‘Vale o Escrito’, ‘Donos do Jogo’, ‘Corrida dos Bichos’… como o Jogo do Bicho é retratado nas telas?

Um levantamento reuniu 20 produções audiovisuais brasileiras que retrataram o universo do jogo do bicho entre 1952 e 2026. A pesquisa identificou mudanças radicais na representação do bicheiro ao longo desse período. O personagem que aparecia como apontador romântico nos anos 1950 transformou-se no mafioso violento das superproduções atuais.
O historiador Luiz Antônio Simas, autor do livro “Maldito Invento dum Baronete: Um Breve História do Jogo do Bicho”, analisou o fascínio do público pelo tema. Segundo ele, o interesse transcende o jogo em si e está ligado à cultura das ruas e suas contradições, conforme reportagem do g1 Globo.
“O bicho dialoga com o botequim, com a esquina, com o mundo do samba e do Carnaval. Mas também dialoga com a violência, com a segurança, com as relações entre poder público e privado”, explica.
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Transformação reflete mudanças no crime real
A representação do bicheiro mudou conforme o crime organizado se transformou na vida real. Em “Amei um Bicheiro”, de 1952, o personagem era retratado como apontador romântico. “Senhora do Destino”, novela exibida em 2004, apresentou o bicheiro como malandro carismático. “Os Donos do Jogo”, série de 2025, mostrou o contraventor como mafioso violento.
O Prime Video lançou em 2026 “Corrida dos Bichos”. O filme apresenta uma distopia futurista onde a contravenção evolui para uma competição estilo “Jogos Vorazes”.
Simas revela que a maioria das pessoas que apreciam produções sobre o tema desconhece as regras do jogo. “De cada 10 pessoas que eu conheço que amam filmes sobre o tema, nove não fazem a menor ideia de como se joga no bicho”, conta.
Os 20 títulos selecionados pelo g1 em ordem cronológica:
⇒ Amei um bicheiro (1952)
⇒ Boca de Ouro (1963)
⇒ Bandeira 2 (1971)
⇒ Mário Fofoca (1983)
⇒ Partido Alto (1984)
⇒ O Rei do Rio (1985)
⇒ Mandala (1987)
⇒ Fogo no Rabo (1988)
⇒ Sai de Baixo (1999)
⇒ Senhora do Destino (2004)
⇒ A Grande Família (2006)
⇒ Lara com Z (2011)
⇒ Giovanni Improtta (2013)
⇒ Doutor Castor (2021)
⇒ Lei da Selva (2022)
⇒ Vale o Escrito (2023)
⇒ Vai Que Cola (2023)
⇒ Volta por Cima (2024)
⇒ Os Donos do Jogo (2025)
⇒ Corrida dos bichos (2026)
Modalidade brasileira atrai público
A dramaturgia nacional encontrou no jogo do bicho a versão brasileira dos filmes de máfia. O historiador explica a atração que o público sente por séries como “Os Donos do Jogo”, da Netflix.
“A máfia no cinema seduz mais do que horroriza. Ao mesmo tempo em que você mostra o horror, esse horror é sedutor. As pessoas se encantam pelo ambiente em que ele está inserido”, analisa.
Simas diferencia documento de entretenimento. Séries como “Vale o Escrito”, do Globoplay, expõem dilemas reais. A ficção aposta no delírio e no romance.
O historiador aponta um problema na forma como o tema é tratado. “O grande equívoco é tratar o jogo do bicho por apenas um viés: ou restringi-lo ao crime ou romantizar a contravenção”, defende.
Anos 1950: personagem romântico
O filme “Amei um bicheiro” estreou em 1952. A produção apresentou Carlos (Cyl Farney), um jovem ambicioso que sai do interior e vai para o Rio de Janeiro. O personagem acaba se envolvendo com o jogo do bicho. Depois de um tempo na cadeia, Carlos resolve mudar de vida ao se casar com Laura (Eliana Macedo) e viver honestamente.
