Kalshi, da jovem bilionária Luana Lopes Lara, quer operar no Brasil

Apostas I 23.12.25

Por: Magno José

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Brasileira Luana Lara conquista título de bilionária mais jovem do mundo a construir fortuna própria
Em entrevista ao VALOR, Luana Lopes Lara, cofundadora da empresa de mercados preditivos, busca atrair bancos e gestoras para negociações: “Uma das primeiras coisas que anunciamos na nossa última rodada foi o plano de crescer internacionalmente. O Brasil é muito importante para mim; sendo brasileira, quero muito que a gente vá para lá” (Foto: Divulgação)

A Kalshi, companhia fundada por Luana Lopes Lara, mulher mais jovem do mundo a se tornar bilionária sem receber herança, quer operar no Brasil. Em entrevista ao Valor, a brasileira de 29 anos diz que a empresa de mercados preditivos, recentemente avaliada em US$ 11 bilhões na última rodada de captação, deve acelerar o crescimento internacional e tem no seu país natal um dos destinos preferidos, ainda que os planos estejam em fase inicial.

Valor: Como surgiu a ideia de criar a empresa?

Luana Lara: Trabalhamos no mercado financeiro por três anos — eu na Bridgewater e na Citadel; ele [o sócio e cofundador da Kalshi, Tarek Mansour], no Goldman Sachs e na Citadel. Percebemos que tudo o que as pessoas negociam no mercado reflete expectativas sobre eventos futuros, e elas tentam incorporá-los aos preços. Se alguém acreditava que o Brexit aconteceria, vendia libra, comprava ações europeias e montava um portfólio com essa lógica. Era uma tentativa de reproduzir o que poderia acontecer.

Valor: Isso não é o ideal?

Lara: Se você espera que algo se mova de determinada forma, tenta se posicionar, mas esse não é um método eficiente. Se começa uma guerra e ocorre um Brexit ao mesmo tempo, por exemplo, você não sabe exatamente como cada ativo vai reagir. Há variáveis influenciando cada instrumento, quando o que realmente importa é o evento em si. Nossa ideia era criar uma ‘exchange’, um mercado em que as pessoas pudessem comprar e vender diretamente o resultado do que vai acontecer, em vez de recorrer a proxies ou estruturas indiretas.

Valor: Houve uma batalha regulatória para a criação da empresa e há outras em andamento

Lara: Passamos por uma batalha extremamente difícil antes de sair do zero. Como viemos das finanças, sempre acreditamos que precisávamos fazer do jeito certo. A ideia era fazer tudo corretamente porque, no futuro, queríamos que instituições como Goldman Sachs e Bridgewater — lugares onde nós já tínhamos trabalhado — usassem esses mercados e esses produtos. Isso não seria possível se tivéssemos começado não regulados.

Valor: Como o governo recebeu a iniciativa?

Lara: O governo tinha questionamentos sobre tudo, mas conseguimos trabalhar com eles durante três anos para explicar por que estávamos fazendo aquilo e como era parecido com outros mercados que eles já monitoram. Em outros setores isso nem sempre acontece. Basta olhar para Uber e Airbnb, que seguiram muito a lógica do ‘faz primeiro e pede desculpa depois’. No setor financeiro isso não existe. Há dinheiro envolvido e você precisa estar certo desde o início. Foram três anos até o lançamento. Depois veio outra luta para o mercado de eleições. Conseguimos lançar vários produtos, mas foram mais de dois anos de batalha específica para esse mercado das eleições. Para isso, acabamos tendo que processar o governo. Foi uma decisão difícil, porque processar o próprio regulador é extremamente delicado: existe o risco de retaliação, de tudo andar mais devagar. Nesse ponto, EUA e Brasil não são tão diferentes.

Valor: Uma boa parte da receita da Kalshi, atualmente, vem de previsões sobre esportes — algo que não parece ter tanto a ver com o propósito inicial da empresa de pessoas fazerem ‘hedge’ para eventos. Como isso é diferente de apostar?

