O colapso anunciado do futebol brasileiro: quando o governo pode virar o inimigo do jogo

Opinião I 28.10.25

Por: Magno José

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Amilton Noble*

O futebol brasileiro, maior expressão cultural e emocional do país, está à beira de um colapso silencioso, e talvez irreversível.

Por décadas, nossos clubes lutaram para sair da penúria financeira, buscando modelos sustentáveis em meio à instabilidade econômica e à má gestão histórica.

Nos últimos anos, contudo, vimos uma transformação real. A entrada de novas receitas, impulsionada pela profissionalização do setor e pelo patrocínio das empresas de apostas esportivas, aliada a alguns processos bem-sucedidos de SAF, reacendeu a esperança de estabilidade. Mas tudo isso pode estar prestes a ruir diante das ameaças de novas restrições publicitárias e do aumento da carga tributária sobre o setor de apostas no país.

O cenário é de caos iminente. A simples implementação dessas medidas significará a asfixia financeira de um ecossistema inteiro que hoje sustenta não apenas clubes, mas jornalistas, plataformas, técnicos, atletas de base e centenas de pequenas empresas ligadas à cadeia do futebol. Sem as receitas das bets, que hoje representam fatias majoritárias dos orçamentos da grande maioria dos clubes, eles voltarão a viver na corda bamba: elencos desmontados, salários atrasados, dívidas se acumulando.

Os avanços conquistados com tanto esforço, como a transparência na gestão, a profissionalização, a internacionalização das marcas poderão estar com os dias contados em questão de meses.

Restará ao setor encontrar um novo segmento para assumir esses patrocínios. Quem sabe veremos a reedição de nebulosos patrocínios públicos, como os da CAIXA nos anos 90, que sofria pressões políticas para patrocinar o time A ou time B.

E a torcida, sempre apaixonada e exigente, continuará a cobrar resultados. Mas como competir quando o combustível do investimento é cortado? Como disputar jogadores, manter estrutura, ou mesmo participar de torneios continentais com dignidade, se a principal fonte de receita é eliminada por um modelo de governo que vê o setor apenas como uma oportunidade de arrecadar mais, e não como um motor econômico e social?

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Nos últimos anos vários times fizeram bonito nas competições internacionais. O Mundial de Clubes, realizado neste ano, é um reflexo disso. Flamengo, Botafogo, Fluminense e Palmeiras fizeram frente a clubes da Europa. Não chegaram à final, mas deram alegria para suas torcidas. E o que tinha em comum em todos os clubes brasileiros? Todos são patrocinados por empresas de apostas.

O erro é de visão e, principalmente, de lógica econômica. Ao sufocar o mercado regulado com impostos desproporcionais e barreiras publicitárias, o governo não está protegendo ninguém. Está, na prática, empurrando o apostador para o submundo das plataformas ilegais, onde não há controle, segurança nem retorno tributário. As externalidades negativas só irão crescer: evasão fiscal, lavagem de dinheiro, perda de empregos formais e enfraquecimento de um segmento que vinha se consolidando como um dos pilares do entretenimento nacional.

Nunca é demais lembrar que manifestações públicas da SPA – Secretaria de Prêmios e Apostas – indicam a existência de mais de 18 mil sites ilegais que já tentaram ser bloqueados, bloqueio este que é um verdadeiro enxugar gelo. Sempre é bom ressaltar que são 18 mil ilegais contra 180 legais, ou seja 99% contra 1%.

O discurso da proteção à saúde é vago. Especialistas indicam que a proteção vem da regulação, da atenção, do olhar, do holofote. E isso só se atinge com um mercado regulado. Só ele possui o condão de tratar o apostador com a atenção devida. Se há externalidade, ela precisa ser mitigada. Fingir que não existe é o principal caminho para o precipício. Os operadores ilegais dos jogos não têm um pingo de preocupação com os apostadores. Querem obter lucro. Só isso. Quem atua no mercado regulado precisa cumprir regras, fazer KYC no ato do cadastro, só aceita depósito se o PIX for feito pelo mesmo CPF do apostador. E o mercado ilegal? Basta digitar um e-mail (que nem precisa ser verdadeiro) para começar a apostar.

Perceberam a diferença? Dá para entender onde está o problema?

A verdade é dura, mas simples: sem equilíbrio tributário, não há futuro sustentável. O governo precisa entender que o futebol (e as apostas que o cercam) não são inimigos a serem punidos, mas parceiros estratégicos de um projeto de desenvolvimento econômico. Destruir essa engrenagem é decretar o colapso de um dos poucos setores que ainda unem o país em torno de uma paixão comum.

Outro segmento pode assumir esse protagonismo que as apostas tomaram nos últimos anos em relação ao futebol, mas se isso demorar para o correr o caos estará instaurado. E aí, de onde sairão os recursos já no próximo ano para a sustentabilidade do futebol se as empresas sérias e reguladas do mercado forem forçadas a reduzir os seus investimentos ou até suspender a sua operação?

Se as medidas avançarem, o futebol brasileiro não cairá por falta de talento, cairá por falta de visão.

Assim como um bebê começando a caminhar com suas próprias pernas o setor de apostas precisa de ajustes. Maior cuidado com assuntos relacionados a jogo responsável, atenção às questões de saúde, etc. Mas isso é natural para um setor que tem apenas 10 meses de regulação. Como um bebê aprendendo a caminhar: se cair, precisa levantar e tentar novamente. Não é com corretivo que o bebê aprenderá a caminhar sozinho. Com educação, ensinamento, atenção, cuidado…

E quando o apito final soar, o placar da irresponsabilidade governamental mostrará o que todos já sabem, mas poucos têm coragem de dizer: foi o Estado quem marcou o gol contra.

(*) Amilton Noble é especialista em loterias e atua há mais de 30 anos no setor.

 


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