Simão Brayer: Homem que Calculava brasileiro
Em uma das últimas entrevistas para a revista VICE, em janeiro deste ano, Simão contou algumas de suas histórias sobre a implantação das loterias no país e defendeu a legalização dos jogos no Brasil como uma forma de combater a corrupção.
Confira:
“Para sabermos mais sobre os dados do bicho no país, fomos atrás de um professor. Simão Brayer, 88, nos recebeu em seu apartamento, no Leblon. Andando com dificuldade e com uma máquina de diálise instalada no meio da sua sala, Brayer é uma espécie de Homem que Calculava brasileiro. Com toda a dose de malemolência que isso requer.
Mineiro de nascimento, Simão se mudou para o Rio de Janeiro ainda jovem para estudar. Na então capital do país, ele se formou em arquitetura, mas seu interesse era mesmo a matemática e a tecnologia. Não é à toa que Simão é quem moderniza o sistema bancário do Banco do Estado da Guanabara assim como o sistema das lotéricas no Brasil.
Agora rebobina a fita. O ano é 1967 quando Simão é chamado para implementar no país a loteria esportiva. "Durante o governo militar do Costa e Silva, queriam instituir o novo jogo (que seguia o modelo da loteria esportiva italiana) num prazo de 90 dias. As empresas de informática do Rio de Janeiro foram convocadas, entre elas a RACIMEC (que eu fundei em 1966), mas ninguém quis fazer em um prazo tão curto e com um contrato de risco”, relembra Simão.
Entre idas e vindas, enfim, a loteria esportiva vira realidade em 1970. “Prevíamos um volume de dois milhões de apostas em um prazo de dois anos, mas em seis semanas tínhamos seis milhões de apostas”, conta.
Simão estava na crista da onda. Nosso homem que calculava conta que o melhor governo brasileiro para as loterias foi o período em que Médici (1969-1974) esteve no poder. O então militar que comandava o país era simpático ao jogo e queria modernizar o sistema das lotéricas. "O Médici aprova a máquina que eu desenvolvi e como ele era muito apaixonado por futebol, quis conhecer como funcionava o sistema lotérico por dentro", fala saudoso Simão.
Depois do sucesso da loteria esportiva, Simão é convocado pelo próprio governo para dar uma solução ao jogo do bicho. “Foi quando fui à Las Vegas e tive acesso às técnicas de segurança dos cassinos. Provei que o sistema poderia ser empregado no país, mas pelo visto as pessoas não querem isso por aqui”, argumenta dando a entender que não são apenas os bicheiros que ganham com a contravenção.
Mas por que não inventar um jogo nos moldes do bicho, que possa ser operado legalmente? Com essa ideia, Simão desenvolveu o jogo dos sonhos, que era operado pelas próprias loterias da CEF.
“Em meados de 1970, O jogo dos sonhos foi lançado em Londrina em uma fase experimental, mas fracassou graças ao boicote dos bicheiros”, argumenta Simão. Essa história está registrada num livro escrito por Simão, O Show Tem Que Continuar, no qual ele conta como tecnologia é aplicada no sistema lotérico do país. Fiquei confusa, se os bicheiros eram então os vilões, e seria Simão contra ou a favor da legalização?
“É hipocrisia não legalizar. Quem perde é o povo. Com a ilegalidade você só tem o aumento da corrupção", dispara Simão. "A nossa lei é interessante. Ela não é igual para todo mundo. A Caixa Econômica Federal explora o jogo de azar, mas por que só pra ela é permitido?”.” (Revista VICE – Fotos por Matias Maxx)


