‘Ganhei na loteria e continuei devendo’: por que limpar o nome não basta para tirar os brasileiros das dívidas

O Serasa registra mais de 80 milhões de pessoas endividadas no Brasil. O governo federal lançou o programa Desenrola 2.0 no início desta semana para renegociação de débitos. Especialistas avaliam que a iniciativa tem alcance limitado sem mudanças de comportamento e educação financeira.
O empresário Delano Zonta acumulava mais de R$ 230 mil em dívidas quando ganhou R$ 35 mil na quina da Mega-Sena. Ele utilizou todo o prêmio para pagamentos parciais. Permaneceu devendo mais de R$ 216 mil. O caso, relatado ao g1 Globo, ilustra como mesmo um ganho inesperado não resolve problemas financeiros estruturais quando falta educação financeira adequada.
Zonta misturava as finanças pessoais com as da empresa. Chegou a retirar todo o capital do negócio para comprar um veículo novo. O uso descontrolado do cartão de crédito provocou o colapso de suas finanças.
“Mesmo tendo boa renda, eu sempre acabava gastando tudo. Desde os meus 18 anos eu já era enrolado com dinheiro”, relembra. “Eu gastava no cartão mais do que conseguia pagar. Quando a fatura vinha, entrava no cheque especial e dizia para mim mesmo que depois tentaria resolver”, diz o empresário.
Zonta contraía gastos no cartão acima de sua capacidade de pagamento. Quando a fatura chegava, recorria ao cheque especial. Com auxílio de um amigo gerente bancário, contratou novos empréstimos para liquidar débitos antigos. Assumiu parcelas superiores à sua capacidade de pagamento. Iniciou um novo ciclo de endividamento. O empresário havia falido três vezes antes de ganhar na loteria.
O prêmio ocorreu em um sábado. Zonta possuía apenas R$ 42 na conta. “O primeiro sentimento foi de alívio: eu ganhei na loteria! Peguei o dinheiro às 11h e comecei a pagar um pouco de cada dívida. Às 14h30, eu já não tinha mais nenhum real. Tinha dado tudo para o banco”, diz Zonta.
“Aquele foi um dos piores dias da minha vida, com um sentimento enorme de fracasso. Mas também foi o dia em que decidi que não dava mais para continuar assim”, afirma o empresário. A experiência demonstra que mesmo um prêmio de loteria não foi suficiente para resolver o endividamento causado por anos de má gestão financeira e falta de planejamento.
Foram necessários quase quatro anos para que Zonta conseguisse honrar todos os compromissos. A última parcela, no valor de R$ 316, foi quitada em janeiro de 2020. No mesmo ano, iniciou a formação como planejador financeiro.
A esposa desempenhou papel fundamental no processo de reorganização financeira. “Uma coisa que o endividado sente é solidão. A gente tem vergonha de falar, de assumir que está com um problema. Mas lidar com tudo isso sozinho é muito mais difícil”, afirma o empresário.
Naquela noite, Delano começou a estudar o funcionamento do sistema bancário. Separou as dívidas. Organizou o orçamento. Passou a cuidar melhor do dinheiro.
Atualmente como planejador financeiro, Zonta alerta que de nada adianta a renegociação para aqueles que continuam com os mesmos padrões de comportamento. “O problema do Brasil e do endividamento não é só a falta de crédito ou os juros altos. O problema é que as pessoas não aprendem ‘na base’ [quando crianças] a lidar com dinheiro, e isso se reflete na vida toda”, diz.
As sextas-feiras eram dedicadas por Zonta a apostar na loteria. O jogo representava uma tentativa de aliviar um orçamento já sufocado por dívidas.
A planejadora financeira Myrian Lund afirma que “o problema da dívida não está apenas na taxa de juros. Ele vem do excesso de crédito disponível para a população”. Ela reitera que o novo programa do governo deveria ser associado a ações de educação financeira para gerar resultados mais permanentes na redução da inadimplência. A perspectiva contraria a narrativa que tenta atribuir exclusivamente às plataformas de apostas esportivas (bets) a responsabilidade pelo aumento do endividamento da população brasileira, quando na realidade o problema é mais amplo e estrutural.
“Para uma minoria, pode até ser positivo, porque vai liquidar a dívida e evitar novas quedas no endividamento. Mas, do ponto de vista estrutural, é apenas enxugar gelo”, completa Lund.
