O problema das apostas pela internet não é ‘lobby’, mas falta de competência
A reportagem ‘Loteria online enfrenta lobby de lotéricas’ veiculada pelo O Estado de São Paulo no último sábado (26) é mais um daqueles equívocos da grande mídia, ao creditar ao lobby dos lotéricos o fato de até o momento o projeto de venda de apostas pela internet estar restrito a Mega-Sena e a clientes do Internet Banking da Caixa Econômica Federal.
Na verdade, falta competência, agilidade e comprometimento para implantação do Projeto Loterias na Internet.
Sabemos que em toda história existem versões e fatos e neste caso não é diferente.
Em novembro de 2009, a Caixa reuniu-se em Brasília com os dirigentes da FEBRALOT e dos sindicatos regionais para homologar o projeto de vendas de loterias pela Internet. Antes da apresentação do modelo final, o superintendente nacional da SUALO, Roberto Derziê de Sant’Anna, esteve em praticamente todas as capitais do país apresentando o modelo desenvolvido pela Caixa.
Como seria o modelo conceitual?
Dentro do modelo conceitual de venda de apostas pela Internet a Caixa previu a remuneração do lotérico em quatro categorias: Depósito na Carteira Virtual (conta virtual vinculada ao CPF do apostador), Unidade Lotérica (UL) de vinculação, Geração de Fluxo e Perfil Lotérico.
– No ‘Depósito Carteira Virtual’ a UL seria remunerada pelo depósito na Carteira Virtual a ser realizado no TFL.
– Na ‘UL de vinculação’ o apostador ao se cadastrar para realização da primeira aposta ele escolheria a lotérica que sua aposta estaria vinculada e o pagamento da comissão.
– Na ‘Geração de Fluxo’ o lotérico teria um site próprio e as apostas realizadas no endereço da Caixa identificariam a origem e gerariam comissão para a lotérica, independente da UL de vinculação no cadastramento do apostador. O layout do site do lotérico seria o mesmo de www.caixa.gov.br/loterias/. As Unidades Lotéricas teriam um link como referência para divulgação.
– No Perfil Lotérico a UL seria remunerada pelas apostas realizadas nos terminais de auto-atendimento instalados nas unidades.
Só ficou faltando definir os percentuais de comissão para cada categoria e, naquela época, a caixa informou que a remuneração só seria definida após a aprovação do modelo conceitual pelos lotéricos.
Idas e vindas
O projeto foi colocado na prateleira por um bom tempo. Em outubro de 2010, em entrevista ao BNL, o ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias, Joaquim Lima de Oliveira e atual de Tecnologia da Informação disse: “neste momento, a CAIXA encontra-se no desenvolvimento do modelo operacional e da solução tecnológica para o projeto. Estamos trabalhando com foco para, no menor tempo possível, oferecer esse novo canal de comercialização dotado de toda conveniência e segurança necessária”.
Apenas na Mega-Sena
Em abril de 2011, começou o ‘projeto piloto’ de apostas on-line apenas na Mega-Sena, pelos titulares de contas correntes pessoa física na CAIXA, cadastrados no Internet Banking CAIXA. Definiu-se que a comissão de 9% incidente sobre as vendas deste novo canal seria repassada integralmente para o Fundo de Desenvolvimento de Loterias – FDL.
Promessa para outras modalidades
Em setembro de 2012, durante a Festa dos 50 anos das Loterias Caixa, o vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias, Fábio Cleto, na presença do vice-presidente de Tecnologia da Informação, Joaquim Lima de Oliveira prometeu que no fim do ano de 2012 ou no início de 2013, a Caixa iniciaria as apostas em suas loterias pela internet para qualquer apostador, e não apenas para correntistas da Caixa e que o banco também pretendia desenvolver aplicativos de apostas para celulares.
Apenas em 2014
Em setembro de 2013, durante as comemorações de 51 anos das Loterias Caixa, o banco informou que está desenvolvendo um novo site, no qual será oferecida a opção de aposta em todas as modalidades de loterias de prognósticos, com previsão de disponibilização ao público apostador em 2014.
Além disso, a Caixa também informou que depois de 29 meses de operação, somente pelo IBC, foram 6.456.559 bilhetes vendidos, com arrecadação de mais de R$ 44 milhões até agosto de 2013.
Garantia
Os lotéricos acreditam que o inciso I do Parágrafo 2º da Lei nº 12.869, de 15 de outubro de 2013, garante a participação dos empresários nas vendas de apostas pela internet.
I – permissão lotérica: a outorga, a título precário, mediante licitação, da prestação de serviços públicos feita pelo poder outorgante à pessoa física ou jurídica que demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco, para comercializar todas as loterias federais e os produtos autorizados, bem como para atuar na prestação de serviços delegados pela outorgante, nos termos e condições definidos pela legislação e normas reguladoras vigentes;
Comento
Depois de quatro anos de propostas e estudos, a Caixa promete a implantação da venda de apostas pela internet para o próximo ano, mas até o momento ainda não foram definidos o modelo de operação e a forma de comissionamento da rede lotérica.
Para quem não conhece o Modelo Conceitual
Confira no BNLData uma versão otimizada do arquivo contendo o modelo conceitual do ‘Projeto Loterias na Internet’ apresentado pela Caixa Econômica Federal para os dirigentes e empresários lotéricos em novembro de 2009.
Comentário do Blog do Lotérico
“Que lobby é este? Faz tempo que este assunto não é abordado no meio lotérico e nunca foi debatido com a classe. Não vou me espantar se existir lotérico que desconhece sobre o assunto de jogos pela internet. Vai ver que fazer lobby do “eu sozinho”, deve ser uma daquelas boas estratégias que trarão bons resultados, fruto de uma política sindical nenhum pouco participativa e baseada no silêncio.
Veja o que Sr. Roger Benac, presidente da Febralot, declarou. ” … já está decidido que não receberão [lotéricas] o mesmo porcentual da comissão dos jogos presenciais.”. Quem decidiu, ele? Como sempre, a Caixa? Para mim, ninguém pediu a minha opinião. E você colega lotérico, foi consultado?
Mais uma do Sr. Roger. “O público que vai apostar online é diferente do que aproveita que está pagando as contas nas lotéricas para fazer uma aposta. Essas pessoas já pagam as contas usando a internet”.
Não estou entendo! Quer dizer que só faz jogo quem paga contas? Com que certeza e conhecimento, o presidente da nossa federação afirma uma coisa desta? Parece até que estou lendo a declaração de um executivo da Caixa.
Na minha lotérica nós temos muitos clientes que só vão fazer jogos. No dia que tiverem a opção de fazê-lo via internet, poderão usar este canal no conforto dos seus lares, e sem aquele stress e filas, que todas as lotérica tem por causa dos serviços de correspondentes bancários.
Particularmente sempre vi os jogos pela internet como uma grande ameaça para os nossos negócios. Poderá ser a pá de cal que está faltando jogar em cima da gente.
O duro é saber disto tudo pela impressa e sem participar de nada. Vai ver que a Febralot gostou da ideia e agora vai adotar esta mesma política que a Caixa já pratica há anos. Somos iguais a maridos traídos, os últimos a saber.
Já estou enjoado e de saco cheio desta relação esquisita e nebulosa entre Febralot e Lotéricos. Isto está caminhando mal e vai acabar pior.”
O empresário e lotérico Luiz Mendes, editor do Blog do Lotérico também não poupou críticas à reportagem e a postura do dirigente da Federação dos lotéricos.


