Rio de Janeiro rastreia vício em apostas em consultas de rotina

Apostas I 30.08.26

Por: Elaine Silva

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Rio de Janeiro rastreia vício em apostas em consultas de rotina
Protocolo inédito nas Clínicas da Família identifica dependentes de jogos e oferece tratamento a apostadores e familiares

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro passou a rastrear o vício em apostas durante as consultas de rotina nas unidades de Atenção Primária da cidade. O protocolo foi adotado em agosto de 2026 nas Clínicas da Família e nos Centros Municipais de Saúde (CMS), com o objetivo de identificar casos de dependência de jogos e oferecer atendimento tanto ao apostador quanto a seus familiares.

A iniciativa foi relatada pelo Globo Online e representa uma mudança na abordagem de saúde pública em relação ao jogo compulsivo. O Rio de Janeiro é a capital brasileira com o maior percentual de apostadores, e as próprias equipes de saúde notaram o crescimento na procura por atendimento relacionada ao problema antes mesmo da implantação do protocolo.

O rastreamento funciona a partir de duas perguntas feitas durante todos os atendimentos. As respostas são registradas no prontuário eletrônico do paciente, e um resultado positivo em qualquer uma delas aciona uma avaliação mais aprofundada por parte dos profissionais de saúde. O modelo segue a mesma lógica já utilizada para identificar depressão e tabagismo nas unidades.

“Normalmente as pessoas não chegam às unidades pela porta principal para buscar tratamentos relacionados a vícios em jogos. Não é uma questão tão fácil de tratar, até porque geralmente há uma questão de ansiedade, insônia, depressão e outras doenças atreladas a esse vício. Estamos tentando tratar de forma precoce”, declarou o secretário de Saúde do Rio, Rodrigo Prado.

Perfil dos apostadores e primeiros resultados

Os primeiros resultados apareceram em uma semana de aplicação do questionário. Entre os 3.070 pacientes que responderam, 22 disseram sentir necessidade de apostar, o equivalente a quase 1% do total. Outros 15 admitiram ter mentido a familiares para esconder quanto gastaram com jogos.

O perfil dos apostadores identificado previamente pela Secretaria também chama atenção. Antes da implantação do protocolo, o Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS (NIA) analisou prontuários eletrônicos das redes de Atenção Primária e Saúde Mental com auxílio de um modelo de linguagem natural. A busca encontrou 1.368 pessoas com relatos de sofrimento associado a situações que sugeriam dependência de apostas. A maioria era homem, a idade mediana era de 37 anos e 53% tinham entre 18 e 39 anos.

Entre os familiares afetados, o cenário era praticamente inverso. Esse grupo representava cerca de 35% dos relatos, e 85% eram mulheres, com idade mediana de 45 anos, predominantemente esposas ou mães dos apostadores. A análise identificou ainda pelo menos 25 pacientes com menos de 18 anos, sendo 22 meninos. Embora menores de idade não possam fazer apostas legalmente, a presença desses casos nos registros foi considerada compatível com a expansão dos aplicativos de apostas entre adolescentes.

Atendimento e encaminhamento

Após a identificação do problema, o paciente recebe uma avaliação clínica e um plano terapêutico definido conforme o grau de risco. Os casos mais leves recebem orientações; os mais graves são acompanhados por equipe multiprofissional e pela atenção psicossocial. O cuidado se estende aos familiares, mesmo quando o próprio apostador recusa iniciar tratamento.

Os agentes comunitários de saúde (ACS) e os demais profissionais das unidades passaram por treinamento específico sobre o tema, com capacitação oferecida pelo Ministério da Saúde.

Em março de 2026, o Ministério da Saúde criou um serviço de teleatendimento em saúde mental voltado especificamente a jogadores. Desde então, o serviço acumulou mais de 27 mil cadastros, sendo que quase 9% das buscas partiram do Rio de Janeiro. O serviço oferece até 100 mil teleatendimentos mensais, gratuitos e sigilosos, para pessoas com vício em apostas e suas redes de apoio. Para acessá-lo, é necessário entrar no aplicativo Meu SUS Digital com a conta gov.br, clicar em “Miniapps” e selecionar a opção “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”. Após um autoteste, o usuário é direcionado à plataforma da AgSUS para agendamento da primeira consulta.

Em todo o país, as pessoas com problemas relacionados a jogos também podem buscar auxílio nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Iniciativas no Rio de Janeiro

O Programa de Dependências; Droga, Jogo e Álcool da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também iniciou um projeto específico para atender pacientes com vícios em jogos e apostas virtuais. Marcelo Santos Cruz, médico psiquiatra e coordenador do grupo, relatou crescimento na procura por atendimento de pessoas com problemas graves provocados pelo jogo.

“Essas formas atuais de jogo se diferenciam das anteriores por algumas coisas. Uma delas é a rapidez com que a pessoa joga. No celular a pessoa pode jogar ininterruptamente. E nas bets também, a pessoa pode jogar num jogo, pode jogar em vários em futebol e até em outros esportes. Tem jogo 24 horas por dia. E isso é muito diferente do que existia anteriormente, quando o sujeito tinha que sair de casa para jogar. Ele tinha que ir no jóquei ou ao cassino. Quando tinha máquina de caça-níquel, ele tinha que ir ao bar para jogar. E agora a disponibilidade é ininterrupta. Então, o tempo todo em casa a pessoa pode jogar”, declarou Cruz.

O médico detalhou o perfil dos pacientes atendidos pelo programa; pessoas jovens, entre 14 e 30 anos, com predominância de homens, que representam cerca de 60% dos atendimentos.

O Grupo Jogadores Anônimos (JA) é outra opção de apoio disponível. A entidade funciona de forma independente, sem patrocínios, e realiza reuniões diárias em todo o país, de forma presencial ou virtual. No domingo (30/8), O Globo Online acompanhou uma reunião do grupo. Breno (nome fictício), empresário de 37 anos, estava há oito dias no JA quando relatou sua experiência; “Procurei psiquiatra, psicólogo, fiquei três meses sem jogar. Achei que tinha vencido, mas voltei. Faz oito dias que estou no Jogadores Anônimos, e é a primeira vez, em muito tempo, que sinto minha cabeça um pouco mais leve. É um lugar onde a gente é acolhido, onde finalmente entendi que isso não é fraqueza, não é falta de caráter, é doença, e doença se trata.”

No site do JA, é possível realizar um autoteste de 20 perguntas para identificar o vício e localizar grupos e horários de reunião disponíveis.

 

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