No Roda Viva, Hermano Tavares explica o aumento da patologia, a mudança no perfil dos apostadores ao longo dos anos e os avanços na regulação das bets

Apostas, Jogo Responsável I 28.07.26

Por: Magno José

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Especialista aponta otimismo com medidas adotadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas – SPA MF, mas alerta: é preciso ir além (Foto: Nadja Kouchi/ Acervo TV Cultura)

O crescimento explosivo das apostas online no Brasil tem mobilizado não apenas o sistema de saúde, mas também o poder público. Em entrevista ao Roda Viva da TV Cultura, o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, trouxe um olhar que, embora preocupado com a gravidade do fenômeno — que ele classifica como um “tsunami” —, também reconhece avanços concretos na regulação do setor.

A declaração foi feita na segunda-feira (27) durante entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura.

Diálogo inédito entre saúde e regulação

Um dos pontos mais destacados pelo especialista foi a postura proativa da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Tavares revelou que, pela primeira vez, o órgão regulador procurou a área da saúde antes mesmo do Ministério da Saúde, buscando construir soluções em conjunto.

“Quem nos chamou primeiro não foi o Ministério da Saúde. Quem nos chamou primeiro foi o Ministério da Fazenda através da pessoa do secretário da Secretaria de Prêmios e Apostas. E aí nós começamos a ter uma discussão, uma interlocução sobre quais seriam as primeiras medidas para tentar segurar a situação.”

Esse diálogo, segundo Tavares, abriu caminho para medidas concretas e baseadas em evidências científicas.

Autoexclusão: quase 800 mil brasileiros já aderiram

A principal conquista desse esforço conjunto foi a criação do sistema de autoexclusão no site do Ministério da Fazenda. A ferramenta permite que qualquer cidadão cadastre seu CPF e solicite o bloqueio de apostas nas plataformas regulamentadas.

“Nós levamos a eles a proposta da autoexclusão. Já são quase 800.000 brasileiros que entraram no site do Ministério da Fazenda e pediram a autoexclusão.”

O número expressivo indica não apenas a adesão da população, mas também a eficácia de um mecanismo que antes era controlado pelas próprias casas de apostas — o que Tavares comparava a “deixar a raposa cuidar do galinheiro”. Agora, com a gestão centralizada pelo governo federal, a medida ganhou credibilidade e alcance.

Autoavaliação: triagem com respaldo científico

Outro avanço citado com entusiasmo pelo psiquiatra foi a incorporação de um questionário de autoavaliação no mesmo ambiente digital. Desenvolvido a partir de pesquisas populacionais realizadas em parceria com a Caixa Econômica Federal, o teste é composto por três perguntas que identificam com alta precisão o apostador em risco.

“Essas três perguntas não são tiradas assim do alto da nossa cabeça. É fruto de pesquisa populacional para descobrir quais eram as perguntas que poderiam identificar mais fácil e rapidamente quem é o apostador em risco.”

Se o usuário responder “sim” a pelo menos uma das perguntas — sobre perda de controle, tentativa de recuperar perdas ou conflito com valores pessoais —, a chance de estar no espectro do jogo problemático ultrapassa 90%. O sistema então o direciona para tratamento online, atualmente oferecido em parceria com o Hospital Sírio-Libanês.

O que ainda precisa avançar

Apesar dos avanços, Tavares foi enfático ao afirmar que o trabalho está longe de terminar. Ele defende a criação de um limite máximo de apostas atrelado à renda do apostador — algo em torno de 1% da renda mensal por dia, até quatro vezes ao mês —, além do cruzamento de dados entre o valor apostado e a declaração de renda, como forma de identificar tanto lavagem de dinheiro quanto quadros graves de dependência.

O especialista também cobra a capilarização do tratamento na rede pública. Atualmente, o ambulatório que coordena no Hospital das Clínicas atende cerca de 120 casos novos por ano, mas a demanda supera 600 pedidos. Tavares defende que os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) sejam preparados para lidar com o transtorno do jogo, ampliando o acesso em todo o país.

“Me chame de otimista”

Ao ser questionada sobre o futuro, a avaliação de Tavares foi surpreendentemente positiva para quem lida diariamente com as consequências devastadoras do vício:

“Me chame de otimista, mas eu acho que alguma coisa começou a ser feita, precisa fazer mais.”

