Casos na Série B revelam fragilidade do futebol diante de esquemas de manipulação de resultados

Basta ligar a TV num canal esportivo: jogadores, ex-jogadores, narradores, comentaristas, todo tipo de personalidade ligada de alguma maneira ao futebol estão fazendo propaganda de aposta esportiva. Quem prestar atenção ao que dizem as placas de publicidade em volta dos gramados de todos os campeonatos, de todos os níveis, ou às marcas estampadas em todos os uniformes, de todos os times, de todas as divisões, terá a mesma impressão: o futebol brasileiro é financiado por casas de apostas.
Essa indústria está num limbo no Brasil. É legal, mas ainda não foi regulamentada, o que naturalmente gera dúvidas quando explode um caso escandaloso como o revelado nesta semana pelo Ministério Público de Goiás. Três jogadores da Série B do Campeonato Brasileiro teriam aceitado suborno em troca de cometer pênaltis no primeiro tempo de jogos específicos. Os grandes beneficiários seriam apostadores — que usariam essas casas de apostas que patrocinam legalmente o futebol — para enriquecer ilicitamente.
O caso gerou um curto-circuito no futebol brasileiro, e não teria como ser diferente. Afinal os grandes patrocinadores da indústria foram colocados no centro de um esquema que fere de morte sua própria existência: se o futebol deixar de ser imprevisível porque seus resultados são fabricados, tudo perde valor. As próprias casas de aposta são consideradas vítimas por quem investiga o caso, afinal os picaretas apostam contra elas sabendo que vão ganhar — e que elas vão perder.
Perceba que até o Fifagate, maior investigação sobre corrupção na história do futebol, com dezenas de indiciados e presos em diversos continentes, a cúpula do futebol destronada, centenas de milhões de dólares movimentados em propinas, nunca tocou em manipulação de resultados. Até os maiores escroques da história do jogo precisavam que os resultados de campo fossem incontestáveis, puros, para poder operar seus esquemas com mais eficiência.
O caso de Goiás, descoberto pelo presidente do Vila Nova, Hugo Jorge Bravo, é estarrecedor sob vários ângulos. Primeiro, e mais importante, revela a fragilidade do futebol a ataques desse tipo. De acordo com o sindicato mundial de jogadores de futebol, ofertas indecentes para participar de esquemas de fabricação de resultados costumam atingir jogadores expostos do ponto de vista financeiro, que atuam em times e ligas menores, quase amadoras. Definitivamente não é o caso da Série B do Campeonato Brasileiro, que tem agremiações históricas, lota estádios, paga salários na casa dos cinco dígitos (ou mais) a jogadores e tem todos os seus jogos transmitidos para o Brasil inteiro. São impressionantes a audácia dos que fazem as propostas indecorosas e a ingenuidade/estupidez/maldade dos que aceitam. É assustador.
As autoridades — Ministério Público de Goiás à frente — e o governo brasileiro estão diante de uma grande oportunidade. As autoridades podem desvendar um esquema que envenena o que o jogo tem de mais sagrado. E o governo pode finalmente regulamentar uma atividade que movimenta bilhões de reais, criar órgãos de controle, estabelecer políticas de combate à lavagem de dinheiro e exigir o monitoramento de apostas contra fabricação de resultados.
(*) Martín Fernandez é jornalista esportivo. Foi repórter no Estadão e na Folha. Também atuou como redator no jornal madrilenho Marca. Atualmente, é repórter do GloboEsporte.com e colunista no Globo. Martín cobriu grandes eventos esportivos regionais e mundiais, como Copa América, Copa das Confederações, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, além de ter feito coberturas da seleção brasileira de futebol. Destaca-se pela especialização e conhecimento em temas relacionados aos bastidores e à política do futebol. Cobriu o julgamento do Fifagate — o maior caso de corrupção da história do futebol — em Nova York e fez coberturas em mais de 30 países. O artigo foi veiculado no Globo Online.