Lara: A maior questão do negócio de ‘hedging’ é que o esporte constitui uma indústria muito grande, com muitas pessoas e empresas expostas a riscos relevantes. Temos, inclusive, mais interesse em hedging para empresas ligadas ao esporte do que para outros setores. Por exemplo, há mercados sobre onde será a final da NBA. A partir disso, hotéis podem ter maior ou menor ocupação, dependendo do número de jogos — se a série termina em três, quatro, cinco ou sete partidas. Isso impacta diretamente o número de dias de demanda. Trata-se de uma indústria enorme, com vários riscos associados, que historicamente não teve acesso aos mesmos instrumentos de gestão de risco disponíveis em outros setores. Um agricultor, por exemplo, tem acesso a praticamente tudo de que precisa para se proteger. Já os setores de esporte e entretenimento não têm.

Um agricultor tem acesso a tudo que precisa para se proteger. Já esporte e entretenimento não têm”

Valor: Como o resultado de um jogo isolado encaixa nessa lógica?

Lara: Além do hedging, existe outro aspecto importante, chamado ‘price discovery’ ou ‘price basing’. A informação contida no preço de mercado é extremamente relevante. Mesmo que, hipoteticamente, uma eleição não tivesse impacto econômico direto, o simples fato de um candidato estar precificado a 65% ou 70% já transmite muita informação. O mercado é impactado pelas expectativas sobre vitória ou derrota, e isso se reflete nos preços. O mesmo vale para o esporte. Existem clubes que são empresas abertas, cujas ações são negociadas em bolsa, e seus preços são impactados pelo desempenho esportivo. Essa informação de preço é útil para muitas outras indústrias e empresas, muito além do evento esportivo em si. É exatamente aí que enxergamos a diferença entre ‘gaming’ e ‘não gaming’. Os elementos centrais são a informação, o hedge, o trading e a proteção contra riscos. Em jogos como pôquer ou máquinas caça-níqueis, nenhuma dessas características está presente.

Valor: Poder apostar em eventos que já são conhecidos por alguém — por exemplo, qual será a próxima capa da revista Time — não aumenta o risco de que pessoas com informações privilegiadas façam dinheiro às custas de outras?

Lara: Isso funciona de forma muito parecida com ‘insider trading’ no mercado de ações. Como somos regulados, temos várias obrigações. Primeiro, sabemos quem são todas as pessoas que operam nos nossos mercados, quem elas são, onde trabalham e informações desse tipo. Temos todos esses dados e não apenas o direito, mas o dever de investigar qualquer coisa que pareça errada. Temos toda uma área de compliance que consegue analisar e investigar esses casos de forma aprofundada. Se uma pessoa estiver manipulando o mercado ou fazendo algo ilegal, pode ser processada e presa nos EUA, da mesma forma que acontece no mercado de ações.

Valor: Acha que isso é suficiente?

Lara: Isso obviamente não significa que nunca haverá nada de errado. Assim como no mercado de ações, coisas erradas podem acontecer também. A grande diferença é que, por sermos regulados, temos mecanismos para investigar, interromper e punir esse tipo de conduta. Na prática, se você observar os casos de ‘insider trading’ em mercados preditivos, verá que todos eles aconteceram na Polymarket, que é um concorrente offshore. Nessas plataformas offshore não há KYC [regra para que empresas financeiras saibam quem são seus clientes], não se sabe quem está negociando, uma mesma pessoa pode usar várias carteiras, e não há como punir esse comportamento.

Valor: Há registros de insider trading na Kalshi?

Lara: Não há registros desse tipo de caso em mercados regulados nos EUA, como a Kalshi. Além disso, todas as negociações realizadas na Kalshi são reportadas ao governo. As autoridades, de forma independente, analisam os dados para garantir que estamos cumprindo nosso papel corretamente e para identificar possíveis irregularidades.

Valor: A Kalshi acabou de captar US$ 1 bilhão. Quais são as prioridades da empresa neste momento?

