Pesquisa do Sebrae sobre bets mede opinião, não prejuízo, e leva o Selo Narrativa

Apostas I 11.10.26

Por: Magno José

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FactCheck BNLData: CEO Yduqs atribui queda em matrículas a apostas, mas dados da própria empresa e arrecadação contradizem
Levantamento de entidade presidida por candidato do PT derrotado ao Senado é divulgado como prova de dano ao comércio, mas mostra que três em cada quatro pequenos negócios não relatam perda de faturamento

O Sebrae divulgou neste domingo (11) o levantamento “Percepção dos pequenos negócios sobre o fim das Bets”, repercutido pelo UOL na reportagem Bets: 66% dos pequenos negócios apoiam a proibição, aponta Sebrae. A pesquisa ouviu 1.028 MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte no início de outubro, dias depois da edição da Medida Provisória nº 1.394/2026.

O presidente do Sebrae, Décio Lima, afirmou que os dados “mostram com clareza” a migração do dinheiro do comércio local para os jogos on-line. Décio acaba de voltar ao cargo depois de disputar, sem sucesso, uma vaga no Senado pelo PT em Santa Catarina. O BNLData analisou os números divulgados e eles não sustentam a conclusão do dirigente.

O que a pesquisa realmente diz

Faturamento. Apenas 26% dos entrevistados associam queda de receita às apostas. Outros 51% afirmam que as bets não tiveram efeito direto e 23% não souberam avaliar. Ou seja, 74% dos pequenos negócios não relatam prejuízo.

Clientes. Um terço (33%) percebeu consumidores com menos dinheiro, o que significa que 67% não perceberam. A pesquisa também não explica como o empresário saberia que o aperto do cliente vem das apostas, e não dos juros, do endividamento das famílias ou da renda.

Efeito da proibição. Só 38% esperam vender mais com o fim das bets. Cerca de 62% projetam estabilidade, queda ou não sabem dizer. A nota média para o impacto esperado na economia local foi 6,1, em escala de zero a dez.

Percepção não é evidência

O levantamento é uma pesquisa de opinião. Não mede faturamento, vendas nem fluxo de consumo, e não compara o desempenho das empresas antes e depois da regulamentação. Usá-lo para afirmar que o recurso do comércio “migrou” para as apostas é extrapolar o que os dados permitem.

O que não foi informado

A reportagem não traz margem de erro, método de coleta, critério de seleção dos entrevistados, ponderação da amostra nem a redação das perguntas. Sem a ficha técnica, não é possível saber se os 1.028 respondentes representam o universo dos pequenos negócios do país.

O dado sobre funcionários tem o mesmo problema. Os 40% que apontam impacto nas equipes se referem apenas às empresas com empregados, e o tamanho desse grupo não foi divulgado. Como o MEI pode contratar no máximo um funcionário, a base pode ser bem menor que a amostra total.

Quem assina a pesquisa

O Sebrae é uma entidade privada do Sistema S, mas seu comando responde ao governo federal. O presidente da República não nomeia a diretoria por decreto, mas o Planalto tem maioria no conselho que a elege e, na prática, escolhe quem dirige a instituição. A atual gestão nasceu assim: em março de 2023, o então presidente Carlos Melles renunciou sob pressão do governo Lula, e Décio Lima foi indicado pelo presidente da República para o posto.

Ex-deputado federal pelo PT e ex-prefeito de Blumenau, Décio disputou o governo de Santa Catarina em 2022 e foi derrotado. Ao assumir o Sebrae, definiu a entidade como “parceiro do governo do presidente Lula”. No fim de março deste ano, deixou o cargo para ser candidato do PT ao Senado por Santa Catarina. Nas eleições de 4 de outubro, terminou a disputa em quarto lugar, com 823.200 votos (10,22%), e não se elegeu. Voltou então à presidência do Sebrae.

Durante o afastamento, o posto ficou em casa. O Conselho Deliberativo elegeu por unanimidade, como presidente interino, Rodrigo Soares, também ligado ao PT, ex-deputado estadual na Paraíba por dois mandatos, entre 2003 e 2011, e até então chefe de gabinete da presidência do Sebrae.

A filiação partidária dos dirigentes não invalida, por si só, os dados. Mas ajuda a entender o enquadramento: uma entidade presidida por um candidato do PT derrotado nas urnas há uma semana divulga, em plena campanha de 2º turno, uma pesquisa cujo título já trata o “fim das Bets” como fato e cuja conclusão oficial coincide com o discurso do Planalto.

As ressalvas que ficaram fora da manchete

O estudo registra que parte dos empresários teme a migração dos apostadores para plataformas clandestinas e critica a insegurança jurídica da proibição total, diante das autorizações já concedidas. Entre as alternativas sugeridas estão regras mais rígidas, limites por CPF e restrições à publicidade. Ou seja, regulação, e não proibição.

Veredito: Selo Narrativa

O apoio de 66% à proibição é um dado de opinião e, como tal, pode ser verdadeiro. Mas apoio a uma medida não prova o dano econômico que se atribui às bets. Ao apresentar percepções como demonstração de prejuízo ao comércio, quando a maioria dos entrevistados diz não ter sido afetada, o levantamento do Sebrae recebe o Selo Narrativa do FactCheck BNLData.

 


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