Os jogos em Minas

Destaque I 13.08.15

Por: sync

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A possibilidade de retorno dos cassinos no Brasil, cuja proibição ocorreu em 1946, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, está deixando boa parte das cidades mineiras que já abrigaram essas casas de jogos nos anos 1930 e 1940 com expectativa de crescimento de turistas atraídos pelas roletas. Ainda está longe de a legalização ocorrer porque somente agora foi criada comissão especial na Câmara dos Deputados para analisar a proposta que, vira e mexe, volta à tona. A história dos cassinos no país se confunde com o desenvolvimento turístico e econômico de cidades do Sul de Minas, como São Lourenço, Lambari, Poços de Caldas, Caxambu e de Araxá, no Alto Paranaíba. Com o fechamento, esses municípios tiveram de reinventar seu foco turístico. Mas nem todos conseguiram acabar com a dependência dos jogos.

A aposta mais comum foi nas suas estâncias hidrominerais, nas águas com propriedades curativas, que, aliás, eram pretexto para muitos jogadores que as frequentavam, atraídos, na verdade, pelos cassinos. Além dos jogos, essas casas eram palcos de verdadeiras superproduções musicais e teatrais, que atraíam admiradores das cantoras da época de ouro do rádio brasileiro, e atrações internacionais. Em Araxá, o cassino funcionou por 2 anos no salão Minas Gerais, do Grande Hotel. “A saída do cassino da cidade foi, gradativamente, levando os turistas embora. Alguns ainda vinham tomar seus banhos nas termas, passar férias, mas aos poucos começou a mudar o foco para o turismo de lazer e atrair congressos”, relembra o secretário de Desenvolvimento Econômico de Araxá, Leandro Haddad.

Na época áurea dos cassinos, a ainda pequena Caxambu, com seus atuais 22 mil habitantes, também viveu seu apogeu nas 3 casas de jogos que abrigava. “Os turistas vinham para jogar nos cassinos, que eram muito frequentados e impulsionavam os hotéis, o comércio local, os restaurantes”, diz o secretário de Turismo, Claudinei Bruno da Silva. Segundo ele, há pelo menos 20 anos a cidade não tem crescimento econômico e, um pouco disso, ainda é reflexo do fechamento dos cassinos. A cidade não conseguiu se manter atraente aos olhos dos turistas que não apreciavam as roletas.

Já Poços de Caldas passou pela descoberta da água e o termalismo. Ao longo dos anos, foi buscando várias formas de atrair os mais diferentes tipos de turistas para se fortalecer cada vez mais nesse setor. A cidade é considerada para turismo de bem-estar, por ser tranquila, abrigar muitas praças, ter as termas. Da época dos cassinos, Poços conserva os prédios. “Alguns deles, da década de 1930, ainda são mantidos pelo município”, conta Rose Lino, diretora de Turismo. Atualmente, com 160 mil habitantes, a cidade, segundo ela, não dependeria exclusivamente do retorno dos cassinos. Eles seriam, na prática, um plus.

A legalização dos cassinos ainda não foi aprovada, mas, há apostas no Congresso Nacional que, desta vez, ela ocorra. Enquanto isso, as cidades mineiras, que já os abrigaram, vivem a expectativa de seu retorno. Para Caxambu, seria a redenção. O local vive de repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e do IPTU. “A reabertura resgataria o turismo para a região, criaria empregos, atrairia turistas e os manteria por mais tempo na cidade, girando o comércio local, restaurantes e hotéis”, justifica o secretário Claudinei Bruno da Silva. Segundo ele, a prefeitura agiria na iniciativa de buscar investidores. “A maior parte dos prédios tem como abrigar os cassinos se a lei for aprovada, pois funcionavam em hotéis ainda em atividade.”