Lara: A empresa está só começando. Uma das primeiras coisas que anunciamos na nossa última rodada foi o plano de crescer internacionalmente. O Brasil é muito importante para mim; sendo brasileira, quero muito que a gente vá para lá. Ainda não temos nada para anunciar, mas esperamos que, no início do ano que vem, consigamos divulgar alguma novidade e começar a operar no Brasil. Também queremos crescer em vários outros países. Assim como acontece com a CME [Chicago Mercantile Exchange], em que você pode, no Brasil, comprar e vender seus produtos, achamos que deveríamos fazer algo parecido em escala internacional. É isso que queremos construir. Além disso, queremos começar a desenvolver cada vez mais outras estruturas, como margem e alavancagem, mas isso é mais para o futuro. Nos ajudaria a avançar para um perfil de trading institucional.

Valor: Como vislumbra a entrada no mercado brasileiro?

Lara: Não temos nada definido e começamos a olhar agora para como isso poderia ser feito. Não existe nada parecido com a Kalshi no Brasil. Ou existem casas de apostas, ou existem mercados de derivativos, que é exatamente o que havia nos EUA antes da Kalshi existir. Não sabemos exatamente e estamos começando agora a analisar como o sistema funciona. Vamos tentar encontrar uma forma de levar o produto para o Brasil, mantendo o nosso modelo de funcionamento, que é o mercado em si. Podemos aproveitar muito do que aprendemos e do que estamos fazendo nos EUA para a expansão internacional. Mas, ainda preciso conversar com os nossos advogados que estão analisando questões internacionais. Não há nada formalizado.

Valor: Como tem sido o uso dos institucionais na Kalshi?

Lara: Já ocorre bastante. Do lado de ‘market making’, há fundos muito grandes, como o Susquehanna e o Jump Trading, que estão entre os maiores provedores de liquidez do mercado. Do outro lado, há muitos fundos, family offices e empresas que vêm comprar esses contratos como forma de hedge. Temos, inclusive, um tipo de operação chamado ‘request for quote’ em que as pessoas podem negociar diretamente com um provedor de liquidez, porque se trata de volumes muito maiores. Se você quer comprar, por exemplo, US$ 10 milhões, precisa negociar um preço, o que é muito comum nos EUA e no ambiente institucional. Isso já existe na nossa plataforma e tem sido bastante utilizado.

Valor: Há exemplos concretos?

Lara: Há alguns exemplos públicos. Teve uma reportagem que mencionou a Underdog, uma empresa de ‘fantasy sports’ daqui. Eles próprios disseram que estão usando os nossos mercados para fazer hedge da exposição dos produtos que oferecem. Outro exemplo é a Arrived, uma empresa do setor de hipotecas, que também usa os nossos mercados para se proteger contra o risco de ‘shutdown’ do governo. Eles compraram, se não me engano, mais de US$ 1 milhão em um desses mercados, funcionando praticamente como um seguro.

Valor: Há planos de abrir o capital da Kalshi?

Lara: Abrir capital é importante, mas não agora. Não sabemos quando. Neste momento, estamos completamente focados em construir o melhor produto possível, crescer o máximo que der, crescer internacionalmente, crescer nos EUA, lançar mais produtos e expandir em todas as frentes.

Valor: A estratégia de trazer Donald Trump Jr. para ser conselheiro estratégico da Kalshi está relacionada ao risco regulatório?

Lara: A Kalshi é uma empresa muito regulada. Além disso, por operar mercados de eleições e política, estamos envolvidos com o ambiente institucional e precisamos do apoio de diferentes instâncias do governo — Congresso, Senado e Casa Branca. Isso faz parte da própria natureza regulatória da empresa. Precisamos de ajuda para navegar em Washington: entender como funcionam o Senado e o Congresso, quais são as diferenças entre eles e como explicar corretamente o que estamos fazendo para ambos os lados. Temos vários conselheiros dos dois espectros políticos e buscamos escolher os melhores para nos ajudar.

Valor: Não há riscos para o negócio em trazer uma pessoa tão associada a um partido?

Lara: A gente é próximo de vários políticos dos dois lados do espectro. Ele não está na administração, então a gente não o vê como um político, mas somos muito próximos de vários políticos dos dois lados, do Senado, do Congresso e da Casa Branca, além de governos estaduais.

 

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