Jockey Club de SP é investigado por desvio de R$ 61,3 milhões destinados à preservação de áreas tombadas

Jockey I 03.11.25

Por: Magno José

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“O restauro é o símbolo da reestruturação”, diz diretor executivo do JCSP
Prefeitura identificou documentos duplicados usados tanto no programa municipal quanto na Lei Rouanet. DPH constatou que intervenções realizadas eram insuficientes em relação ao valor recebido (Foto: JCSP/Divulgação)

A Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo iniciou auditoria para investigar possíveis irregularidades na aplicação de R$ 61,3 milhões pelo Jockey Club. A investigação começou em 23 de outubro de 2025, após o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) rejeitar a prestação de contas do clube. Paralelamente, a Câmara Municipal instaurou uma CPI na semana passada para apurar o caso, revela reportagem do Estadão.

O DPH identificou gastos considerados incompatíveis com as regras do programa de Transferência do Direito de Construir (TDC), como serviços de ambulância para eventos de corridas (R$ 37,5 mil), aulas de origami (R$ 1.450) e compra de açúcar a preços elevados (R$ 2.394 por dez quilos). Segundo a Prefeitura, esses recursos deveriam ser destinados exclusivamente à preservação de áreas tombadas.

Durante vistoria em junho deste ano, o departamento constatou que as intervenções realizadas no clube eram insuficientes em comparação ao montante recebido. O pedido de auditoria foi formalizado em 14 de outubro.

Desde 2016, quando solicitou o subsídio municipal, o Jockey recebeu 127 mil m² de potencial construtivo. O programa TDC permite que proprietários de imóveis tombados vendam a construtoras o direito de construir prédios mais altos em outras áreas da cidade, gerando recursos para preservação do patrimônio.

Em maio de 2025, o clube solicitou novo subsídio via TDC, mas o DPH não concedeu o atestado necessário “em razão das obras de restauro serem parciais”. Em julho, o departamento solicitou prestação de contas detalhada, incluindo notas fiscais e especificação das despesas com restauro.

Caso a auditoria confirme irregularidades, o clube poderá ser multado e até obrigado a devolver integralmente os R$ 61 milhões aos cofres municipais.

O Jockey Club nega qualquer irregularidade e afirma que “todas as informações solicitadas (pela Prefeitura) já foram devidamente prestadas” e passaram por auditoria independente. Em nota, o clube declarou: “Os valores foram aplicados exclusivamente na preservação, conservação e manutenção das áreas tombadas ao longo de seis anos.”

A Prefeitura identificou que o Jockey Club utilizou as mesmas notas fiscais para prestar contas de dois programas diferentes: o municipal TDC e o federal Lei Rouanet. Em julho de 2025, o clube enviou mais de 10 mil páginas de comprovantes ao DPH, todos carimbados como serviços prestados via Lei Rouanet.

O Ministério da Cultura informou que o Jockey recebeu R$ 25,7 milhões pelo programa federal. Diferentemente do TDC, a Lei Rouanet permite que até 15% da verba seja destinada a despesas administrativas.

O DPH encontrou notas de gastos que, segundo a gestão municipal, não podem ser pagos com recursos do TDC, como despesas com restaurantes, bebidas alcoólicas, IPTU e viagens. Em comunicado à CGM, o departamento afirmou que os documentos “Além de não comprovarem a destinação dos recursos auferidos com a venda do potencial construtivo, sinalizam que as parcas obras executadas foram custeadas com recursos da Lei Rouanet”.

A prestação de contas foi assinada pelo escritório Carollo Arquitetura e Restauro, que afirma ter sido contratado em janeiro de 2025 apenas “para reunir as documentações que o Jockey e a Elysium (a empresa responsável pelo restauro) forneceram em relatório técnico”. A empresa declarou: “A Carollo não é responsável pela produção dos documentos. Apenas fizemos o trabalho de reunir as informações que nos foram passadas e protocolar junto ao órgão”.

A Elysium, responsável pelo restauro com recursos da Lei Rouanet, negou envolvimento com verbas municipais, afirmando que “A Elysium atua exclusiva e integralmente com recursos provenientes da Lei Rouanet. Os recursos mencionados como ‘TDC da Prefeitura’ não tiveram qualquer intermediação ou gestão por parte da Elysium”. A empresa acrescentou que “nunca apresentou quaisquer notas fiscais à Prefeitura, uma vez que a instância a que deve prestar contas é o Ministério da Cultura. Tampouco autorizou nem compactua, com qualquer apresentação de notas em duplicidade”.

Em agosto, o DPH solicitou documentos adicionais e advertiu “que eventual nova juntada de documentos impertinentes ao caso será interpretada como má-fé processual”. Em outubro, o Jockey enviou mais documentos, desta vez sem notas fiscais ou comprovantes de pagamento. As planilhas incluíam gastos gerais como folha de pagamento e contratação de serviços.

O DPH rejeitou a prestação de contas do Jockey e enviou os documentos para auditoria da CGM, que avaliará se houve descumprimento das regras de uso de recursos da TDC. O clube pode receber multa e ter de ressarcir o Município pelos R$ 61 milhões obtidos pelo programa.

“Até agora, o Jockey demonstrou tratar com chacota e descaso o Departamento do Patrimônio Histórico e o uso da Transferência do Direito de Construir (TDC), ao mandar esses documentos que não prestam contas do uso de R$ 61 milhões no restauro do bem tombado”, apontou o DPH ao Estadão.

Em nota, o Jockey Club diz que a CPI será uma oportunidade para dar “transparência às contas”. Acrescenta estar “à inteira disposição para apresentar todas as planilhas, notas fiscais, contratos e relações com fornecedores dos últimos anos, bem como relatar as diversas e infrutíferas tentativas de conciliação com o poder público municipal, fatos que aumentam a indignação da atual diretoria”.

Sobre os recursos da TDC, aponta que já enviou “o Relatório de Despesas de Manutenção e Preservação do Patrimônio (2019 a 2024) que apresenta os valores aplicados exclusivamente na preservação, conservação e manutenção das áreas tombadas”.

“Importante frisar que os gastos com pessoal técnico, insumos, serviços de limpeza, máquinas, equipamentos, reparos, monitoramento, dentre outros, são indispensáveis e indissociáveis para a preservação e conservação patrimonial, evitando danos estruturais e maiores custos de restauração futura”, acrescenta.

A relação entre o Jockey e a Prefeitura é marcada por disputas na Justiça. O Município afirma que o clube deve R$ 842.877.418,93 em impostos não pagos. Desse total, R$ 507 milhões são de IPTU, R$ 298 milhões de ISS e R$ 38 milhões de outros tributos, segundo a gestão municipal.

O Jockey contesta esses valores e questiona judicialmente a cobrança de IPTU sobre o terreno.

Desde 2023, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) tenta usar a dívida para desapropriar o terreno do Jockey e transformá-lo em parque. O projeto foi aprovado na Câmara Municipal naquele ano, sob a presidência de Milton Leite (União).

Em 2024, os vereadores aprovaram lei que proibia apostas com animais na capital, medida que afetava diretamente o Jockey. O Tribunal de Justiça de São Paulo considerou a ação inconstitucional e derrubou a legislação.

Segundo o Jockey, a CPI vai expor “a tentativa nefasta por parte do prefeito Ricardo Nunes e de sua base aliada, movida por interesses ainda obscuros e pela intensa especulação imobiliária, que tenta apagar a tradição equestre e cultural do local”.

 


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