Anos 1960: chefe em Madureira
O filme “Boca de Ouro” chegou aos cinemas em 1963. A produção trouxe Boca de Ouro (Jece Valadão) como o chefe do jogo do bicho em Madureira, no Rio de Janeiro. Após a morte do Boca, o repórter Caveirinha (Ivan Cândido) decide ir atrás de Guigui (Odete Lara), antiga amante do bicheiro. O filme ganhou uma segunda versão em 2019. Daniel Filho dirigiu a nova produção protagonizada por Marcos Palmeira.
Anos 1970: submundo carioca
A TV Globo exibiu a novela “Bandeira 2” em 1971. A produção teve 179 capítulos. A trama fez um retrato do submundo dos chefões do jogo do bicho no Rio de Janeiro. A novela mostrou a difícil e constante luta pela sobrevivência nas zonas mais pobres da cidade e a busca por realizações profissionais.
Anos 1980: detetive e contraventores
A TV Globo exibiu a série de ficção “Mário Fofoca” em 1983. A trama apresentou o detetive vivido por Luis Gustavo. O personagem se muda para o Rio. Com a ajuda de um amigo, passa a investigar casos de infidelidade. No enredo do episódio “O Rei dos Bicheiros”, a investigação sobre a suposta traição de um contraventor termina em um acidente que deixa os envolvidos irreconhecíveis.
A TV Globo exibiu a série de ficção “Partido Alto” em 1984. A produção retratou a vida de moradores da Zona Sul e do subúrbio carioca. No episódio 122, Piscina (José Mayer) diz a Jussara (Betty Faria) que irá tirar Jorginho (José Mayer) da casa do bicheiro.
O filme “O Rei do Rio” chegou aos cinemas em 1985. A produção foi baseada na peça “O Rei de Ramos”, escrita por Dias Gomes. A trama acompanhava Tucão (Nuno Leal Maia) e Nico Sabonete (Nelson Xavier), dois funcionários do bicheiro Cacareco (Milton Gonçalves). Na história, o ambicioso Tucão convencia o amigo a tomar alguns pontos de Cacareco para iniciarem suas próprias carreiras no jogo do bicho.
A TV Globo exibiu a novela das 20h “Mandala” em 1987. A produção trouxe Tony Carrado (Nuno Leal Maia) como um dos personagens centrais. O bicheiro era apresentado sob uma estética que combinava o “cafona” ao romântico. O personagem era temido no submundo da contravenção carioca. Ele se submetia à paixão pela protagonista Jocasta (Vera Fischer).
O programa “TV Pirata” exibiu “Fogo no Rabo” em 1988. A produção era uma paródia da novela “Roda de Fogo”, transmitida em 1986. No oitavo episódio da primeira temporada, o personagem Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães) decidia ir para Atlantic City acompanhado de Penélope e um grupo de bicheiros.
Anos 1990: apontador na comédia
A TV Globo exibiu a série de ficção “Sai de Baixo” entre 1999 e 2002. O episódio “Anta na cabeça”, da quarta temporada, abordou o tema. Na trama, Vavá (Miguel Falabella) conseguia um emprego como apontador de jogo do bicho. A sorte da família mudava quando Magda resolvia jogar no touro. Ela ganhava uma fortuna e se tornava bicheira.
Anos 2000: personagem icônico
A TV Globo exibiu a novela “Senhora do Destino” em 2004. A produção apresentou Giovanni Improtta, bicheiro interpretado por José Wilker. O personagem foi retirado de um livro de Aguinaldo Silva. Ele se popularizou junto ao público por frases como “Não esqueça do meu lema: com Giovanni Improtta não tem problema”. Na história, Giovanni conhecia Maria do Carmo (Suzana Vieira) na prisão.
A TV Globo exibiu a série de ficção “A Grande Família” entre 2001 e 2014. A produção abordou o jogo do bicho no episódio “Tuco Mãos de Tesoura”, da sexta temporada. Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) tentava enganar como apontador do jogo do bicho por influência do bicheiro Dentada (Alexandre Zacchia). O personagem acabava sendo desmascarado. Ao final do episódio, a polícia levava todos para a delegacia. “Jogar no bicho é crime”, dizia um dos policiais. “Peraí, crime, não. É uma contravenção”, rebatia Beiçola.


