Bono a Estrela: grupo de colombianos coordena loteria ilegal que é vendida nas ruas de Canoas e da Capital

Loteria I 05.07.23

Por: Magno José

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Estrangeiros negociam cartelas e fazem sorteios de jogo de azar sem conhecimento ou fiscalização de autoridades. Prêmios diários do jogo em Canoas são de R$ 1,5 mil, que acumulam quando não há vencedores, e podem também envolver brindes, como kits churrascos (Imagem: Reprodução)

“Sorteos para hoje… Dos sorteos para hoje… La boleta es para hoje”, anuncia o vendedor, num “portunhol” com forte sotaque castelhano. Ele é apenas mais um dentre dezenas de ambulantes que percorrem, munidos de megafones brancos com detalhes em vermelho, as ruas do bairro Guajuviras, um dos mais populosos de Canoas, na Região Metropolitana. Anunciam a venda de bilhetes de uma loteria clandestina, Bono a Estrela, modalidade criada na Colômbia e que foi trazida ao Brasil por imigrantes.

Os sorteios são conduzidos por colombianos e a maioria dos vendedores é da mesma nacionalidade, embora muitos brasileiros sejam contratados para comercializar os bilhetes. As vendas acontecem em Canoas, nos bairros Guajuviras e Mathias Velho, e em pontos da zona norte de Porto Alegre, como Humaitá e Rubem Berta, conforme constatou o Grupo de Investigação da RBS (GDI), ao monitorar por duas semanas a jogatina ilegal.

No Nordeste, colombianos que usavam a mesma loteria foram alvos de operações policiais e indiciados por exploração de jogo de azar e lavagem de dinheiro nos últimos dois anos. A Polícia Civil gaúcha informou que também apura o caso.

O Ministério da Fazenda confirmou ao GDI que a venda desses bilhetes não é permitida. Informa que, no Brasil, inexiste autorização, de modo geral, para operação de sorteios com base em captação de apostas ou comercialização de números envolvidos em eventos tais como rifa, modalidade lotérica de prognósticos numéricos ou sorteio.

A promotora Alessandra Moura Bastian da Cunha, titular do Centro de Apoio Operacional Criminal e de Acolhimento às Vítimas do MP-RS, enfatiza que os jogos de azar são proibidos no Brasil pela Lei das Contravenções Penais (Decreto-Lei 3.688, de 3 de outubro de 1941). A proibição consta nos artigos 50, 51 e, neste caso em particular, 52 (que proíbe introduzir, no país, para o fim de comércio, bilhete de loteria ou rifa estrangeiras). A pena prevista ao infrator é prisão simples (de quatro meses a um ano, além de multa).

Nada disso parece atrapalhar a jogatina. No bairro Guajuviras, mais de 30 vendedores da loteria clandestina se concentram no meio da manhã em duas lojas de artigos femininos situadas entre duas oficinas, na avenida principal do bairro. Após rápida reunião, eles saem, carregando sacolas recheadas de bilhetes. Vendem a cartela de oito números de quatro dígitos a R$ 5 para donas de casa, comerciantes, taxistas, motoristas de carros de aplicativo e caminhoneiros, entre outros. A comercialização ocorre inclusive em frente a uma companhia do 15º Batalhão de Polícia Militar ou de viaturas da BM.

O curioso é que o Bono a Estrela (Bônus para Estrela, em uma tradução livre) nem sequer se dá ao trabalho de confeccionar bilhetes em português. Usa dizeres em espanhol mesmo (“La Boleta se anulará se se encuentra rota”, avisa o papel do sorteio), o que indica que os bilhetes sejam importados.

Sorteio e premiação

Os sorteios são realizados do meio para o fim da tarde, diariamente, com um sistema próprio de apuração. Variam de local, mas a cena é a mesma: em plena rua, em frente a uma loja, o vencedor é recebido por pessoas com sotaque espanhol e leva a premiação em dinheiro vivo. Tudo é filmado e divulgado em vídeo, num número de WhatsApp que consta nas cartelas vendidas pelos agentes lotéricos informais.

A premiação promete R$ 1,5 mil, em média, por dia, mas costuma acumular. Em um dia da semana passada o vencedor foi anunciado quando o prêmio estava acumulado em R$ 6,5 mil.

Colombiana admite que gerencia a loteria ilegal

Por telefone, a colombiana Yuri Viviana Henao Osorio, 38 anos, cujo CPF aparece impresso em alguns anúncios do Bono a Estrela, confirmou que gerencia os sorteios da loteria ilegal.

— Algumas pessoas ficam responsáveis por uma praça. Eu sou a encarregada da praça do Guajuviras (bairro de Canoas) e meu chefe está na Colômbia — relata.