Wagner Pagliato, coordenador do curso de ciências contábeis da Unicid, afirma que casos de endividamento crônico costumam estar ligados à falta de alinhamento nas decisões de consumo. A pressão social para manter um padrão de vida acima da renda também contribui.
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o endividamento muitas vezes ocorre por motivos emocionais ou familiares. “Eventos inesperados, como doenças, emergências familiares ou perda parcial de renda, também podem desorganizar rapidamente o orçamento. Assim, mesmo famílias com renda estável podem se tornar inadimplentes”, afirma Pagliato.
“O endividamento pode gerar estresse, ansiedade, sensação de culpa e até negação da situação financeira. A dívida deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a envolver comportamento, hábitos e saúde emocional”, completa.
Fernanda teve sua vida financeira alterada no fim de 2024 após ter o celular roubado. Criminosos fizeram mais de R$ 40 mil em compras fraudulentas no cartão de crédito. Também contrataram um empréstimo de R$ 150 mil em seu nome.
“Entrei no cheque especial e fui ficando cada vez mais no vermelho, principalmente por causa dos juros. Uma dívida de R$ 30 mil que eu tinha no cartão se transformou em R$ 112 mil”, conta. “A verdade é que ninguém quer ficar com o nome sujo. Quero resolver essa situação”, comenta.
Fernanda afirma que avalia se inscrever no Desenrola 2.0 para tentar resolver o problema.
A secretária Tatiana também enfrentou colapso financeiro após um relacionamento que terminou mal. “Eu estava apaixonada e não percebi que fui induzida a pegar um empréstimo consignado para ajudá-lo a montar o negócio dele. Depois ainda fomos fazer uma viagem de cruzeiro em que eu acabei pagando tudo. Parcelei e fui me endividando”, conta ela.
“Crédito fácil é o canto da sereia. Peguei vários empréstimos pelo aplicativo do banco e, quando vi que estava com dificuldade, cheguei a ir à agência para falar com a gerente e ver como ela poderia me ajudar. Mas a saída que ela me deu foi aumentar meu limite para R$ 10 mil”, diz.
Tatiana teve seu limite de cheque especial aumentado para R$ 10 mil pela gerente do banco. Diante do montante de quase R$ 100 mil em dívidas, a secretária precisou alterar seus padrões de consumo. Com orientação de uma planejadora financeira, ela optou por remover as contas do débito automático. A estratégia visa acumular recursos para negociar descontos mais vantajosos com as instituições financeiras.
A planejadora financeira Mônica Cardoso alerta que as renegociações demandam cautela por parte dos endividados. Uma dívida resolvida agora pode se transformar em outra no futuro. “Infelizmente, uma reserva não vai sanar o problema. É preciso cuidado para não se endividar de novo depois de um ou dois anos”, diz.
Mônica Cardoso vivenciou essa realidade ao acumular mais de R$ 50 mil em dívidas. A situação ocorreu após uma queda repentina de renda combinada com gastos excessivos no cartão de crédito.
“Depois de uma compra alta, meu marido chegou a picotar nosso cartão de crédito. Ele já tinha quebrado uma vez e disse que não queria passar por aquilo de novo. É difícil: não dá para mudar 10 anos de hábitos ruins em 10 dias. Mas é preciso fazer sacrifícios e aprender a dizer não para se reerguer”, diz.
Profissionais da área financeira indicam que o processo de saída do endividamento deve começar com um levantamento completo. Esse diagnóstico financeiro consiste em mapear todas as dívidas existentes. Também identifica a renda disponível para quitá-las.
“Em seguida, é preciso classificar os débitos conforme a taxa de juros, priorizando os mais caros”, explica Pagliato, da Unicid.
Profissionais da área recomendam buscar apoio qualificado para determinar o momento adequado de negociar com as instituições financeiras. O processo de renegociação não acontece de forma imediata. Pode demandar várias tentativas.
“É preciso entender que a negociação envolve várias etapas. Às vezes, você vai oferecer uma quantia ao banco que ele não aceita, e será necessário voltar para casa e continuar juntando”, afirma Myrian Lund.
“O devedor precisa fazer o dever de casa. Não vai cair dinheiro do céu. É necessário fazer uma economia de guerra e tentar juntar o máximo possível para liquidar a dívida de uma vez”, completa.
*Os nomes das entrevistadas foram alterados a pedido delas.


