Mercados de previsão disputam US$ 8 bi com casas tradicionais de apostas nos EUA

Apostas I 16.02.26

Por: Magno José

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Tribunais americanos decidirão se mercados de previsão são derivativos federais ou jogos de azar
Plataformas como Kalshi e Polymarket enfrentam empresas estabelecidas em batalha judicial sobre regulamentação, com pelo menos 20 ações federais abertas em sete estados americanos

Plataformas como Kalshi e Polymarket enfrentam empresas estabelecidas como FanDuel, DraftKings e MGM em uma batalha judicial sobre a definição e regulamentação das apostas esportivas nos Estados Unidos. A disputa, revelada em relatório na quinta-feira (13/02), envolve um mercado estimado em US$ 8 bilhões anuais que os mercados de previsão estariam desviando das casas tradicionais.

A controvérsia se intensificou após a decisão da Suprema Corte em 2018, que eliminou a proibição federal ao jogo e transferiu para cada Estado a responsabilidade de legalizar ou não as apostas esportivas. Conforme reportagem da Fortune, até o momento, 39 estados e Washington, D.C. aprovaram essa modalidade.

Pelo menos 20 ações federais foram abertas contra plataformas de mercados de previsão em mais de sete Estados americanos. Entre os processos recentes está uma ação coletiva protocolada na semana passada contra a Polymarket por um usuário em Nova York.

Na segunda-feira (2/02), a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, emitiu um alerta aos consumidores. “Muitos operam como jogo não regulamentado”, afirmou sobre os mercados de previsão, desaconselhando seu uso para apostas no Super Bowl.

A American Gaming Association (AGA) também se posicionou contra essas plataformas, classificando-as como “indistinguíveis das apostas esportivas legais” em carta enviada ao Congresso. A entidade desenvolveu uma calculadora que, segundo seus cálculos, mostra que os estados deixaram de arrecadar mais de US$ 400 milhões em impostos devido às apostas realizadas em mercados de previsão.

A principal diferença entre os dois modelos está no órgão regulador. Enquanto as plataformas de previsão são supervisionadas pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão federal que fiscaliza o mercado de derivativos, as casas de apostas tradicionais estão sob jurisdição das comissões estaduais de jogos.

Sean Maloney, ex-deputado democrata e atual líder da Coalition for Prediction Markets, defende o modelo federal: “Há um século de regulação federal pela CFTC, que é muito sólida e confiável”. Michael S. Selig, presidente da CFTC, declarou no mês passado que a agência “tem a expertise e a responsabilidade de defender sua jurisdição exclusiva” sobre contratos baseados em eventos.

Os reguladores estaduais já obtiveram algumas vitórias significativas. Em novembro de 2025, um juiz federal em Nevada proibiu a Kalshi de oferecer contratos esportivos no estado, argumentando que a interpretação da empresa “desorganiza décadas de federalismo na regulação do jogo”. O processo está temporariamente suspenso enquanto o recurso da Kalshi é analisado pela Corte de Apelações do 9º Circuito.

Em janeiro de 2026, o regulador de jogos do Estado de Nevada também conseguiu uma ordem temporária contra a Polymarket. No mesmo mês, a procuradora-geral de Massachusetts, Andrea Joy Campbell, obteve uma liminar contra a Kalshi, afirmando que a empresa “deve jogar segundo nossas regras — sem exceções” se quiser oferecer apostas esportivas no estado.

Para a Kalshi, perder o segmento de apostas esportivas representaria um golpe severo. Dados da própria empresa mostram que US$ 12,5 bilhões de seu volume total negociado vêm de contratos ligados a esportes, contra US$ 4,7 bilhões somando todas as outras categorias. Aproximadamente 90% das taxas de transação arrecadadas pela empresa têm origem em eventos esportivos.

Em novembro, a Kalshi alertou que interromper seus mercados de previsão esportiva apenas em Massachusetts exigiria a liquidação de US$ 650 milhões em contratos derivativos em aberto.

As grandes operadoras de apostas estão se posicionando em ambos os segmentos do mercado. A Fanatics foi a primeira a lançar um mercado próprio, o Fanatics Markets, no início de dezembro. Em comunicado, a empresa declarou: “Embora respeitemos o trabalho que a AGA faz pelo mercado regulado de jogos, temos uma divergência de opinião sobre o que isso significa quando se trata de mercados de previsão”.

A DraftKings não ficou muito atrás e lançou o DraftKings Predictions em 38 Estados. Jason Robins, cofundador e CEO da empresa, explicou a estratégia: “Não queremos ficar para trás. Não ficamos satisfeitos se não estivermos fazendo um trabalho melhor que nossos concorrentes e ganhando mais participação de mercado.” Sobre a saída da AGA, ele mencionou uma “falta de alinhamento” em relação aos mercados de previsão.

A disputa tem gerado declarações contundentes de ambos os lados. O CEO da Polymarket, Shayne Coplan, chamou as casas de apostas reguladas de “golpe”. Em resposta, Robins da DraftKings declarou: “Sempre preferimos que as pessoas sigam o caminho mais elevado e não falem mal de nós, mas faço isso há muito tempo, e isso faz parte do jogo”.

Para fortalecer sua posição, a Kalshi nomeou Donald Trump Jr. como conselheiro estratégico no início do ano passado e anunciou, na quinta-feira (5/02), novos mecanismos de controle contra práticas como uso de informação privilegiada e manipulação de mercado.

Chad Beynon, analista sênior do Macquarie Group, considera que a ameaça dos mercados de previsão às casas de apostas tradicionais é superestimada. “O produto é inferior”, afirmou, observando que os apostadores não podem fazer parlays (apostas combinadas) nem apostas ao vivo — recursos que se tornaram os mais populares nas apostas esportivas tradicionais e que respondem por cerca de 30% de todas as apostas feitas.

O cenário político poderá determinar o futuro desse mercado. Segundo Beynon, “Essas empresas de apostas querem ser rápidas, querem ser ativas e querem obter retorno sobre o que estão investindo agora, sabendo que isso pode desaparecer em 2028”.

 

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