Yuri informou que está há dois anos no Brasil, que tem permissão para residir no país até 2029 e que abriu uma loja de bebidas, já fechada “porque não deu muito certo, não tinha tempo para ficar ali”. Foi então que aceitou gerenciar as vendas do Bono a Estrela em Canoas, proposta feita por um empresário colombiano, cujo nome ela não revela porque “não tem autorização”.

Yuri diz que recebe um percentual sobre o total que é comercializado e que os vendedores dos bilhetes lotéricos recebem uma comissão. Ela não quis revelar os valores.

Questionada se sabe que a prática de jogos de azar é proibida no Brasil e que a venda do Bono a Estrela não é permitida, ela reconhece que já ouviu falar disso. Diz que soube que é ilegal em São Paulo e admite que foi alertada que o mesmo ocorre no Rio Grande do Sul.

— Na verdade, não temos licença. Não posso falar mais, porque tenho de ser autorizada por meu chefe. (Gauchazh.Clicrbs)

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Cartelas em espanhol, anúncio com megafone e sorteios adiados em razão da chuva: como funciona a loteria ilegal Bono a Estrela
Prêmios diários do jogo em Canoas são de R$ 1,5 mil, que acumulam quando não há vencedores, e podem também envolver brindes, como kits churrascos

Realizada no bairro Guajuviras, em Canoas, na Região Metropolitana, a loteria ilegal do Bono a Estrela (Bônus a Estrela, em uma tradução livre) ocorre por meio de cartelas, com informações em espanhol. Os sorteios são coordenados por colombianos, conforme constatou o Grupo de Investigação da RBS (GDI), ao monitorar por duas semanas a jogatina.
Cada bilhete custa R$ 5 e contém oito sequências de quatro números. No pequeno papel com a aposta, há um aviso indicando que a cartela será anulada se tiver riscos, rasuras ou remendos.
No verso do cupom, há um carimbo com a data de validade da aposta. Cada cartela só serve para o dia em que é vendida. Mas, em caso de chuva, o sorteio é adiado e o bilhete com a aposta passa a valer para o dia seguinte.
Segundo os vendedores da loteria ilegal, cada bilhete é único, sem possibilidade de um milhar aparecer em mais de uma cartela ou de o prêmio ser dividido.
A sequência de milhar é sorteada, número a número, em um globo com bolas. Esses sorteios ocorrem de segunda a sábado, a partir das 16h30min, em frente a estabelecimentos comerciais na avenida principal do bairro Guajuviras.
O apostador pode contatar um número de WhatsApp presente na cartela, por onde é possível acompanhar informações sobre o Bono a Estrela. Pelos stories do app, a loteria costuma publicar avisos e vídeos com sorteios e premiações.
O pagamento é realizado com dinheiro vivo, geralmente no local onde é realizado o sorteio. O número vencedor também é divulgado pelos vendedores com megafone em um carro, que circula pelas ruas do bairro.
A premiação costuma acumular de R$ 1,5 mil em R$ 1,5 mil. Ocasionalmente, há possibilidade de haver distribuição de outros brindes, como kit churrasco, para um segundo milhar sorteado.

Colombianos em Canoas
Segundo dados retirados do Banco Interativo do Observatório das Migrações em São Paulo — NEPO/UNICAMP, de janeiro de 2000 a março de 2022, 4.727 migrantes obtiveram o Registro Nacional Migratório como habitantes de Canoas. Entre as principais nacionalidades que migraram para o município, os colombianos foram a terceira mais presente, com 13%, o que representa pouco mais de 600 pessoas, atrás dos venezuelanos (29%) e haitianos (38%).
As vindas de colombianos para o município foram motivadas por fugas de regiões de conflito, ameaças de morte e confrontos armados, conforme informações da Coordenadoria de Igualdade Racial, Povos Originários e Imigrantes de Canoas. O órgão ressalta que houve casos de pessoas que se recusaram a colaborar com guerrilheiros no país.

Produto velho na Colômbia
Apesar da ocorrência da Bono a Estrela ser recente em Canoas e no Brasil, o produto é antigo na Colômbia, a ponto de estar defasado. O formato de loteria aplicado na Região Metropolitana era recorrente no país entre os anos 1980 e 1990, segundo informações do jornalista Rubén Benjumea. A atividade também é ilegal por lá.
— Aqui, por exemplo, golpistas sorteavam carros e iam de cidade em cidade, vendendo bilhetes e enganando as pessoas, pois nunca apareciam (para a premiação) — relata Benjumea.
Conforme o jornalista, hoje em dia esse tipo de delito já não se vê por lá. Ele acrescenta também que o Bono a Estrela seria difícil de ser reproduzido no país por dois motivos:
— As pessoas já não caem mais nessa armadilha. E também os mercados ilícitos, comandado por organizações criminosas, impediriam esse tipo de negócio. (Assista ao vídeo no GZH – Humberto Trezzi, Ronaldo Bernardi e William Mansque)