Ele destacou ainda que a questão das apostas tem conseguido unir pessoas de diferentes espectros ideológicos, o que considera um sinal de que o tema está acima de disputas partidárias e pode avançar com apoio transversal no Congresso Nacional.

“Se eu vejo de fato pessoas, tanto à esquerda quanto à direita, que estão verdadeiramente preocupadas com isso, decididas a se unir em função de uma ação efetiva.”

Brasil vive “pandemia”, afirma especialista da USP

O psiquiatra afirmou que o Brasil atravessa uma pandemia de vício em apostas. Tavares fundou o ambulatório em 1998, quando o país ainda registrava o que ele chama de “primeira onda” do problema, ligada à proliferação de bingos e caça-níqueis. O cenário atual, impulsionado pelas apostas esportivas digitais e pela exposição publicitária massiva, representa, segundo ele, uma segunda onda de proporções muito maiores. “Nós estamos no meio do tsunami”, afirmou.

Tavares explica a mudança no perfil dos apostadores ao longo dos anos

O psiquiatra apresentou dados do próprio ambulatório para ilustrar a transformação do perfil dos pacientes ao longo das décadas. Nos anos 1990, a faixa etária predominante ficava entre 45 e 47 anos. Com a popularização das plataformas digitais de apostas, a média caiu para indivíduos em torno de 30 anos ou menos. “Nos anos 90, era um ou outro paciente muito sofisticado que fazia apostas online. Hoje, eles são 65% da demanda que a gente recebe”, disse Tavares.

A acessibilidade pelos smartphones foi apontada pelo psiquiatra como o principal fator dessa mudança. Ele explicou que o apostador não precisa mais se deslocar; pode apostar no quarto, no trabalho ou “em uma pausa rápida no banheiro”, pois o cassino está “a dois cliques de distância ou à distância do braço até o bolso da calça”. Essa facilidade expõe diretamente um número maior de pessoas vulneráveis e sobrecarrega a busca por tratamento médico e psiquiátrico.

Dado que o especialista contestou

Tavares questionou o conceito de “jogo responsável”, comparando-o ao aviso “beba com moderação” das campanhas de bebidas alcoólicas. Para ele, o mecanismo é o mesmo; delega ao consumidor a responsabilidade pelos danos, eximindo quem promove ou vende o produto.

O psiquiatra explicou que apostar ativa o sistema nervoso central por um mecanismo psicológico semelhante ao do álcool, tabaco ou outras drogas. Por isso, apostas não são “um produto ordinário”; o próprio ato de apostar gera vontade de apostar mais. A expressão “jogo responsável” é, nesse enquadramento, um oxímoro. “Quer ser responsável? Não aposte. Quer ser menos irresponsável? Aposte pouco”, afirmou.

Ao tratar do tema, Tavares foi cuidadoso em distinguir suas posições. Apresentou-se em três papéis; o indivíduo que pessoalmente nunca teve apreço por apostas; o médico que, por solidariedade aos pacientes, não faz apostas há mais de 30 anos; e o técnico-cientista, que não advoga nem pela proibição nem pela liberalização irrestrita, mas pela necessidade de um debate público amplo que permita à sociedade definir os limites que deseja impor à atividade.

Responsabilidade tripartite

Para o psiquiatra, a responsabilidade pelo controle do vício deve ser compartilhada por três partes. O apostador responde pela regulação e consciência individual. O Estado deve informar a população, prover tratamento na rede pública e regulamentar a atividade. A indústria do jogo, por sua vez, tem a obrigação de não promover apostas como fonte de renda e de retirar das plataformas mecanismos que induzam a uma falsa percepção de controle sobre os resultados.

Sobre o financiamento do tratamento, Tavares foi direto ao ser questionado se o ambulatório recebe recursos provenientes da arrecadação tributária sobre as apostas; “Zero centavos”, respondeu. Segundo ele, 1% da arrecadação vai ao Ministério da Saúde, sem destinação específica conhecida para tratamento do vício. O serviço especializado que coordena dentro do Instituto de Psiquiatria da USP não recebe nenhuma parcela desses recursos.

Entre os pacientes atendidos ao longo dos mais de 3 mil casos tratados pelo ambulatório, 15% relataram já ter tentado suicídio em decorrência de problemas com apostas; 80% afirmaram ter flertado com a ideia em algum momento. Tavares ressaltou que o dado mais grave é o dos que nunca chegam ao tratamento porque consumaram o ato.

 


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