Ex-funcionário do Banco Master é investigado por lavagem de dinheiro em apostas ilegais

A Polícia Civil de São Paulo investiga André Felipe de Oliveira Seixas Maia, de 54 anos, por suspeita de participação em esquema de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas ilegais. Ele trabalhou no Banco Master até março de 2022. Posteriormente, atuou como diretor da Tirreno, instituição financeira que cedeu créditos ao Master.
A divisão contra estelionato do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) identificou Maia como principal sócio da Silium, intermediadora de pagamentos. A polícia aponta essa empresa como “peça central na engrenagem financeira” de organização criminosa voltada a jogos de azar ilegais. Segundo informações do Estadão, Seixas Maia é suspeito de ter encabeçado a fabricação de uma carteira de crédito falsa de R$ 6,7 bilhões no esquema do Banco Master, que está no centro do escândalo que levou à liquidação do banco de Daniel Vorcaro em novembro.
Empresa gerenciava contas de firmas de fachada
As apurações policiais indicam que a Silium gerenciava contas bancárias de empresas de fachada. Essas companhias eram utilizadas para movimentar recursos provenientes de apostas ilegais. As operações funcionavam por meio de CNPJs abertos em nomes de laranjas, seguindo o modelo das chamadas “bets chinesas”. A investigação identificou que a empresa que pertenceu a Seixas Maia e sócios, posteriormente renomeada Nuoro Pay, é suspeita de administrar as contas bancárias de empresas de fachada que recebiam o dinheiro depositado no site 59bet55.com, que redirecionava para a página 6666tiger.com, que oferecia jogos de azar como o ‘slot machines’ e apostas esportivas, sem autorização para operar em território nacional.
O inquérito tramita em sigilo. A investigação foi inicialmente revelada pelo SBT News. O Estadão também teve acesso às apurações. A investigação encontrou fluxo de dinheiro de apostas da plataforma ilegal para empresas intermediárias, registradas em nome de pessoas que não tinham conhecimento de que tinham companhias constituídas sob sua responsabilidade. Por exemplo, uma vendedora de roupas do Brás e um usuário de drogas dado como desaparecido pela família.
Sócios renunciaram após visita policial
Policiais do Deic compareceram à sede da Silium em 12 de março de 2025 para tentar intimar os responsáveis pela empresa. Uma semana depois, André Maia e outros três sócios — incluindo um de nacionalidade coreana — renunciaram formalmente à companhia. A empresa mudou de nome e passou a se chamar Nuoro Pay. Na sequência, segundo o zelador do prédio, o local em que funcionava a empresa foi esvaziado e o contrato de locação foi rescindido.
O Ministério Público de São Paulo avaliou que as mudanças “sugerem tentativa de reorganização societária ou ocultação da verdadeira estrutura de controle da empresa, possivelmente em resposta às medidas de persecução adotadas”. Além de Seixas Maia, dois sócios da Silium também faziam parte do quadro societário da Cartos, empresa que, segundo a Polícia Federal e o Banco Central, teria fabricado as carteiras de crédito falsas para o Banco Master.

Tirreno cedeu créditos ao Master sem histórico claro
Paralelamente às atividades investigadas pela polícia, André Maia mantinha negócios com o Banco Master por meio da Tirreno. Entre janeiro e maio de 2025, a Tirreno cedeu aproximadamente R$ 6,7 bilhões em créditos ao Master. Esses créditos não apresentavam históricos claros de pagamento ou movimentação bancária. Segundo a PF, o Master não pagou nada pela aquisição da carteira de R$ 6,7 bilhões e a vendeu para o BRB, cujo rombo com as fraudes pode ultrapassar R$ 5 bilhões.
O Master repassou esses créditos ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12,2 bilhões. O valor incluía um prêmio de R$ 5,5 bilhões. O BRB anunciou a fusão com o Master em 28 de março de 2025.
Polícia Federal aponta documentos falsos
André Maia é acusado de fornecer documentos falsos ao Banco Central. A Polícia Federal aponta que os créditos negociados pela Tirreno eram “podres”. A empresa teria funcionado como fachada para simular créditos inexistentes. Seixas Maia ficou preso por três dias em novembro, alvo da Operação Compliance. Ele pediu a suspensão de seu depoimento à PF, que estava marcado originalmente para 26 de janeiro, sob o argumento de que seus advogados não haviam tido acesso integral às provas reunidas.
A Tirreno alegava ter capital social de R$ 30 milhões. O BRB não checou o lastro desse capital social alegado pela firma. O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse à Polícia Federal durante depoimento em dezembro que foi a partir de uma reunião em junho com o sócio da Cartos e da Tirreno que a autoridade monetária teve certeza de que havia fraude. Segundo Aquino, Seixas Maia teria dito no encontro que mais de R$ 6 bilhões haviam sido gerados em créditos pelas empresas, o que seria “impossível do ponto de vista técnico”, dado que a Cartos é uma “empresa pequena” e a Tirreno é uma empresa “desconhecida”.
Plataformas dificultavam saques e ofereciam jogos irregulares
As plataformas de apostas do suposto esquema operado por André Maia funcionavam nos moldes das “bets chinesas”. Essas plataformas recebem aportes de apostadores por meio de CNPJs abertos em nomes de laranjas. Elas dificultam saques. Os jogos oferecidos não seguem regras básicas previstas na legislação brasileira.
Os links para apostas são disseminados nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. Entre os principais jogos oferecidos estão os classificados como cassino online. O jogo é permitido desde que oferecido por casas de apostas autorizadas pelo Ministério da Fazenda. As plataformas devem comprovar que seus mecanismos atendem requisitos de controle e de pagamento de prêmios. Tanto as empresas de fachada como a própria Silium são alvos de centenas de queixas em sites como o Reclame Aqui devido a retenção de valores depositados ou não pagamento de apostas. Pessoas que foram registradas como proprietárias das empresas de fachada disseram à Polícia Civil que têm recebido ameaças de apostadores.

