Pedidos de autoexclusão em bets crescem 588% na Copa do Mundo

Apostas I 21.07.26

Por: Elaine Silva

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Ministério da Fazenda registra 153 mil pedidos de autoexclusão de apostas em 20 dias
Plataforma da Fazenda registra mais de 250 mil bloqueios, com mudança no perfil dos motivos e medo de dados pessoais

Os pedidos de autoexclusão de plataformas de apostas online, as chamadas bets, registraram crescimento de 588% no número médio diário durante as primeiras duas semanas da Copa do Mundo, em comparação com um período equivalente de maio. Os dados são da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, e foram revelados com exclusividade pelo G1 Economia com BBC News.

Entre 15 e 28 de junho, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu 250.129 pedidos de bloqueio ou prorrogação de bloqueio. A média chegou a 17.866 solicitações por dia. No período anterior à Copa, de 11 a 25 de maio, foram 38.907 pedidos em 15 dias, uma média de 2.594 diárias.

Em números absolutos, o intervalo da Copa analisado pela SPA registrou 211.222 pedidos a mais do que o período de maio. A diferença ocorreu mesmo com o recorte de junho tendo um dia a menos: 14 dias, contra 15 dias no intervalo de comparação.

Mudança no perfil dos pedidos

Além do volume, os dados apontam uma alteração nos motivos alegados pelos usuários. Antes da Copa, a principal razão declarada para o bloqueio era a perda de controle sobre o jogo, com 43,56% dos pedidos. Durante o torneio, esse motivo caiu para o segundo lugar, com 24,13%. O principal passou a ser a prevenção contra uso irregular de dados pessoais por empresas de bets, que saltou de 12,08% para 29,5%.

Os seis motivos registrados, com suas participações durante o torneio, foram:

⇒ Prevenção contra uso de dados (29,5%)

⇒ Perda de controle sobre o jogo (24,13%)

⇒ Decisão voluntária (18,93%)

⇒ Motivo não informado (15,31%)

⇒ Dificuldades financeiras (10,91%)

⇒ Recomendação médica (1,22%)

Para a SPA, o aumento é resultado de uma combinação entre a maior exposição do público às apostas durante o torneio, a divulgação da plataforma entre usuários e o crescimento da conscientização sobre riscos financeiros e emocionais. “A combinação entre informação, conscientização e maior divulgação da ferramenta tem contribuído para ampliar o alcance do instrumento e fortalecer a proteção dos cidadãos”, afirmou a secretaria em nota.

Os dados mostram também que a maioria dos usuários optou por bloqueio sem prazo definido. Esse percentual era de 62,13% antes do início da Copa e subiu para 63,53% durante o torneio.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão foi lançada pela SPA em dezembro de 2025. Com um único comando, o cidadão pode bloquear o acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pelo governo federal, o que impede que alguém se exclua de uma casa e continue ativo em outra.

Medo de perder o controle

Para Lucas Louback, gestor de incidência política da ONG Bonde e coordenador da campanha “Brasil contra Bets”, o volume de pedidos evidencia o alcance das apostas durante a Copa. “Os dados são alarmantes e mostram o quanto a compulsão por bets tem se espalhado na vida de milhões de brasileiros”, afirmou à reportagem.

Segundo Louback, a centralidade do futebol na cultura brasileira criou uma oportunidade para as empresas do setor. “A Copa do Mundo concentra a atenção do país porque futebol é uma paixão nossa. Mas essa paixão passou a ser disputada pela publicidade de bets”, disse.

O coordenador da campanha avalia que o aumento pode indicar que parte dos usuários percebeu o risco de perder o controle sobre o hábito de apostar. Para ele, a autoexclusão não substitui políticas de prevenção, atendimento em saúde e combate ao endividamento.

