Olipíadas: País tem heróis, falta agora política esportiva.
ATENAS. O presidente Lula, apressou-se em informar Carlos Arthur Nuzman, vai receber os atletas brasileiros no Palácio do Planalto no dia 9 de setembro. Em meio ao balanço do desempenho do Brasil nos Jogos de Atenas, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) confirmou o presidencial tapinha nas costas dos desportistas pós-Olimpíadas. A entrevista coletiva foi rápida, e pouco aprofundada. Nuzman não quis falar sobre um tema mais delicado: o país não tem política esportiva.
As dez medalhas em Atenas, duas a menos do que em Sydney-2000, e cinco a menos do que em Atlanta são apenas uma pista disso. Há outras.
O COB, é claro, comemora as quatro medalhas de ouro, feito inédito desde a primeira participação brasileira nos Jogos. Duas delas — a de Torben Grael e Marcelo Ferreira, na Classe Star, e a de Robert Scheidt, na Laser — são fruto acentuadamente mais de esforço individual, até para conseguir patrocínio, do que de apoio da Federação Brasileira de Vela e Motor, cujo modelo de gestão é questionado pelos próprios velejadores. As outras duas são de atletas da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), que mais ganha dinheiro público no país: ano passado, a CBV recebeu R$ 22 milhões de patrocínio do Banco do Brasil, o que não diminui a importância da conquista e o talento de Bernardinho & Cia. e da dupla Emanuel/Ricardo.
Resultados impõem nova divisão dos recursos da Lei
Se o governo não tem política esportiva, até os Jogos de Atenas, a diretriz do COB tem sido a de repassar os recursos da Lei Agnelo-Piva para as confederações olímpicas e para si mesmo. O COB recebeu neste ciclo olímpico R$ 158.165.482,28 da verba da lei. Não existe, em qualquer parágrafo dela, a determinação de que o dinheiro tem de ser investido nestas entidades, que, aliás, formam o colégio eleitoral do COB e, conseqüentemente, a base de poder de seu presidente.
— Não vamos mudar isso — disse Nuzman.
Mas a próxima remessa da verba será dividida entre as confederações de forma diferente. O resultado em Atenas será um dos principais critérios para a redistribuição.
— Haverá uma revisão estratégica do uso dos recursos entre as confederações — disse Marcos Vinícius Freire, diretor-técnico do COB.
A Confederação Brasileira de Tênis (CBT) está na mira do COB. Questionada pelo maior ídolo do esporte, Gustavo Kuerten, a entidade tem como presidente Nelson Nastás, que vive cercado de processos judiciais por improbidade administrativa.
— O caso do tênis terá de ser revisto. Isso vale para muitos esportes e problemas que estes possam ter em alguma outra confederação — disse Nuzman, que apontou uma melhora qualitativa do desempenho do país nestes Jogos.
Número de esportes no pódio cai desde Atlanta
Após Sydney-2000, diante da ausência do ouro, o dirigente disse que o país precisava valorizar a prata e o bronze e que ninguém deveria esperar recordes em Atenas
Na Grécia, o Brasil ganhou dez medalhas em sete esportes: atletismo, iatismo, judô, vôlei de praia, vôlei, futebol e hipismo (quatro de ouro, três de prata, três de bronze).
Em Sydney, o país subiu ao pódio em oito esportes: atletismo, basquete, hipismo, iatismo, judô, natação, vôlei e vôlei de praia (12 medalhas, seis de prata e seis de bronze); em Atlanta-1996, nove: atletismo, basquete, futebol, hipismo, judô, natação, iatismo, vôlei, vôlei de praia (15 medalhas, três de ouro, três de pratas e nove de bronze).
