Turnover não é dinheiro novo: o que a nota da SPA-MF diz, e o que não diz, sobre o maior apostador de 2025

Apostas I 20.10.26

Por: Magno José

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Advogado acumula R$ 145 mi em perdas na Blaze; Justiça de SP nega bloqueio
Documento da Fazenda aponta falhas de prevenção à lavagem de dinheiro na operadora da Blaze. Os R$ 5 bilhões atribuídos ao advogado Willer Tomaz somam apostas e reapostas; a perda líquida declarada no processo é de R$ 163,2 milhões (Foto: Agência Senado)

Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, datada de 1º de outubro de 2026, identificou o advogado Willer Tomaz como a pessoa física com o maior volume de depósitos em plataformas de apostas de quota fixa no Brasil em 2025. Segundo o documento, o valor depositado por ele foi quase o dobro do registrado pelo segundo colocado. A nota foi revelada pelo UOL e depois obtida pelo jornal O Globo.

O número que circula, de cerca de R$ 5 bilhões “apostados”, precisa ser lido com cuidado. Trata-se de volume movimentado (turnover), que soma cada aposta feita, inclusive as reapostas de valores ganhos na rodada anterior. Ele não equivale a dinheiro novo depositado. Em ação cível que move na Justiça de São Paulo, o próprio advogado apresentou o comprovante anual da Blaze. O documento registra R$ 4,8 bilhões em ganhos e quase R$ 5 bilhões em perdas em jogos de cassino em 2025, com resultado líquido negativo de R$ 163,2 milhões. No mesmo período, os saques na plataforma somaram R$ 200 milhões, segundo a SPA.

Os valores reais continuam muito altos e justificam o alerta do regulador. Mas é o resultado líquido, e não o turnover, que mede quanto dinheiro efetivamente saiu do bolso do apostador.

O foco do regulador é a operadora

O ponto central da nota técnica é a conduta da Foggo Entertainment, operadora da marca Blaze. Os técnicos da SPA citam o caso como exemplo de falha nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e de monitoramento de clientes. Mesmo diante do volume movimentado, a empresa classificou o cliente como de “risco médio”. Para a SPA, ele deveria ter sido enquadrado como risco máximo, por apresentar padrões atípicos de jogo e possível incompatibilidade entre capacidade financeira e volume de operações. O órgão vê indícios de “culpa ou dolo” da operadora e sugere que a omissão pode ter ocorrido para evitar perda de receita.

Investigação e defesa

O advogado é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. O inquérito é um desdobramento de apuração da Polícia Federal do Rio Grande do Sul sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de bets. A PF apura se os valores foram de fato apostados ou se houve apostas fictícias. Segundo os investigadores, há indícios de que Tomaz controla a Rede Loto, autorizada pela loteria do Estado do Rio de Janeiro em maio de 2023.

Em nota, a assessoria de Willer Tomaz afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal. Diz também que o volume apostado “não representa dinheiro novo”. A defesa questiona ainda o vazamento de um documento sigiloso em período eleitoral. No processo contra a Blaze, porém, a mesma defesa alega que ele sofre de ludopatia e pede a devolução dos valores perdidos.

O que o caso ensina

Para o mercado regulado, a lição não está no nome do apostador. Está na obrigação de a operadora conhecer o cliente, monitorar padrões atípicos e reportar o que foge da normalidade. Esse controle só existe porque o setor é regulado. Na ilegalidade, um caso como esse sequer chegaria ao conhecimento do Estado.

A nota na íntegra enviada pela assessoria de Willer Tomaz:

“O tema é objeto de ação judicial em curso e já foi amplamente noticiado pela imprensa, o que torna a pauta mais uma repetição de informações conhecidas.

Os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal.

As cifras apresentadas não correspondem à realidade: o chamado volume apostado soma reapostas sucessivas de um mesmo montante e, por isso, não representa dinheiro novo.

O advogado Willer Tomaz nunca recorreu a ferramenta automatizada nem fracionou operações para contornar qualquer controle.

Na 7K, foi cliente como qualquer outro, sem vínculo societário, comercial ou pessoal com a empresa ou seus controladores, e não é alvo da Operação Narco Bet.

Causa estranheza que um documento técnico de órgão federal, contendo dados protegidos por sigilo, chegue à imprensa justamente em período eleitoral. Por se tratar de assunto de natureza estritamente pessoal e submetido ao Judiciário, Willer não fará outros comentários.”

 

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