Um engenheiro identificado apenas como Bruno fez o pedido de autoexclusão cerca de dois meses antes da publicação desta reportagem e sentiu necessidade de se isolar quando a Copa começou. Ele está em tratamento para superar o vício em apostas desde o fim de 2025 e jogou durante dois anos, acumulando prejuízo de R$ 122 mil em apostas no futebol. A dívida chegou a um ponto em que não conseguia mais pagar a mensalidade de sócio torcedor do São Paulo. “Hoje eu nem gosto mais de futebol”, relatou. “Nunca mais fui ao estádio. Não visto uma camisa que tenha o nome de nenhum tipo de bet, e isso eu vou levar para minha vida.”

O porta-voz dos Jogadores Anônimos, identificado pelas iniciais L.C.S. a pedido do próprio grupo, afirmou que pessoas com histórico de prejuízo em copas anteriores, mesmo antes da regulamentação das bets, decidiram se proteger neste ano. “Foi o medo de quebrar. Teve muita pessoa que, antes de chegar no meio da Copa, já tentou se precaver e ficar fora do jogo”, declarou. Para ele, o pedido de autoexclusão pode representar um momento de lucidez. “Qualquer passo que a pessoa der nessa direção significa que ela está tentando se salvar. Quem sabe seja também um pedido de socorro”, afirmou.

O representante dos Jogadores Anônimos considera positiva a procura pela plataforma, mas aponta que o número de autoexcluídos ainda seria pequeno diante do universo total de apostadores. De acordo com o Ministério da Fazenda, o Brasil tem pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados, o equivalente a pouco mais de 10% da população brasileira, estimada em aproximadamente 210 milhões de habitantes. A receita bruta das bets legalizadas no país foi de R$ 37 bilhões em 2025, segundo a mesma pasta. Estimativas da consultoria Regulus Partners indicam que o Brasil se tornou, em 2025, o quinto maior mercado de bets do mundo.

Impacto após a Copa

Entidades consultadas pela reportagem acreditam que parte dos efeitos do torneio sobre o comportamento dos apostadores só se tornará visível nos próximos meses. L.C.S. explicou que pessoas com transtorno do jogo compulsivo tendem a tentar recuperar os prejuízos apostando mais antes de buscar ajuda. “Esse problema vai aparecer, mas não será imediatamente. Pode levar alguns meses. Ele só vai procurar ajuda depois que tentar recuperar tudo o que perdeu. Normalmente, é só quando ele tenta algo extremo, como tirar a própria vida, que se dá conta de que precisa de ajuda”, disse. Os Jogadores Anônimos já se preparam para receber mais pessoas nos próximos meses. O número de salas do grupo no Brasil passou de aproximadamente 30, há cerca de sete anos, para mais de 70 atualmente; reuniões diárias online estão disponíveis para quem não consegue participar presencialmente.

Em meio à repercussão gerada pelos anúncios de bets durante as transmissões da Copa, o governo federal introduziu, na semana anterior à publicação desta reportagem, novas regras para a publicidade do setor. As empresas passam a ser obrigadas a exibir alertas de que apostar faz perder dinheiro, pode causar dependência e não é investimento. Além disso, publicidades que induzam apostas com base na suposta expertise de comentaristas, especialistas ou influenciadores ficam proibidas. Estados e municípios também passaram a adotar medidas para restringir a publicidade das casas de aposta.

No campo legislativo, um projeto de lei apresentado por 20 deputados e deputadas federais em maio de 2026 propõe limitar a propaganda das empresas de apostas, mas ainda não avançou na Câmara dos Deputados.

Representantes do setor pedem cautela na leitura dos números. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirmou que os dados de autoexclusão “precisam ser analisados levando em consideração que a plataforma de autoexclusão pode ser utilizada por qualquer cidadão, independentemente de ele já apostar ou não”, e pediu que os dados sejam contextualizados com o universo de apostadores em sites ilegais. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) avaliou o movimento de forma positiva. “O aumento dos pedidos de autoexclusão mostra que essa ferramenta está sendo utilizada pelos apostadores, o que é positivo. Ela foi criada justamente para permitir que quem entende que precisa interromper ou limitar sua atividade possa fazê-lo de forma simples e segura”, afirmou a entidade, acrescentando que ferramentas como essa estão disponíveis apenas nas plataformas autorizadas pelo governo federal, e não no mercado ilegal.

 


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