Mercados de predição e o recente estudo do FED

Apostas I 03.03.26

Por: Magno José

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Eric Hadmann Jasper*

Recentemente (fevereiro de 2026), o Banco Central dos Estados Unidos (“FED”) publicou um estudo denominado “Kalshi and the Rise of Macro Markets” (“Estudo”), no âmbito da Finance and Economics Discussion Series (“FEDS”)[1]. A Kalshi é a primeira plataforma de negociação de eventos futuros no mundo real (mercado de predição) regulada nos Estados Unidos, especificamente pela Commodity Futures Trading Commission. A Kalshi concorre, principalmente, com a Polymarket, não regulada pelas autoridades norte-americanas (opera via protocolos descentralizados e criptoativos), mas também com Robinhood, Predictit e ForecastEx.

A leitura desse importante texto ajuda a entender, entre outros, a estrutura desse novo mercado. De acordo com o Estudo, “[a] Kalshi estrutura seus contratos financeiros e macroeconômicos como uma série de opções binárias que pagam USD 1,00 se o resultado realizado exceder um valor de referência (strike) especificado.”[2]

Trocando em miúdos, na Kalshi (e em outros agentes do mercado preditivo) o cliente não negocia ações e derivativos de empresas, mas a probabilidade de eventos futuros no mundo “real”. São opções binárias porque só existem dois resultados possíveis no vencimento do contrato (0 ou 1). Se o evento acontece, o contrato vale USD 1,00, se o evento não acontece, o contrato vale USD 0,00. A plataforma negocia contratos em valores entre USD 0,01 e 0,99, assim se um contrato para “o FED vai aumentar os juros em X% em maio” está custando USD 0,65, significa que o mercado está sinalizando que há 65% de chance de o evento ocorrer. Se o cliente comprar o contrato a USD 0,65 e o evento ocorrer, ele receberá USD 1,00 (e terá USD 0,35 de lucro). Se o evento não ocorrer, ele perderá USD 0,65. O “pulo do gato” do Estudo é que, ao oferecer vários contratos com “strikes” diferentes (i.e., o FED vai aumentar em X% em maio; o FED vai aumentar em Y% em maio e etc), a Kalshi permite que economistas calculem a função de probabilidade de o FED aumentar os juros entre X e Y% em maio.

O Estudo buscou comparar a Kalshi (como proxy de outros mercados preditivos) com as ferramentas de previsão atualmente utilizadas pelo FED. De acordo com o Estudo, as ferramentas atualmente utilizadas para fazer previsões de indicadores econômicos são (1) previsões baseadas em pesquisa de opinião (survey-based forecasts) que tem vantagem de não dependerem de modelos econômicos complexos e não refletirem prêmio de risco, uma vez que os entrevistados não sofrem consequências econômicas de suas previsões. Apesar de serem razoavelmente precisas, em média, são infrequentes e, portanto, não refletem informações em tempo real.

Além das previsões baseadas em pesquisas de opinião (e.g., Survey of Market Expectations, Bloomberg Consensus e Blue Chip Economic Indicators), o Estudo cita (2) as previsões baseadas no mercado (market-based forecasts), como as SOFR Options (derivativos que dão ao investidor o direito de comprar/vender contratos futuros atrelados à Secured Overnight Financing Rate, que substituiu a Libor e é baseada em transações de recompra de títulos do tesouro americano), os Federal Funds Futures (derivativos negociados na Bolsa de Chicago de certa forma similares aos SOFR, mas lastreados na Effective Federal Funds Rate) e CPI Fixings (derivativos lastreados no consumer price index, índice de preços ao consumidor).

As limitações das previsões baseadas no mercado ilustram muito bem algumas qualidades dos mercados de predição. As SOFR Options têm (i) baixa liquidez (embora os SOFR tenham bom volume de negociação, os derivativos deles têm um volume de negociação muito menor); e (ii) descompasso temporal, pois se baseiam em médias de taxas de curto prazo (mensais ou trimestrais). Quanto aos Federal Funds Futures, a crítica é de que eles oferecem apenas uma previsão da “taxa média” para o mês, não mostram a distribuição completa de possíveis resultados (a probabilidade de diferentes cenários), a menos que se assuma cenários binários simplistas. Por fim, quanto aos CPI Fixings, a crítica é de que são instrumentos institucionais e, portanto, não dão acesso ao investidor de varejo e tem foco em hedge, o que pode distorcer o seu valor preditivo.

Diante das limitações acima descritas, o Estudo defende que os chamados “mercados preditivos”, como a Kalshi e concorrentes, são superiores para prever decisões do FED porque (i) permitem criar funções de densidade de probabilidade (probability density function, ou seja, uma ferramenta matemática que descreve probabilidade de uma variável contínua) de risco neutro para reuniões específicas; e (ii) evitam o “ruído” do SOFR, que está muito afastado da decisão real de juros devido ao risco de base e aos horizontes temporais diferentes.

O Estudo entra em detalhes que um texto curto como o presente não permite analisar. Contudo, vale reverberar as suas conclusões. Primeiro, o estudo afirma que a Kalshi é “[…] uma fonte de dados de expectativas inédita, de alta frequência e rica em termos de distribuição.”

Ainda seria “[…] comparável, em precisão de previsão, a referências estabelecidas, como a Survey of Market Expectations e a Bloomberg Concensus. Em diversos casos, eles fornecem insights únicos — particularmente para variáveis como o crescimento do PIB, a inflação, e o desemprego, para as quais não existem atualmente outras distribuições baseadas em mercado.”

A Kalshi teria outras vantagens: (i) maior precisão e dados contínuos: ao contrário das pesquisas que são feitas de tempos em tempos, a Kalshi oferece uma curva de probabilidade completa e atualizada em tempo real; (ii) detalhamento de riscos: a Kalshi permite enxergar “além da média”, capturando riscos extremos (riscos de cauda) e mudanças na percepção do mercado; e (iii) perspectiva do varejo: como é aberta a pequenos investidores (varejo) e não apenas a grandes bancos, ela traz uma visão diferente da formação de expectativas, servindo como um contrapeso aos mercados puramente institucionais.

O estudo trata a Kalshi, portanto, como importante complemento às ferramentas atuais e, à medida que os mercados de predição amadurecem e aumentam em liquidez, o potencial preditivo também aumenta.

Os desafios regulatórios e a implementação prática dos mercados preditivos no cenário brasileiro serão objeto de análise em artigo futuro. Contudo, não se pode ignorar as recentes discussões sobre os riscos de insider trading nesse ecossistema, nem o acelerado avanço desses mercados no segmento esportivo. Observa-se, neste campo, uma interessantíssima zona de intersecção e crescente competição entre as tradicionais apostas de quota fixa e os mercados de predição. Essa convergência desafia as fronteiras desses mercados, exigindo uma arquitetura jurídica sofisticada que seja capaz de acomodar essa nova dinâmica de mercado sem comprometer a integridade do sistema.

(*) Eric Hadmann Jasper é sócio de HD Advogados e Diretor do GAME no IDP.

[1] Importante destacar que estudos publicados no FEDS não são posições oficiais do FED, mas trabalhos publicados para discussão e que contam com a contribuição de pesquisadores vinculados ao FED.

[2] Vide página 12 do Estudo.

 

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