Plataformas ilegais de apostas usam criptoativos para driblar fiscalização e movimentar dinheiro

Apostas I 21.08.26

Por: Magno José

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A influência da tecnologia blockchain na transformação econômica global
Operadoras clandestinas de apostas utilizam moedas digitais para receber recursos, pagar usuários e enviar valores ao exterior, fugindo das regras brasileiras

Plataformas clandestinas de apostas encontraram nos criptoativos um caminho para receber recursos, remunerar usuários e transferir dinheiro ao exterior sem os controles exigidos das operadoras licenciadas. A brecha está na diferença entre o mercado regulado e o ilegal: enquanto bets autorizadas no Brasil são proibidas de usar ativos digitais e devem seguir uma série de obrigações, plataformas que operam fora da autorização do Ministério da Fazenda simplesmente ignoram essas regras.

Conforme apuração do Valor, a distinção entre os dois ambientes é o ponto central do problema. Operadoras licenciadas precisam identificar usuários, validar CPF, monitorar movimentações, comunicar operações suspeitas ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e enviar dados ao sistema de gestão de apostas do governo federal. Fora desse ambiente regulado, plataformas clandestinas recorrem a empresas de fachada, meios de pagamento irregulares, influenciadores e grupos fechados em aplicativos de mensagem para captar apostadores e movimentar dinheiro.

Por que cripto facilita o circuito ilegal

A criptomoeda entra nesse arranjo como meio de pagamento e remessa por dispensar, em determinadas situações, a intermediação bancária tradicional. Quando sites ilegais são bloqueados, operadores conseguem trocar de endereço e retomar as atividades em minutos, tornando o monitoramento ainda mais difícil.

Caio Motta, arquiteto sênior de soluções da Chainalysis para a América Latina, descreve o papel dos criptoativos nesse contexto: “Criptos são, primeiro, um ativo financeiro como qualquer outro, que é utilizado por organizações criminosas para movimentar operações, reduzir custos e aumentar a velocidade das operações.”

Os números reforçam a dimensão do fenômeno. Segundo relatório da Chainalysis, carteiras ilícitas receberam ao menos US$ 145,9 bilhões em criptoativos em 2025, alta de 155% em relação ao ano anterior. Ainda assim, Motta pondera que a atividade criminosa representa uma fração pequena do total: “Quando a gente avalia todo o globo de movimentações, é uma parcela muito reduzida, cerca de 1% de atividade ilícita.”

Rastreabilidade tem limites

A tecnologia dos criptoativos cria uma contradição aparente: ao usá-los, organizações criminosas abrem mão do anonimato. “Qualquer organização criminosa que usa criptoativo acaba abrindo mão do anonimato, porque todas as transferências ficam registradas na blockchain”, afirma Motta. “A partir do momento em que eu consigo capturar dinheiro ou uma carteira, eu consigo não só saber o que aquele dinheiro representa, mas avaliar o histórico daquela movimentação.”

Um executivo de compliance de uma casa de apostas autorizada, que pediu para não ser identificado, alerta, porém, que o rastro tem limites concretos. Segundo ele, “criptoativos também podem circular por plataformas não reguladas, carteiras próprias, operações entre usuários e ambientes de difícil monitoramento, como a dark web“, o que dificulta as investigações.

O que as autoridades podem fazer

Para Motta, o combate ao crime organizado nesse segmento passa pelo ganho operacional das forças de segurança. “No passado, dados de blockchain eram negligenciados. A partir do momento em que as forças de segurança começaram a entender o valor dessas informações, começaram a incorporar esses dados, e isso resultou em resultados muito concretos e positivos.”

A capacidade de rastrear movimentações na blockchain já representa um instrumento disponível para investigações; o desafio está em tornar esse uso sistemático e coordenado entre autoridades financeiras e policiais.

 

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