Jogo Responsável e combate à ludopatia não são a mesma coisa

Opinião I 04.05.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Jogo Responsável e combate à ludopatia não são a mesma coisa
Artigo de Thiago Iusim destaca que quando esses conceitos são misturados, o debate inteiro se distorce. As ferramentas de prevenção, que poderiam reduzir o número de casos que chegam ao estágio clínico, ainda não são tratadas como infraestrutura essencial do negócio

Ao anunciar que quem aderir ao Novo Desenrola Brasil ficará impedido de acessar plataformas de apostas online durante um ano, o Estado assume mais uma vez um papel paternalista: tratar o brasileiro adulto, identificado, bancarizado, capaz de contratar crédito, renegociar dívida e usar seu FGTS como alguém que precisa de autorização oficial para cuidar da própria vida.

É uma medida ampla, dura e discutível.

Mas ela revela algo importante.

Ao vincular endividamento, proteção social e acesso às bets, o governo está dizendo à sociedade que pretende proteger o cidadão das apostas.

Se o governo decidiu ocupar o território da proteção, é porque a indústria não o fez como deveria ter feito.

É claro que enfraquecer o mercado regulado vai empurrar jogadores para plataformas ilegais, onde não há KYC, PLD, rastreabilidade, limites ou qualquer mecanismo real de proteção.

Mas dado sozinho não vence percepção.

E hoje a percepção pública está pressionando o setor.

De um lado, um Estado tentando convencer o cidadão de que ele não sabe cuidar da própria vida. Do outro, uma indústria pujante, tecnológica e regulada, que não consegue demonstrar que proteger o consumidor está no cerne da sua operação.

Essa é a contradição, doa a quem doer.

O governo chama de proteção o que a indústria não conseguiu chamar de responsabilidade.

No debate sobre apostas, duas expressões aparecem frequentemente como se fossem a mesma coisa: Jogo Responsável e combate à ludopatia.

Não são.

Jogo Responsável é prevenção. É o desenho da experiência de jogo, as ferramentas de controle disponíveis ao usuário e a capacidade das plataformas de identificar sinais de risco antes que o problema escale.

Combate à ludopatia é tratamento. Pertence ao campo da saúde mental. Diagnóstico, acompanhamento clínico, encaminhamento especializado.

Quando esses conceitos são misturados, o debate inteiro se distorce. As ferramentas de prevenção, que poderiam reduzir o número de casos que chegam ao estágio clínico, ainda não são tratadas como infraestrutura essencial do negócio.

A ludopatia é séria e precisa ser tratada como tal. Mas é, por definição, uma resposta tardia. Ela entra em cena quando o problema já se instalou.

O operador não é terapeuta. Mas tem responsabilidade de monitorar comportamento, identificar padrões de risco e agir antes que o problema escale. Isso é Jogo Responsável.

O problema é que o debate público brasileiro não está acontecendo nesses termos.

O mercado regulado precisa demonstrar que sabe proteger o jogador de forma mais inteligente, mais proporcional e mais eficiente do que um bloqueio amplo atrelado a um programa de renegociação de dívidas.

Se o governo está oferecendo bloqueio, a indústria precisa oferecer prevenção.

Se o governo está dizendo “vamos proteger o cidadão das bets”, o mercado regulado precisa ser capaz de responder: “nós protegemos o jogador dentro das bets, com tecnologia, dados, responsabilidade e evidência”.

E isso só será possível se o Jogo Responsável deixar de ser tratado como comunicação institucional ou obrigação regulatória e passar a ser infraestrutura real de operação.

A indústria precisa, de forma coletiva e inequívoca, avançar na implementação de mecanismos reais de prevenção, monitoramento comportamental, registro de evidências e resposta operacional.

O Novo Desenrola não é apenas uma política de renegociação de dívidas.

É um aviso do que ainda pode vir pela frente.

A indústria precisa agir. Com tecnologia séria, processos reais e evidência concreta.

Mas precisa agir.

De boas intenções e políticas bem escritas, o mercado já está cheio.

E quem não provar cuidado será julgado pela ausência dele.

Doa a quem doer.


Thiago Iusim: A verdade que a indústria precisa saber contar sobre os R$ 22 bilhões do Tigrinho 1Thiago Iusim é fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, empresa brasileira de tecnologia que desenvolve infraestrutura de Trust & Protection para o mercado regulado de apostas, com monitoramento contínuo de comportamento, registro de evidências e suporte à diligência operacional dos operadores.

 

Legitimuz - 728 x 90Legitimuz - 728 x 90 1
Comentar com o Facebook