Jogo Responsável e combate à ludopatia não são a mesma coisa

Ao anunciar que quem aderir ao Novo Desenrola Brasil ficará impedido de acessar plataformas de apostas online durante um ano, o Estado assume mais uma vez um papel paternalista: tratar o brasileiro adulto, identificado, bancarizado, capaz de contratar crédito, renegociar dívida e usar seu FGTS como alguém que precisa de autorização oficial para cuidar da própria vida.
É uma medida ampla, dura e discutível.
Mas ela revela algo importante.
Ao vincular endividamento, proteção social e acesso às bets, o governo está dizendo à sociedade que pretende proteger o cidadão das apostas.
Se o governo decidiu ocupar o território da proteção, é porque a indústria não o fez como deveria ter feito.
É claro que enfraquecer o mercado regulado vai empurrar jogadores para plataformas ilegais, onde não há KYC, PLD, rastreabilidade, limites ou qualquer mecanismo real de proteção.
Mas dado sozinho não vence percepção.
E hoje a percepção pública está pressionando o setor.
De um lado, um Estado tentando convencer o cidadão de que ele não sabe cuidar da própria vida. Do outro, uma indústria pujante, tecnológica e regulada, que não consegue demonstrar que proteger o consumidor está no cerne da sua operação.
Essa é a contradição, doa a quem doer.
O governo chama de proteção o que a indústria não conseguiu chamar de responsabilidade.
No debate sobre apostas, duas expressões aparecem frequentemente como se fossem a mesma coisa: Jogo Responsável e combate à ludopatia.
Não são.
Jogo Responsável é prevenção. É o desenho da experiência de jogo, as ferramentas de controle disponíveis ao usuário e a capacidade das plataformas de identificar sinais de risco antes que o problema escale.
Combate à ludopatia é tratamento. Pertence ao campo da saúde mental. Diagnóstico, acompanhamento clínico, encaminhamento especializado.
Quando esses conceitos são misturados, o debate inteiro se distorce. As ferramentas de prevenção, que poderiam reduzir o número de casos que chegam ao estágio clínico, ainda não são tratadas como infraestrutura essencial do negócio.
A ludopatia é séria e precisa ser tratada como tal. Mas é, por definição, uma resposta tardia. Ela entra em cena quando o problema já se instalou.
O operador não é terapeuta. Mas tem responsabilidade de monitorar comportamento, identificar padrões de risco e agir antes que o problema escale. Isso é Jogo Responsável.
O problema é que o debate público brasileiro não está acontecendo nesses termos.
O mercado regulado precisa demonstrar que sabe proteger o jogador de forma mais inteligente, mais proporcional e mais eficiente do que um bloqueio amplo atrelado a um programa de renegociação de dívidas.
Se o governo está oferecendo bloqueio, a indústria precisa oferecer prevenção.
Se o governo está dizendo “vamos proteger o cidadão das bets”, o mercado regulado precisa ser capaz de responder: “nós protegemos o jogador dentro das bets, com tecnologia, dados, responsabilidade e evidência”.
E isso só será possível se o Jogo Responsável deixar de ser tratado como comunicação institucional ou obrigação regulatória e passar a ser infraestrutura real de operação.
A indústria precisa, de forma coletiva e inequívoca, avançar na implementação de mecanismos reais de prevenção, monitoramento comportamental, registro de evidências e resposta operacional.
O Novo Desenrola não é apenas uma política de renegociação de dívidas.
É um aviso do que ainda pode vir pela frente.
A indústria precisa agir. Com tecnologia séria, processos reais e evidência concreta.
Mas precisa agir.
De boas intenções e políticas bem escritas, o mercado já está cheio.
E quem não provar cuidado será julgado pela ausência dele.
Doa a quem doer.
Thiago Iusim é fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, empresa brasileira de tecnologia que desenvolve infraestrutura de Trust & Protection para o mercado regulado de apostas, com monitoramento contínuo de comportamento, registro de evidências e suporte à diligência operacional dos operadores.


