PF investiga estelionato envolvendo dono de lotérica fechada pela Caixa

Lotérica I 31.03.26

Por: Magno José

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PF investiga estelionato envolvendo dono de lotérica fechada pela Caixa
Compradores de Dourados pagaram R$ 285 mi pela Lotérica São Bento em Sidrolândia (MS) sem saber que Caixa havia suspenso sistema 14 dias antes por fraudes e desvios de R$ 351 mi (Foto: Reprodução)

Waltecir Cardoso Pereira, servidor concursado da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), é alvo de inquérito da Polícia Federal por suposto estelionato. A investigação apura a venda da Lotérica São Bento, em Sidrolândia, a 71 quilômetros de Campo Grande, após o estabelecimento ter sido bloqueado pela Caixa Econômica Federal. Dois moradores de Dourados pagaram R$ 285 mil pela lotérica em março de 2025, sem saber que o sistema havia sido suspenso 14 dias antes.

O contrato de compra e venda foi assinado em 7 de março de 2025. Os compradores desembolsaram R$ 285 mil do total de R$ 520 mil acordado. Após a transação, descobriram que a Caixa havia bloqueado o sistema da lotérica em 21 de fevereiro de 2025, conforme informações divulgadas pelo Campo Grande News.

Erickson Benites Lima, um dos compradores, viajou até Sidrolândia para assumir o negócio. Encontrou o estabelecimento inoperante. “Ele me ofereceu a lotérica alegando que precisava se afastar para assumir um concurso público de dedicação exclusiva em Mato Grosso. Como já era funcionário da UFGD, me passou uma credibilidade enorme. Confiando nisso, contraí uma dívida de R$ 520 mil e paguei quase R$ 300 mil só de entrada”, declarou.

Waltecir teria mentido aos compradores após a venda. Alegou que procurou o banco para resolver o problema. Disse que aguardava solução com apoio de “políticos importantes” de Mato Grosso do Sul.

“Ele me enrolava com desculpas vagas, dizia não saber o motivo. Comecei a investigar por conta própria, pressionei antigos funcionários, analisei e-mails e documentos, e descobri que a lotérica já estava em processo de fechamento pela própria Caixa por conta de fraudes. Waltecir usava o sistema para registrar depósitos fictícios e pagar boletos fantasmas, desviando o dinheiro para contas pessoais dele. Tudo documentado pela própria Caixa Econômica”, afirmou Erickson.

Esquema começou em outubro de 2024

A denúncia apresentada ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal indica que as irregularidades começaram em outubro de 2024. Naquele mês, Waltecir retirou R$ 150 mil do caixa da lotérica. O dinheiro seria usado para adquirir parte de outro estabelecimento do mesmo segmento.

O prejuízo acumulado teria alcançado R$ 351 mil até o fechamento da Lotérica São Bento. Para ocultar o desfalque, Waltecir teria recrutado pessoas “laranjas”. Essas pessoas emprestavam contas em bancos digitais para emissão de “boletos fantasmas”. Recebiam comissões entre R$ 70 e R$ 200. A denúncia aponta que estudantes da UFGD estariam entre os participantes do esquema.

Erickson afirma que Waltecir sabia que a lotérica estava condenada. Realizou a venda para quitar a dívida com a Caixa. “Se não pagasse, iam acionar a Polícia Federal, isso o próprio gerente confirmou. Me induziu a contrair uma dívida de meio milhão de reais para salvar a pele dele. Me vendeu algo que ele mesmo destruiu”, disse.

A Caixa emitiu “Avisos de Irregularidade” em fevereiro de 2025. Os documentos informavam a suspensão dos serviços da lotérica. A denúncia aponta que Waltecir foi formalmente notificado pelo banco. Tinha conhecimento do teor dos avisos. Mesmo assim, prosseguiu com a venda do estabelecimento. Omitiu a real situação aos compradores.

Compradores buscam recuperar valores

Os compradores entraram com ação de execução na área cível da comarca de Dourados. Tentam recuperar o valor pago a Waltecir Cardoso Pereira. A defesa solicitou bloqueio de bens. Até o momento não houve avanço no processo.

Ao procurar a Caixa Econômica Federal, Erickson relata que foi tratado com indiferença. “Disseram que eu ‘não era ninguém’ para eles, que só poderiam tratar com ele. E ele se aproveitou disso”, afirmou.

Polícia Federal assume investigação

Inicialmente, a Polícia Federal emitiu parecer concluindo pela “ausência de ofensa direta a bens, serviços ou interesses federais”. Considerou o caso como estelionato entre particulares.

Uma análise mais aprofundada dos fatos mudou o entendimento. A investigação identificou autenticações indevidas e criação de caixa fictício para encobrir desvios. Esses elementos apontaram indícios de dano direto à operação e aos sistemas da Caixa Econômica Federal no âmbito da concessão lotérica. A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar prática de fraude diretamente contra a Caixa. O procedimento tramita em sigilo.

O Ministério Público Federal requisitou a abertura do inquérito policial no ano passado. O objetivo é investigar crime de estelionato contra a Caixa Econômica Federal.

Posicionamento das instituições

Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a Caixa informou que o funcionamento de lotéricas é fundamentado por regime de permissão obtido a partir de licitação. O regime é regido pela Circular Caixa nº 1.084/2025 e pelas leis nº 8.987/95 e nº 12.869/13. “A Lotérica São Bento Ltda., em Sidrolândia (MS), foi encerrada em decorrência de previsões contidas na referida Circular”, informou o banco público.

A UFGD divulgou nota oficial em seu portal. A instituição recebeu manifestação relacionada ao caso por meio de seus canais oficiais de atendimento. “Após análise preliminar, verificou-se que os fatos relatados dizem respeito, a princípio, a situação de natureza particular, não estando relacionados ao exercício das atividades profissionais ou às relações institucionais no âmbito da Universidade”.

A universidade encaminhou o caso para análise da Comissão de Ética Setorial da instituição. A comissão realizará análise no âmbito de suas atribuições. “A Universidade esclarece, ainda, que eventuais novos elementos ou indícios que estabeleçam relação com o exercício de atividades profissionais ou com o ambiente institucional poderão ensejar a reavaliação da situação e a adoção das medidas administrativas cabíveis”.

O advogado de defesa de Waltecir Cardoso Pereira prometeu encaminhar um posicionamento sobre as denúncias até sexta-feira (27). O prazo não foi cumprido. O espaço para manifestação permanece aberto.

 

 

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