Mercado ilegal tem 355 domínios de bets para cada plataforma autorizada no Brasil

Desde o início do mercado regulado de apostas, o Brasil teve pelo menos 355 domínios de bets ilegais para cada domínio de empresa autorizada pelo Ministério da Fazenda. Ao todo, são 187 domínios de empresas autorizadas diante de uma oferta clandestina que ajuda a dimensionar o tamanho do mercado ilegal de apostas no país.
Os dados da indústria clandestina constam de um levantamento inédito feito pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), entidade que reúne operadores regulados. De acordo com o estudo, 66.482 domínios sem autorização foram bloqueados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) entre janeiro de 2025 e este mês. Estimativa da associação baseada em um relatório de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, aponta que cerca de 11,8 mil desses endereços podem continuar acessíveis. Ou seja, 17,7% do total bloqueado.
Na prática, são sites que operam sem controle ou fiscalização do poder público e sem o pagamento dos tributos previstos para o setor regulado. São plataformas também que recorrem à publicidade ostensiva para atrair apostadores, principalmente entre públicos vulneráveis, como crianças e adolescentes.
Para o presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, a adoção de medidas mais restritivas para o setor pode ampliar ainda mais a participação do mercado ilegal. “Os alertas já foram dados por entidades credenciadas, economistas, autoridades e até por ministro do STF. Esperamos que as decisões levem em consideração avaliações técnicas, porque o site ilegal não vai sumir com uma medida provisória. Pelo contrário, será o melhor ambiente para atuação dessas empresas”, afirmou.
Mercado ilegal pode chegar a 82%
Nos cenários simulados pela ANJL, para uma eventual proibição dos cassinos on-line, a participação do mercado sem autorização passaria de cerca de 41% para entre 78% e 82% das apostas. Nessa hipótese, entre R$ 8,2 bilhões e R$ 19,1 bilhões por ano poderiam migrar para a oferta ilegal.
A arrecadação de tributos também sofreria impacto, com uma perda estimada entre R$ 3,6 bilhões e R$ 7,4 bilhões por ano, além dos R$ 7,2 bilhões a R$ 10,8 bilhões que, segundo o levantamento, o mercado não autorizado já deixa de recolher.
Outro efeito apontado pela ANJL seria a redução das proteções disponíveis aos apostadores no mercado regulado. Atualmente, 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) estão impedidos de realizar apostas, enquanto mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão já foram registrados. No mercado ilegal, essas medidas de proteção não são obrigatórias.
Plataformas continuam surgindo
O monitoramento realizado pela ANJL, que integra o relatório, registrou 6.409 domínios sem autorização funcionando normalmente entre 11 e 18 de setembro de 2026. O documento aponta ainda que, entre junho e agosto de 2026, foram registrados pelo menos 13,7 novos domínios por dia. Nos canais de mensagens monitorados, surgiram ao menos 5 novos sites diariamente no mesmo período.
A troca constante de endereços também dificulta o bloqueio das plataformas. Segundo o levantamento, foram documentados 1.682 casos em que uma marca deixou de operar em determinado endereço e reapareceu em outro. “Os números indicam que o bloqueio de domínios, embora reduza o acesso a parte das plataformas, não elimina a oferta ilegal. Na prática, os operadores podem recorrer à criação de novos endereços e à migração de suas marcas para outros domínios. “É a lógica do mercado clandestino e como ele está operando no Brasil”, afirmou Lemos Jorge.