No caso do atletismo, uma das decepções do país — com apenas a heróica medalha de bronze de Vanderlei Cordeiro de Lima — Nuzman disse que reverá os índices de classificação dos Jogos. A delegação brasileira da modalidade contou com 37 atlletas. Como em Atlanta, quando se levou uma equipe de 42 atletas, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) aceitou como critério que um atleta pudesse se classificar fazendo duas vezes o índice B da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Nos dois Jogos, o Brasil ficou só com uma medalha de bronze. Em Sydney, quando a CBAt exigiu somente o índice A, o país levou uma prata.
— Nos vamos rever esses índices, não só do atletismo.
O COB, entretanto, orgulha-se de ter mandado para Atenas a maior delegação brasileira de todos os tempos em Olimpíadas: 247 atletas. E, agora, percebe que quantidade não é, necessariamente, qualidade.
A posição do COB também é pouco crítica quanto à atuação do governo na área do esporte. É claro que Nuzman sabe que o tema política esportiva nem ronda o Palácio do Planalto. Mas o momento não é para críticas. Ontem, veio um recado do ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, ao COB, garantindo, pela enésima vez, que o presidente Lula estará enviando uma medida provisória ao Congresso Nacional para que seja aprovada a Lei de Incentivo Fiscal para o esporte, algo esperado como a salvação da lavoura.
— Tomara que, em 2005, o esporte já possa estar beneficiado por esta lei — disse Nuzman.
Mas o dirigente reconhece que o desenvolvimento do esporte é mais abrangente.
— Em nenhum país, sem ter o esporte na escola, vai ser possível desenvolver o esporte, seja em clubes, academias, associações. A juventude brasileira, em sua maior parte, não tem dinheiro para ser sócia de um clube, para pagar uma escolinha, professores, um técnico exclusivo, como muitas modalidades requerem. Ela depende do acaso. O Brasil precisa da escola como base, precisa dos clubes, das academias, das vilas olimpicas. Não podemos centrar apenas em um único foco — discursou o dirigente, que mantém o foco dos recursos da Lei Agnelo-Piva no COB e nas confederações olímpicas.
Boa parte deste recurso chega ao atleta sob forma de pagamentos de viagens internacionais. Mais da metade das confederações não dá um tostão desta verba aos desportistas, razão de ser do COB e das entidades. Os dirigentes do COB reclamam que é pouco dinheiro o que vem da lei. Mas dá à CBV, que recebeu aqueles R$ 22 milhões do Banco do Brasil ano passado, R$ 1,4 milhão dos recursos da Lei Agnelo-Piva. O presidente da CBV, Ary Graça, convocou uma coletiva para divulgar a renovação de contrato com o banco por mais quatro anos. Mas não quis informar o valor, embora o banco seja do governo. Assim, só o governo e a CBV sabem o montante do contrato. A população levou uma cortada neste ponto.
A única política esportiva do governo em relação aos esportes olímpicos, aliás, é o patrocínio das estatais em seis modalidaes. A segunda entidade a receber mais recursos é a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, que contou com R$ 5 milhões em 2003 dos Correios, menos R$ 17 milhões que a CBV. Depois, vêm a CBAt (R$ 4,5 milhões da Caixa Econômica Federal), a Confederação Brasileira de Basquete (R$ 3,2 milhões, Eletrobras), e a FBVM e a Confederação Brasileira de Handebol (com R$ 500 mil cada da Petrobras). O problema é que tais recursos são fruto de uma política de marketing de cada empresa e da capacidade de cada confederação de captar dinheiro público, e não de uma visão geral do governo sobre o esporte. Enquanto isso, ouve-se no COB o velho clamor por mais recursos.
— Temos apenas 15% em relação a países que estão mais bem colocados no ranking por aqui. Não podemos cobrar de todos, se nós não tivermos condições financeiras para poder executar nosso trabalho — disse Nuzman.
Em meio a essa confusão no esporte nacional, os medalhistas olímpicos brasileiros têm mesmo de ser recebidos como grandes heróis.
O Globo – Jorge Luiz Rodrigues e Rogério Daflon