Mesmo tendo conseguido diversificar seu turismo, Poços de Caldas ganharia com a reativação de seus cassinos ou até mesmo implantação de novas casas de jogos. “Devido ao destaque que Poços já obteve no passado com os cassinos, com certeza, caso seja aprovada sua reabertura, a cidade, naturalmente, será destino para um novo tipo de turismo, já que recebemos eventos para idosos, religiosos e esportivos”, diz o prefeito de Poços de Caldas, Eloisio Lourenço (PT). Ele lembra que não há nenhuma movimentação do município nesse sentido, visto que não há legislação, mas acredita que, pelo histórico de Poços, a iniciativa privada investiria nesse nicho de turismo.

Tendo abrigado vários cassinos no século passado, São Lourenço, ainda não discutiu a possibilidade do retorno das casas. Mas, a administração municipal defende a realização de estudos para conhecer os prós e contras da existência de cassinos. “A reabertura traria maior número de turistas à cidade e aumentaria o crescimento da nossa economia. Por outro lado, poderia nos trazer problemas sociais e na área de segurança. Portanto, antes da aprovação do projeto, teria que ser feito estudo para analisar os impactos e as consequências, visto que a atual realidade é completamente diferente da do século passado”, pondera o secretário de Governo de São Lourenço, Luís Cláudio de Carvalho.

Em Araxá, a possível legalização é comemorada pelo Executivo municipal. “Se o cassino vier, e a gente sabe da procura que os jogos têm, principalmente pelos exemplos do exterior, vamos precisar de mais hotéis, pousadas e restaurantes. É importante legalizar porque o jogo acontece clandestinamente. Então, é preciso aproveitar esse momento para aumentar a arrecadação de impostos”, afirma Leandro Haddad. No caso de aprovação da lei, a preferência, segundo ele, seria para investimento no Grande Hotel e Termas de Araxá, administrado pelo Grupo Tauá, em virtude de o local já ter estrutura pronta para isto.

Haddad diz que o cassino não pode funcionar somente como casa de jogos e que precisa estar ligado à questão turística. “É preciso manter esse vínculo. Recentemente, recebemos campeonato de pôquer, que é um dos produtos do cassino. Muita gente se hospedou nos hotéis da cidade.” Também, por isso, a prefeitura de Araxá tem interesse em criar condições para viabilizar negócios paralelos, como investimento em hotéis, restaurantes e nos mais de 50 setores que estão, de alguma forma, ligados ao turismo. “Só de pensar no retorno do cassino ao Grande Hotel, teríamos, pelo menos, a geração de 300 empregos diretos somente no início, podendo chegar a 3 mil em 3 ou 4 anos, considerando toda a cadeia turística”, contabiliza. Para ele, além da questão econômica, os cassinos também teriam forte papel na cultura. “Em outros países, eles abrigam shows musicais, teatro.”

IPI de setores campeões de arrecadação

R$ 2,736 bilhões – Cide (Combustíveis)

R$ 3,147 bilhões – Bebidas

R$ 4,077 bilhões – Fumo

R$ 4,126 bilhões – Automóveis

R$ 15 bilhões – Previsão dos jogos legalizados.

Cidades que tiveram cassino em Minas Gerais: Araxá, Belo Horizonte, Cambuquira,  Caxambu, Conceição do Rio Verde, Lambari, Poços de Caldas e São Lourenço.

Fatos e curiosidades

O Cassino da Urca mineiro, que funcionava em Poços de Caldas, foi construído em prazo recorde pelos engenheiros Richter & Lotufo. Em 6 meses, a casa já estava pronta;

O cassino de Lambari talvez seja o que tenha tido o menor tempo de funcionamento no mundo. Abriu apenas no dia 24 de abril de 1911, dia de sua inauguração. O motivo do fechamento foi uma briga entre o prefeito da cidade e o governador de Minas, na época, por causa do arrendamento da água mineral;

Eram palcos de grandes shows de cantores nacionais e internacionais de sucesso na época;

Getúlio Vargas tinha até suíte exclusiva no Palace Hotel, em Poços de Caldas, com a mesma decoração de seu quarto no Palácio do Catete. Contam as línguas (boas ou más), que o presidente era frequentador assíduo do cassino do hotel. (Revista Viver Brasil – Terezinha Moreira)

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