendem inicialmente para recomprar depois a preços menores. Assim como as bets esportivas, o day trading atrai muitas pessoas físicas seduzidas pela promessa tentadora – e ilusória – de lucros fáceis.
Quando analisamos os dados de day trading, encontramos exatamente o padrão comportamental descrito anteriormente. Se começam o dia ganhando, as pessoas tendem a parar de operar naquele dia. No entanto, se começam perdendo, continuam tentando reverter as perdas. Por conta desse comportamento, os 39.744 day traders apresentaram lucro positivo em 53% dos dias – uma taxa de sucesso que reforça a ilusão de competência – mas, ao mesmo tempo, perderam mais de R$ 300 milhões.
A descoberta mais interessante (e preocupante) de nossa pesquisa é a constatação de que as pessoas se deixam enganar por esse porcentual artificialmente inflado de dias com lucro positivo. Ao examinarmos o histórico de cada day trader, identificamos um padrão surpreendente: a probabilidade de uma pessoa decidir abandonar a atividade de day trade para sempre – a decisão mais acertada para a preservação de seu patrimônio – depende exclusivamente do porcentual de dias em que registrou lucros, ignorando completamente seu resultado financeiro acumulado. Ou seja, mesmo diante de prejuízos substanciais, se a frequência de dias “vencedores” está artificialmente inflada, o indivíduo tende a persistir na atividade, possivelmente alimentado pela crença ilusória de que possui boas habilidades.
O paralelo entre apostas esportivas e day trading revela um padrão de comportamento humano que transcende os contextos específicos: a tendência a superestimar habilidades individuais com base em métricas ilusórias de sucesso. Quando a percepção de competência é alimentada por indicadores enganosos – como a frequência de pequenos ganhos diários –, o indivíduo se distancia da realidade dos prejuízos acumulados, muitas vezes reforçando um ciclo de perdas financeiras e sofrimento emocional. O problema, portanto, não está apenas na existência dessas plataformas, mas na forma como a cognição humana é explorada por estruturas que favorecem o autoengano.
Diante desse cenário, torna-se urgente um esforço coletivo de educação financeira, regulação responsável e conscientização crítica. Não se trata de demonizar o entretenimento ou a busca por oportunidades de lucro, mas de oferecer à população as ferramentas cognitivas e informacionais necessárias para discernir entre ilusão e realidade. A compreensão dos mecanismos psicológicos que sustentam o autoengano pode ser o primeiro passo para evitar que milhões de pessoas continuem, dia após dia, apostando não apenas dinheiro, mas também sua estabilidade emocional e seu futuro.


