Midterms dos EUA: Mercados de previsão movimentam R$ 8,13 bi e testam credibilidade

Apostas I 05.11.26

Por: Magno José

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Midterms dos EUA: Mercados de previsão movimentam R$ 8,13 bi e testam credibilidade
Kalshi e Polymarket, que cravaram vitória de Trump em 2024, acumulam apostas bilionárias e enfrentam escrutínio após erros em outras eleições

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as midterms, se tornam nesta quarta-feira (4/11) um teste de credibilidade para o setor de mercados de previsão. Kalshi e Polymarket, as duas maiores plataformas do segmento, acumulam juntas mais de US$ 1,48 bilhão (R$ 8,13 bilhões) em apostas ligadas às disputas do Congresso americano.

A relevância do momento vai além do volume financeiro. As plataformas conquistaram visibilidade global em 2024 ao apontar a vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA antes das pesquisas tradicionais, se posicionando desde então como referência para veículos de comunicação e investidores. Agora, qualquer resultado muito distante do que projetam pode abalar a reputação do setor, segundo analistas.

Na terça-feira (3/11), os dados consolidados pela empresa de análise BetInt indicavam 94% de chance de os democratas conquistarem a maioria na Câmara dos Deputados e 75% de probabilidade de ficarem com o Senado.

Disputas concentram apostas

Mais de 28 mil mercados foram abertos para as midterms de 2026, mas o grosso do dinheiro está concentrado em poucas corridas. As eleições para o Senado no Texas, Michigan, Maine e Carolina do Sul lideram o volume apostado, de acordo com a Anti-Corruption Data Collective (ACDC), organização sem fins lucrativos de Washington.

No Texas, a disputa entre o democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton por uma vaga no Senado já movimentou mais de US$ 60 milhões, segundo a ACDC. Os mercados apontavam, nesta terça-feira, 71% de chance de vitória de Talarico, conforme a BetInt. Em Michigan, mais de US$ 20 milhões foram apostados na corrida ao Senado, com 78% de probabilidade de o democrata Abdul El-Sayed derrotar o republicano Mike Rogers, segundo a mesma empresa de análise.

A Kalshi informou na segunda-feira (2/11) que já havia movimentado US$ 1,33 bilhão em apostas nas midterms. Na Polymarket, o volume chegava a cerca de US$ 145 milhões, de acordo com a ACDC. Somados, os valores superam os US$ 221 milhões registrados em toda a disputa presidencial de 2024, o que ilustra a expansão do setor.

Pressão sobre a confiabilidade

Apesar do crescimento, as plataformas acumulam erros de grande repercussão. Nas primárias dos EUA, apostadores previram erroneamente o resultado em disputas como a de Los Angeles. Na eleição presidencial brasileira, Kalshi e Polymarket chegaram a atribuir apenas 20% de chance de vitória a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), resultado que se confirmou em 25 de outubro.

Joshua Clinton, professor de ciência política da Universidade de Vanderbilt que liderou um estudo sobre o tema, avalia que os apostadores podem ter superestimado as chances de Flávio Bolsonaro ao tentar compensar um viés observado em outras eleições; pesquisas que subestimaram candidatos de direita. Mesmo assim, Clinton ressalta que até os operadores mais experientes estão sujeitos a erros.

A pesquisa da Universidade de Vanderbilt, publicada em 2025, analisou quase 2.500 mercados ligados às eleições de 2024 e concluiu que as probabilidades apresentadas eram, em geral, bem calibradas. Uma publicação na Proceedings of the National Academy of Sciences chegou a conclusão semelhante sobre o histórico do setor. A calibração, porém, não equivale a acertar o vencedor; ela mede se as probabilidades correspondem ao que ocorre na prática, sem garantir precisão nas disputas acirradas.

Harry Crane, professor de estatística da Universidade Rutgers, explica que um pequeno grupo de apostadores experientes concentra boa parte do dinheiro nesses mercados. Eles usam pesquisas de opinião e outros dados para orientar as apostas e, com isso, ajudam a corrigir os preços.

Questionamentos e controles

As plataformas também enfrentam suspeitas de manipulação. Candidatos chegaram a apostar nas próprias disputas, e um levantamento da ACDC mostrou que apostas relativamente pequenas podem influenciar as probabilidades nesses mercados. Para tentar conter irregularidades, a Kalshi proíbe políticos e integrantes de campanhas de fazer apostas eleitorais. Ambas as empresas afirmam que os mercados se ajustam rapidamente quando movimentações de grande valor alteram as probabilidades.

“A terça-feira representa, de fato, um verdadeiro teste para a nova onda de mercados de previsão”, afirmou Yesha Yadav, reitora associada da Faculdade de Direito da Universidade de Vanderbilt. Para ela, as disputas pelo Congresso americano neste ano ajudarão a medir o desempenho geral do setor.

Sean Patrick Maloney, presidente-executivo da Coalizão para Mercados de Previsão, reconhece as limitações do modelo, mas defende que, “em um mundo cheio de caos e fontes de notícias tendenciosas”, essas plataformas oferecem uma maneira imparcial de prever eventos. Porta-vozes das empresas reforçam que uma chance de 20% não torna um resultado impossível; eventos com essa probabilidade acontecem com frequência. “Mas não devem ser confundidos com certeza”, completaram.

 


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