Regulação reduz presença de bets na Série A do Campeonato Brasileiro

Santos, Vasco, Bahia, Internacional, Grêmio e Coritiba deixaram de contar com empresas de apostas esportivas como patrocinadoras principais em seus uniformes na temporada 2026 do Campeonato Brasileiro. As mudanças aconteceram entre o final de 2025 e o início de 2026. O novo marco regulatório do setor elevou os custos operacionais das bets e reduziu a margem para investimentos em patrocínios esportivos.
Na edição de 2025 do Brasileiro, 18 dos 20 clubes participantes tinham contratos de patrocínio master com bets. Red Bull Bragantino e Mirassol ficavam fora dessa categoria, embora mantivessem acordos menores com empresas do ramo.
As rescisões ocorreram por motivos diferentes, conforme informações da Folha de S.Paulo. A dupla gaúcha encerrou o vínculo com a Alfa Bet após atrasos sucessivos nos pagamentos. Santos e Bahia optaram por rescindir de forma amigável com 7k e Viva Sorte Bet. Vasco e Coritiba não renovaram com Betfair e Reals Bet.
Dos seis clubes, apenas o Santos fechou novo acordo com outra casa de apostas. Os repasses anuais do novo contrato são cerca de 30% menores em comparação com o anterior.
Regulação aumenta custos das operadoras
Desde 1º de janeiro de 2025, passou a vigorar o modelo regulatório completo estabelecido pela Lei nº 14.790/2023. A legislação condiciona a exploração de apostas de quota fixa à constituição das operadoras no país e à obtenção de autorização específica.
O regime tributário estabeleceu a cobrança de 12% sobre a receita bruta das empresas, o chamado GGR (Gross Gaming Revenue). Há ainda incidência de PIS, Cofins e ISS. A legislação fixou taxa de outorga de R$ 30 milhões para autorização válida por cinco anos.
Para os apostadores, a tributação incide sobre os prêmios líquidos que superem R$ 2.259,20. A alíquota é de 15% sobre o valor que exceder o limite anual estabelecido para a tabela do IRPF.
Gustavo Biglia, sócio do escritório Ambiel Bonilha Advogados e especialista em regulação de jogos e apostas, explicou o contexto anterior. “Na prática, não havia exigência de autorização nacional nem um regime tributário abrangente sobre a atividade econômica realizada no país, o que permitiu investimentos agressivos em marketing e patrocínio esportivo, dado o custo regulatório significativamente inferior ao atual”, disse Biglia.
Gustavo Afonso Ribeiro e Lacerda, fundador e conselheiro da Ana Gaming, holding que gere as marcas 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet, afirmou que o setor ainda está “lidando com alguns movimentos como o aumento da tributação, que não estava previsto e fez com que estratégias fossem repensadas.”
Lacerda acrescentou: “Ainda assim, os investimentos dentro do esporte sempre serão um ativo constante e valioso, que inclui também acordos junto a embaixadores e competições, além da presença em programas esportivos na TV e no digital”.
Concorrência eleva custo de aquisição de clientes
As empresas de apostas esportivas entraram em uma fase de busca por eficiência após um ciclo inicial de investimentos agressivos. O foco deixou de ser apenas a exposição nas camisas dos clubes. As bets passaram a priorizar ações com retorno mais mensurável.
A concorrência acirrada no mercado brasileiro elevou o custo de aquisição de novos clientes. Essa realidade financeira força as empresas a reverem seus orçamentos. As verbas são realocadas para outros formatos de comunicação.
Eduardo Corch, professor de marketing do Insper e diretor-geral da agência EMW Global para América Latina, apontou esse movimento. “Há ainda o fator de mercado e concorrência. O custo de aquisição de clientes no Brasil subiu muito, e a briga por espaço pressiona as margens de lucro. Isso obriga as empresas a reverem seus orçamentos, muitas vezes realocando a verba para outros formatos de comunicação”, declarou Corch.
Pietro Cardia Lorenzoni, diretor jurídico da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e sócio do escritório Betlaw, projeta que os investimentos do setor devem se concentrar em um número menor de empresas. “Na prática, o que aconteceu é que teve um investimento inicial grande de várias empresas, mas é um mercado que está se provando e passa por um processo de amadurecimento, e é natural essa diminuição”, afirmou Lorenzoni.
O Corinthians anunciou no fim de fevereiro a renovação do acordo com a bet Esportes da Sorte até o fim de 2029. Os repasses anuais subiram de cerca de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões. Os valores podem chegar a R$ 200 milhões a depender de resultados esportivos alcançados dentro de campo.
Darwin Filho, CEO do Grupo Esportes Gaming Brasil, detentor da marca Esportes da Sorte, destacou a importância do acordo. “É uma parceria estratégica para a Esportes da Sorte, que fortalece nossa conexão com a torcida e amplia as possibilidades de construção de marca por meio de experiências, inovação e entregas mais completas”, disse Darwin Filho.
José Sarkis Arakelian, consultor e professor da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), avaliou que existe uma distorção nos valores pagos pelas empresas de apostas a alguns clubes. “Existia uma bolha, e ainda existe uma bolha para alguns clubes, em relação ao quanto as bets pagam”, declarou José Sarkis Arakelian.
Leonardo Henrique Roscoe Bessa, consultor da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e sócio do Betlaw especializado em bets, classificou os investimentos do mercado de apostas em publicidade como uma “miragem de poder.”
“A curto prazo, o dinheiro compra exposição. A longo prazo, apenas a integridade garante a permanência. Em um setor sob intenso escrutínio, a conformidade com a lei não é o freio, mas o motor da diferenciação”, afirmou Bessa.
Em 2025, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) derrubou cerca de 25 mil sites ilegais de bets que não tinham as autorizações devidas para operar no país.
Lacerda, da Ana Gaming, considera o combate às plataformas irregulares um passo importante para a construção de um ambiente de apostas mais sólido no Brasil. “A retirada do ar de sites ilegais contribui diretamente para a proteção do consumidor e para o combate às práticas ilícitas, além de ser um reconhecimento para o árduo trabalho que é feito pelas empresas que operam dentro das regras”, declarou Lacerda.
Arakelian, da Faap, projeta que a diminuição das empresas de apostas no mercado deve resultar em redução das ofertas. “A busca por esses espaços tende a diminuir e, naturalmente, os valores ofertados”, disse ele.
O consultor considera essa tendência uma consequência esperada do processo de consolidação do mercado. “Isso é algo esperado, na medida em que vamos tendo uma consolidação e esse mercado vai ficando mais maduro.”