Contas-bolsão dificultavam rastreamento
A investigação identificou que a Silium/Nuoro Pay utilizava as chamadas “contas-bolsão” para dificultar o rastreamento dos recursos. Esse mecanismo permite o recebimento de recursos de várias origens sem necessidade de movimentação pelos titulares formais. Esse instrumento, típico de fintechs, reúne recursos de vários usuários em uma única conta, sem identificação individualizada dos titulares.
O modelo, que também foi identificado em outras investigações, é usado para fragmentar, misturar e redistribuir valores. Isso dificulta o rastreamento de recursos no sistema bancário. Em novembro do ano passado, após operação de PF, Ministério Público de São Paulo e Receita que apontou o uso das contas-bolsão por fintechs que supostamente atuavam para movimentar recursos para a organização criminosa, o Banco Central determinou o encerramento dessa modalidade de conta.
Ministério Público aponta estrutura sofisticada
Para o Ministério Público de São Paulo, as características da firma de André Maia e de outras com atuação semelhante têm elementos de que foram criadas com o propósito de dissimular origem e destinação de dinheiro obtido com apostas ilegais. As diversas empresas de fachada, constituídas e abandonadas em sequência, teriam sido criadas pela organização para promover a circulação rápida do dinheiro das apostas, apagar registros e escapar do rastreamento policial. A investigação identificou movimentações financeiras de mais de R$ 36 milhões em somente uma das empresas em um período de quatro meses.
“A análise dos dados cadastrais, registros societários, boletins de ocorrência, reclamações de consumidores e diligências técnicas realizadas pela equipe policial demonstram a existência de uma estrutura sofisticada e ramificada, com atuação transnacional, voltada à prática de jogos de azar, fraudes financeiras e lavagem de dinheiro”, afirmou o MP em parecer de outubro de 2025. A investigação da polícia encontrou também outras estratégias dos envolvidos no esquema para fugir do rastreamento, como ferramentas tecnológicas para inviabilizar a identificação do servidor de origem e do provedor final de hospedagem da plataforma de apostas.
Relação entre investigações não foi estabelecida
A investigação preliminar sobre plataformas de apostas ilegais não indica se há relação direta entre essas operações e as transações referentes ao Banco Master. O inquérito tramita em sigilo. Não foram divulgados detalhes sobre o andamento das apurações ou possíveis desdobramentos. Segundo os investigadores, o inquérito mostra “indícios robustos quanto à materialidade das práticas criminosas de exploração de jogos de azar e lavagem de capitais”, articulado por um sistema de empresas e beneficiários no qual a Silium/Nuoro Pay tinha posição central.
Vorcaro declarou que conhecia responsável pela Tirreno
Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, também está envolvido nas operações com a Tirreno. Henrique Peretto é apontado como outro responsável pela Tirreno. O Banco de Brasília, gerido pelo governo do Distrito Federal, pagou pelos créditos.
Em depoimento, Daniel Vorcaro declarou que fez negócios com a Tirreno porque conhecia Henrique Peretto, outro responsável pela empresa. Vorcaro afirmou que não considerou o fato de a Tirreno ter sido aberta dias antes das operações. Vorcaro disse, também em depoimento à PF, em dezembro, não concordar com a definição das carteiras como podres e que não se aprofundou na análise das operações na ponta.
Defesa afirma confiança na inocência
O advogado de André Maia, Luiz Felipe Mallmann de Magalhães, afirmou estar confiante de que o empresário não cometeu qualquer ilícito. Declarou que isso será demonstrado no decorrer da investigação, que ainda não está concluída. Em nota, a defesa de Seixas Maia afirma que ele jamais se beneficiou de quaisquer recursos ilícitos, não participou de estruturas voltadas à exploração irregular de apostas e nem teve conhecimento prévio de eventual ilicitude de terceiros. Destaca, também, que o inquérito se encontra em fase investigativa, sem denúncia, sem indiciamento e sem decisão judicial que atribua a Seixas Maia a prática de qualquer conduta irregular.
A defesa de Seixas Maia no caso da investigação em São Paulo afirma que “a empresa operava com natureza estritamente técnica, como provedora de tecnologia voltada ao processamento e gerenciamento de transações eletrônicas de pagamento”, sem qualquer ingerência sobre origem, destino ou finalidade das transações realizadas por seus clientes. Assim, a empresa não atuava como instituição financeira ou operadora de plataformas de apostas, mas sim como intermediadora de pagamentos, “em estrita conformidade com a legislação vigente e com as normas do Banco Central, sem envolvimento com a atividade-fim de terceiros, intermediação de investimentos ou exploração de jogos”. A Cartos nega ter participado da fabricação ou comercialização da carteira de créditos falsos.
A investigação prosseguirá para determinar a extensão do suposto esquema criminoso. Pessoas próximas ao Banco Central apontam que esse braço da investigação revela a complexidade da estrutura, com suspeitas de crimes em diversas frentes.


