Soldado americano nega fraude em apostas sobre saída de Maduro da Venezuela

Um sargento das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos negou as acusações de fraude relacionadas a apostas sobre a saída de Nicolás Maduro da presidência da Venezuela. Gannon Van Dyke, de 38 anos, apresentou sua declaração nesta terça-feira (28) no tribunal distrital de Manhattan, perante a juíza Margaret Garnett. O militar é acusado de ter usado informações confidenciais do governo para lucrar US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) em apostas na plataforma Polymarket.
Van Dyke compareceu à audiência de cabeça raspada, vestindo blazer, jeans e sapatos marrons. Ao se levantar para apresentar sua declaração formal, afirmou: “Inocente, meritíssima”. O sargento de primeira classe responde a cinco acusações criminais federais.
O Departamento de Justiça indiciou Van Dyke na semana passada, conforme reportado pelo VALOR com Reuters. Os promotores alegam que o militar tinha acesso a dados sigilosos sobre operações militares americanas na Venezuela. Segundo a acusação, Van Dyke participou do “planejamento e execução” da operação de 3 de janeiro de 2026 que resultou na captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
As apostas foram realizadas entre 27 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026. Van Dyke investiu US$ 33 mil na Polymarket em eventos relacionados à Venezuela. Os mercados atribuíam baixas probabilidades aos acontecimentos sobre os quais o soldado apostou, resultando em pagamentos expressivos.
O militar estava lotado em Fort Bragg, na Carolina do Norte. A juíza Garnett concedeu liberdade mediante fiança de US$ 250 mil. Van Dyke teve suas viagens restritas a partes da Carolina do Norte, Nova York e Califórnia, onde possui familiares.
O advogado de defesa Mark Geragos contestou a validade da acusação após a audiência. “O senhor Van Dyke é um herói americano, alguém que, infelizmente, está sendo acusado de algo que não é crime”, declarou Geragos a repórteres.
As acusações incluem uso ilegal de informações confidenciais do governo para ganho pessoal, roubo de informações governamentais não públicas, fraude com commodities, fraude eletrônica e realização de transação financeira ilegal. Jay Clayton, procurador federal do distrito sul de Nova York, afirmou que o sargento Van Dyke usou informações confidenciais para “fazer apostas sobre o momento e o resultado dessa mesma operação, tudo para obter lucro”. Clayton acrescentou: “Os mercados de previsão não são um refúgio para o uso de informações confidenciais ou classificadas, obtidas de forma indevida, com o objetivo de obter ganhos pessoais”.
O caso representa a primeira vez que o Departamento de Justiça apresenta acusações de uso de informação privilegiada envolvendo um mercado de previsões. A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities também apresentou acusações civis contra o militar.
O número crescente de empresas que administram mercados de previsão tem sido alvo de maior escrutínio nos últimos meses, e aumentam as preocupações de que pessoas com acesso a informações privilegiadas possam tirar proveito de seus conhecimentos. Em março de 2026, foram apresentados projetos de lei no Senado e na Câmara dos Representantes dos EUA para limitar o uso de um site popular, o Kalshi, por parte de funcionários públicos, e os estados também estão considerando regulamentações mais rigorosas.
O site do mercado de previsões Kalshi foi cofundado pela brasileira Luana Lopes Lara, que, em dezembro de 2025, aos 29 anos, foi apontada pela revista Forbes como a bilionária “self-made” (que cria a própria fortuna) mais jovem do mundo.
A Polymarket informou que sinalizou as negociações de Van Dyke às autoridades. A plataforma cooperou com a investigação. A Kalshi, plataforma rival, já havia impedido Van Dyke de abrir uma conta devido às exigências de identificação, conforme informou a Reuters na sexta-feira (24), citando uma pessoa familiarizada com o assunto.
Suspeita-se que pessoas com acesso a informações privilegiadas tenham usado os mercados de previsão para lucrar com suas apostas sobre eventos mundiais, o que levantou preocupações sobre riscos ao planejamento militar. A Casa Branca emitiu um alerta aos funcionários no mês passado contra o uso de informações privilegiadas, em meio a um aumento de negociações suspeitas em mercados de previsão, futuros de petróleo e ações ligadas a momentos cruciais de conflitos.
Questionado sobre as preocupações de que funcionários federais possam estar envolvidos em uso de informações privilegiadas sobre a guerra no Irã, por meio dos mercados de previsões, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quinta que “infelizmente, o mundo inteiro se tornou uma espécie de cassino”. Ele acrescentou: “Nunca fui muito a favor disso. Não gosto da ideia. É o que é. Não estou satisfeito com nada disso”.
Nas horas que antecederam a captura de Maduro pelas tropas americanas em 3 de janeiro, foi noticiado que um usuário do Polymarket fez uma aposta de US$ 32 mil de que Maduro estaria fora do poder até o final de janeiro, lucrando mais de US$ 400 mil. Não ficou claro nesta quinta-feira se as acusações na denúncia estavam relacionadas a essa aposta.
A situação de Van Dyke nas Forças Armadas permanece indefinida. O advogado Zach Intrater informou no tribunal: “O status final ainda está um pouco indefinido neste momento”. Ele acrescentou: “Por enquanto, ele ainda está associado ao Exército.”
A próxima audiência está marcada para 8 de junho. Van Dyke permanecerá em liberdade sob fiança com restrições de viagem.