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Loteria ilegal como a vendida em Canoas levou colombianos à prisão em outros Estados brasileiros

Bono a Estrela: grupo de colombianos coordena loteria ilegal que é vendida nas ruas de Canoas e da Capital 1
Na Bahia, em maio de 2022, a Polícia Civil desencadeou a operação Cai quem Quer (Polícia Civil / Divulgação)

Na Bahia, dois integrantes de grupo foram presos e indiciados por jogos de azar e lavagem de dinheiro; em Pernambuco, prática também é investigada

Modalidades de loterias semelhantes ao Bono a Estrela, que é vendido em ruas do bairro Guajuviras, um dos mais populosos de Canoas, na Região Metropolitana, já foram alvo de investigações policiais em outras regiões do país. No RS, grupo de colombianos coordena a jogatina, que também é comercializada em bairros da zona norte de Porto Alegre, conforme constatou o Grupo de Investigação da RBS (GDI), que monitorou a situação por duas semanas.

Na Bahia, em maio de 2022, a Polícia Civil desencadeou a operação Cai quem Quer, que desbaratou um jogo idêntico ao promovido no Rio Grande do Sul, a começar pelo nome: Bono Estrela (sem o a). Foram apreendidos num condomínio da cidade de Teixeira de Freitas equipamentos para sorteios, placas de entidades beneficentes, equipamentos de escritório, megafones, computadores, câmeras de vídeo e dinheiro, além de cartelas.

Além do material apreendido na Bahia, dois colombianos foram presos e indiciados por exploração de jogos de azar e lavagem de dinheiro. Investigação sobre atuação deles em Minas Gerais também é checada por policiais.

— Faziam os sorteios sem qualquer regulamentação. A ausência de licença do Ministério da Fazenda caracteriza a exploração do jogo de azar. Os presos admitiram que vêm ao Brasil para trabalhar especificamente com isso e que seu patrão é colombiano — conta o delegado Bruno Ferrari, responsável por essa operação.

Sorteio dos Amigos ou Cinco pra 500

Outra investigação transcorre em Pernambuco. A Polícia Civil realizou, em maio, a operação Cumbia, batizada em homenagem à mais colombiana das danças. O alvo, como o nome indica, foram colombianos, dedicados à prática de jogos de azar e lavagem de dinheiro.

Em Pernambuco o jogo também é chamado Sorteio dos Amigos ou Cinco pra 500, numa referência aos valores pagos para cada aposta vencedora. Os bilhetes são iguais aos vendidos no Rio Grande do Sul.

Os policiais concluíram que os colombianos atuam em vários núcleos, tanto que a operação foi desencadeada, de forma simultânea, em Pernambuco, Alagoas, Maranhão e são feitas investigações também no Amazonas e Amapá, informa o delegado pernambucano Adyr Almeida, responsável pela Operação Cumbia.

— Aqui eles vendem cartelas, com números, durante o dia. Contratam jovens para vender essas cartelas, geralmente no centro da cidade. No fim do dia, 16h ou 17h, eles montam um globo pra fazer extração dos números. A pessoa que comprou aquela cartela com o número sorteado ganha R$ 500. A gente percebe que é uma rede de colombianos que age no Brasil pelo crime de jogo ilegal e, consequentemente, são enquadrados por organização criminosa e lavagem de dinheiro, obtido de forma ilegal — explica Almeida.

O delegado diz que identificou 25 alvos, sendo os líderes — pai e filho — e mais 23 que trabalham para essa organização como se fossem gerentes regionais, em cidades do interior do Nordeste. Eles estão indiciados por dois tipos de delitos. O primeiro deles é contravenção penal (porque não é regulamentada pelo Estado e pode acarretar danos patrimoniais ao cidadão).

— Tanto que muitos jogos no Brasil são regulamentados pela Caixa Econômica Federal. Mas quando concentra o poder da aposta, da sorte, a uma pessoa só, ela é passível de fraude e enriquecimento ilícito. Por isso o Estado tem que tutelar.

O outro delito a que eles responderão é lavagem de dinheiro, pela ocultação de capitais advindos de produto ilícito.

— No caso, esses colombianos não declaram imposto de renda, e esse dinheiro é advindo de aposta ilegal. No momento que essa pessoa movimenta esse dinheiro, não declara para a Receita Federal — finaliza o delegado.

Almeida salienta que colombianos que vendiam cartelas similares ao Bono a Estrela (bônus a Estrela, numa tradução livre) no Nordeste também são investigados por vínculos com a agiotagem. Eles fazem empréstimos apenas para pessoas jurídicas (comerciantes endividados, via de regra). (Gauchazh.Clicrbs)

 

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